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Façanhas que precisam ser exemplo de verdade – por Luís Henrique Kittel

“Não podemos deixar que a chama da tradição vire apenas uma festa bonita”

Setembro chegou e, com ele, o coração do Rio Grande bate mais forte. É tempo de Semana Farroupilha. Mas ser gaúcho hoje é muito mais do que vestir a pilcha, tomar chimarrão e cantar o hino com orgulho. É resistir em meio a um Brasil que, tantas vezes, parece esquecer daqueles que seguram o país no braço e na lida.

No nosso hino, a frase “sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra” ecoa como um chamado. Mas precisamos perguntar: modelo para quem? Em quê? Se for em coragem, resiliência e amor à liberdade, não há dúvida de que o Rio Grande sempre foi referência. Mas quando falamos de justiça federativa, a história muda, afinal o modelo atual concentra riqueza em Brasília e devolve migalhas para o Sul. Por exemplo, em 2024, o Rio Grande do Sul arrecadou cerca de R$ 80 bilhões em tributos federais e recebeu de volta pouco mais de R$ 21 bilhões.

Isso não é pacto federativo, é exploração. Não pedimos esmola. Não pedimos que se tire de outras regiões. O que exigimos é equilíbrio, reconhecimento da contribuição que damos e respeito pela nossa realidade. O Sul enfrenta desafios logísticos, climáticos e demográficos que são únicos. Ignorar isso é perpetuar a desigualdade e condenar o gaúcho a sempre fazer muito e receber pouco.

Outro exemplo: é o produtor rural gaúcho que carrega nas costas a missão de alimentar o Brasil e ainda exportar para o mundo. Esse mesmo produtor rural é sufocado diariamente. Paga impostos altos em insumos, enfrenta estradas que encarecem o transporte, lida com uma burocracia sem fim e com uma máquina pública que parece ter o prazer em só atrapalhar. Além disso, enfrenta enchentes que arrastam tudo pelo caminho e estiagens que secam os campos por meses. Em momentos como esses, Brasília se enche de discursos bonitos sobre “solidariedade”, mas na prática o apoio chega tarde – quando chega.

Enquanto o gaúcho luta para salvar a lavoura ou o gado, precisa enfrentar uma administração pública lenta, centralizadora e distante da realidade. E esse é o verdadeiro desafio de carregar nas costas a produção do país e, ao mesmo tempo, lidar com a indiferença de quem concentra o poder e os recursos a centenas de quilômetros daqui.

Por isso, não podemos deixar que a chama da tradição vire apenas uma festa bonita do mês de setembro. Sangue farroupilha é mais do que usar bombacha e colocar lenço. É pulso firme para cobrar resultados, é a coragem de não aceitar que o Rio Grande seja tratado como coadjuvante na própria história.

Para este mês farroupilha de 2025, reforço que está mais do que na hora de exigir um verdadeiro pacto federativo. E essencial que os governos respeitam e valorizem o trabalho de quem produz e que trate o Rio Grande do Sul como parte essencial do Brasil.

Ser gaúcho é carregar no peito o orgulho da tradição, mas também é ter a coragem de enfrentar a injustiça. É lutar para que nossas façanhas sejam, de fato, exemplo de verdade.

(*) Luís Henrique Kittel, 40 anos, é jornalista formado pela então Unifra, atual UFN). É prefeito reeleito do município de Agudo (o único do PL na região), foi vice-presidente do Consórcio de Desenvolvimento Sustentável da Quarta Colônia e atualmente é vice-presidente da Associação dos Municípios da Região Central (AM Centro). Ele escreve no site às quintas-feiras.

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