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A música depois do fim do mundo – por Atílio Alencar

Santa Maria, aos poucos, volta a se firmar como um dos polos musicais mais movimentados do sul do Brasil. Depois de um período de certo recesso (não falo da produção local, que talvez nunca tenha alcançado níveis tão altos de intensidade e atuação), algumas iniciativas têm ajudado a reposicionar a cidade como um elo forte no circuito de shows.

Com ampla vantagem para os espaços públicos, numa tendência de ocupação e valorização da rua, o cenário vem se reorganizando também nos ambientes entre paredes. Com uma forte tradição de criação artística – seja na música, no teatro, nas artes visuais, e, de uns tempos pra cá, cada vez mais no audiovisual -, Santa Maria sempre foi, além de um celeiro criativo, um ponto estratégico para a circulação de artistas de fora da cidade.

Esse perfil é condicionado pela amplitude de interesses que é marca de uma cidade com enorme circulação de estudantes, que arejam o espaço com repertórios e bagagens simbólicas variadíssimas, influenciando diretamente nas dinâmicas culturais aqui postas em curso.

Com os desdobramentos da tragédia que aniquilou a vida de 242 jovens em janeiro de 2013, e principalmente pelas condições em que a desgraça se deu, era previsível que por algum tempo as coisas ficariam complicadas em termos de espaços difusores da música local (e falo principalmente da música autoral aqui).

Por um lado, a justa necessidade de adequação e sofisticação dos mecanismos de prevenção contra acidentes; por outro, a burocracia irracional que uniformiza o tratamento para pequenos e grandes empreendimentos noturnos, ao mesmo tempo que faz vista grossa para a situação de alguns espaços comerciais e instituições públicas, essas sim, muitas funcionando sem condições de garantir a integridade de seus usuários.

O resultado disso, por longos meses, foi uma retração das atividades noturnas com perfil de formação de público para a música autoral. A resposta coletiva (por sinal muito sadia) para esse fenômeno negativo foi a crescente ocupação dos palcos abertos – que, no entanto, não satisfaz a necessidade de retorno financeiro dos músicos.

Agora, com a reabilitação de alguns palcos e com o surgimento gradativo de novas casas e agências de produção, o cenário finalmente parece se encaminhar para uma reabertura. Dilatam-se enfim os poros da cidade outra vez para que a música feita em Santa Maria respire a plenos pulmões.

Poderia citar, sem forçar a memória, alguns shows que assisti por aqui esse ano e que figuram na minha lista de grandes eventos dos quais participei como espectador. Seria injusto, no entanto, destacar dois ou três shows frente à pluralidade de ótimas apresentações que assisti nos meses recentes.

Prefiro comemorar a alegre evidência: a música – quem a faz e quem a escuta, mas também quem se propõe a promovê-la – volta a pulsar intensamente dia e noite, sob céu aberto mas também sob os tetos de quem a recebe. Minha intuição diz que ainda assistiremos grandes shows (independente da projeção dos artistas) esse ano – e oxalá no próximo também.

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