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O homem que pintou as estrelas da noite, o céu e a alma do mundo – por Carlos Dominguez

– Eu não consigo entender o que é este quadro.

– Como assim, não entender. É isso e pronto.

– Mas não pode ser só isso. Tem de ter algo mais. O que significam estes rabiscos?

– Nada. Não significam nada. São só rabiscos. É viagem de artista. Não adianta tu quereres entender.

– Como que não. Quer dizer que o cara pintou um quadro, um não, um monte de quadros, para ninguém entender? Não acredito nisso. É só olhar melhor que vou entender este treco. Para de me chatear e me deixa quieto.

– Vai ferver o radiador. Isto não é para ti, o bagual.

– Não é para ti que tem preguiça até de pensar. Olha só. Tem um folheto ali. Deve ter uma explicação. É que tu não enxerga nada mesmo. É pior que cavalo de charrete. Só vê para frente. E ainda és vesgo.

Ele se dirige a uma mesa onde existem folhetos e um grande livro. O volume lhe chama a atenção. Miró Mirall (espelho em inglês), de Alexandre Cirei, diz na capa com desenhos supercoloridos. Abre o livro com cuidado. Folheia com olhar curioso.

“Um homem é um lugar. Um receptáculo. Uma praça pública (…)”

– Caramba! – exclama.

“Juan Miró, para quem os resultados tem desenhado um caráter fortemente rebelde e fortemente tenaz, há sido levado até a direção mais transcendente de todas, precisamente por um processo insistente de negação do já estabelecido e de vontade de identificação triunfante das coisas (…)”.

Ele para de súbito de ler. Olha para o quadro na parede em frente. Entrara ali por acaso. Vamos matar o tempo, dissera o amigo que morava perto da exposição, na capital, com um ar de arrogância que não lhe caia bem.

– Matar o tempo. Que idiota – resmungou sozinho enquanto via que o colega havia sumido.

“Ser artista não era considerado uma profissão. Um artista passava por ser um homem inclinado as mulheres, a bebida e a miséria. Foi natural, pois, a reação da família de Miró de contrariar a inclinação artística dele”. Parou de ler novamente. Pensou em sentar, mas não havia cadeiras. Fechou o livro. Olhou a imagem colorida da capa. Abriu de novo, agora mais na metade para o fim do volume.

“As estrelas e as constelações formam a parte mais elevada de seu vocabulário. Permanecem como expressão de um universo espiritual, desmaterializado, a qual o autor parece reservar um respeito ancestral como imagem dos aspectos mais puros, incontaminados, da personalidade humana, dos pensamentos e dos desejos”.

– Tu sumiu! – berra o amigo cutucando ele nas costelas.

– Porra, cara. Que susto. Tu sabe que eu não gosto que me cutuquem.

– E ai, entendeu alguma coisa! Pela tua cara, acho que não. Não adianta… ovelha não é para…

A força com que o livro bateu bem no coco da cabeça desnorteou a visão do chato. Ele bambeou as pernas e só não foi ao chão por que se apoiou na mesa, quase virado-a. E o amigo gritou para ele.

– Agora tu vai ver estrelas seu merda. Quem nem o Miró viu um dia. Para tu deixar de ser mala.

Pegou o livro e saiu da li. Foi procurar um lugar para ler com calma. Ou, quem sabe, ficar olhando para os quadros em paz. 

Carlos Dominguez

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