Caminho Livre

Carta aberta – por Bianca Pereira, de Chandigarh, Índia

FREE_WAYSete letrinhas e uma palavra que (quase) não se traduz. Várias línguas chegam perto, é verdade, todas entendem o sentido, mas nenhuma é tão direta. São várias emoções juntas, mas a palavra SAUDADE define o que sinto enquanto escrevo.

Foram 26 anos tendo para onde fugir e ganhar consolo e abraços, anos recebendo conselhos e, sempre que preciso, puxões de orelha. Se vocês não me conhecem devem saber que sou muito apegada as pessoas a minha volta, não só à família de sangue, mas àqueles que pude escolher também.

Tomar a decisão de fazer intercambio é fácil. Fazer as entrevistas, passar na seleção, ver visto, seguro, passagens… tudo é feito automaticamente. Durante o mês que tive para organizar tudo só conseguia falar “é sem pensar”, “vamos no automático”, “estou pensando na parte técnica”. A ideia de deixar tudo para trás (vai fazer sentido mãe, não fica braba!) é dolorosa, de não poder ir para a casa da vó a qualquer hora porque a internet é melhor lá, ou só porque tu quer conversar com alguém que sempre te escuta; não poder brincar com meus bebês (que nem são bebês mais) e não ver eles crescerem ao vivo; de não poder convidar a maior mala da minha vida (oi Pedro!) para dar uma volta ou ir no mercadinho da esquina; de ir comer algo no centro ou beber uma cervejinha em algum lugar só porque sim; enfim, a ideia de mudar completamente de rumo, mesmo que por um ano, não foi fácil para mim.

Sempre quis sair do país, sempre achei que o mundo me esperava e que viver a vida inteira em um lugar só não era para mim. Falava disso constantemente com a mãe, que sempre me apoiou e viajava comigo para vários lugares através de séries, livros e filmes. Falava com amigos e combinava viagens, trabalhos malucos e moradias em vários países. A ideia e a vontade sempre estiveram lá e apesar de várias enrolações e outros detalhes que não vem ao caso, aconteceu.

No primeiro momento veio o choque quando saiu a vaga, uma sensação de “ok, e agora?”. No dia que soube que a vaga estava garantida tinha combinado de encontrar uma amiga e foi ela que me acalmou e lembrou que era o que eu queria e que estava no caminho certo. As reações foram mistas, a Índia não é um país muito bem visto pela sujeira e cultura bem diferente, mas a maioria delas foram positivas e foram me deixando mais animada para a aventura. O visto atrasou mas chegou, trazendo a sensação de conquista, recomeço e… perda. A política do desapego está recém entrando na minha cabeça. Essa sensação me seguiu até que alguém me lembrou que existe internet, Skype, WhatsApp e Facebook, que não estou perdendo ninguém, até porque a distância é só geográfica, e sim ganhando o mundo, fazendo novos amigos, vivendo novas experiências e colocando na bagagem muitas histórias para contar (viu mãe, era só para chegar aqui).

Esse texto veio para começar o blog mas também para agradecer as pessoas que sempre estiveram lá, bem antes do intercâmbio, tanto faz se há 26, 10, 5 ou 1 ano, mas que me escutaram, apoiaram, riram e choraram comigo tantas vezes que é impossível contar. Pessoas que fizeram de tudo para que eu pudesse estar aqui e que eu ainda estou tentando convencer de vir me visitar.

Enfim, o blog vem para mostrar a vida de uma estrangeira na Índia, não só em Chandigarh, cidade onde vou trabalhar e morar pelo próximo ano, mas em todos os lugares que conseguir visitar. Vem para questionar pré-conceitos e talvez até confirmar alguns, revelar as similaridades e diferenças e o que mais surgir nessa nova caminhada.

Não tenho ideia do que será daqui para frente, não posso dar certeza do tema do próximo texto, só posso afirmar que eles virão e que o caminho está livre para qualquer coisa.

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