Entre usar a imagem e reconhecer o protagonismo feminino na política – por João Luiz Vargas
“Precisamos mostrar mulheres que decidem, lideram, governam, fiscalizam...”

Nos últimos anos, a participação das mulheres na política deixou de ser apenas uma pauta de grupos específicos e passou a ocupar espaço no debate público. Felizmente. Afinal, falar sobre democracia também é falar sobre quem ocupa os espaços de decisão.
Mas, em tempos de campanha, é preciso fazer uma pergunta importante: estamos realmente falando de representatividade feminina ou apenas utilizando a imagem das mulheres como estratégia de comunicação?
Tem chamado atenção o fato de alguns candidatos ao Governo do Estado escolherem suas esposas para protagonizar discursos sobre a importância das mulheres. Não há problema algum em um candidato aparecer ao lado da sua companheira. Isso é natural e pode representar apoio, parceria e cumplicidade. A questão é outra.
Se o objetivo é discutir protagonismo feminino na política, por que essa mensagem não é conduzida pelas mulheres que efetivamente disputam cargos eletivos? Em uma das chapas, por exemplo, há uma candidata a vice-governadora. Por que não é ela quem ocupa esse espaço para falar sobre liderança feminina, participação política e construção de políticas públicas?
Essa escolha revela um aspecto que merece reflexão. Muitas vezes, a figura da esposa é apresentada como símbolo da família, do cuidado e dos valores familiares, buscando criar identificação com um eleitorado que valoriza esses princípios. Essa estratégia pode ser legítima do ponto de vista eleitoral. O problema surge quando ela passa a ser apresentada como se representasse, por si só, o protagonismo feminino na política.
Representatividade feminina significa muito mais do que a presença de uma mulher ao lado de um candidato. Significa participação ativa nos espaços de decisão, liderança na formulação de políticas públicas, autonomia para construir projetos e voz própria para defender ideias. É reconhecer mulheres como protagonistas, e não como personagens que ajudam a fortalecer a imagem de alguém.
Valorizar as mulheres na política não é apenas abrir espaço para que elas apareçam. É garantir que elas participem das decisões, conduzam debates, liderem campanhas e sejam reconhecidas por sua competência e capacidade de gestão.
Quando reduzimos essa discussão à imagem da esposa ao lado do candidato, corremos o risco de esvaziar uma pauta construída por décadas de luta de tantas mulheres que reivindicaram o direito de participar da política em igualdade de condições.
A presença da família em uma campanha é legítima. O apoio dos familiares também. Mas protagonismo feminino não pode ser confundido com representação por associação.
Se queremos fortalecer a participação das mulheres na política, precisamos mostrar mulheres que decidem, lideram, governam, fiscalizam e constroem políticas públicas. Porque representatividade não é estar ao lado do poder. É exercer o poder, com autonomia, competência e legitimidade.
Essa é a diferença entre usar a imagem de uma mulher e reconhecer, de fato, o seu protagonismo.
(*) João Luiz Vargas, ex-prefeito de São Sepé, ex-deputado, ex-presidente da Assembleia Legislativa e ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado). Ele escreve no site às sextas-feiras.





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