Coluna

Louco é quem me diz – por Bianca Zasso

bianca-aA diretora Laís Bodanzky conquistou público e crítica com o filme Bicho de Sete Cabeças, protagonizado por um Rodrigo Santoro jovem e já talentoso. Era início dos anos 2000 e nosso cinema ganhava novo fôlego com produções que abordavam personagens jovens em situação limite. No caso do filme de Laís, era um garoto internado numa clínica psiquiátrica após seu pai encontrar um baseado em sua mochila.

Por mais verdadeiras e humanas que sejam as interpretações presentes em Bicho de sete cabeças, nada se compara a realidade crua de A loucura entre nós, documentário da baiana Fernanda Fontes Vareille, lançado recentemente em DVD pela distribuidora Obras-Primas do Cinema.

Ambientado no hospital psiquiátrico Juliano Moreira, na cidade de Salvador, A loucura entre nós inspirou-se no livro homônimo do psiquiatra Marcelo Veras, um médico que se dedicou a ver para além das neuroses seus pacientes. Sem anestesia, a documentarista Fernanda nos coloca diante de homens e mulheres com os mais diversos transtornos mentais, intercalando depoimentos insanos com diálogos tranquilos, fazendo o espectador se perguntar o que faz daquele paciente um louco diante da sociedade.

Depois de passear por vários personagens, o filme se foca em Elizângela e Leonor, duas pacientes vindas de realidades bem diferentes. Enquanto a primeira tem pouco mais de 20 anos e acumula dezenas de internações por ataques de fúria, causados pela bipolaridade, a outra é uma artista plástica que chega aos 50 anos tentando conviver com mudanças de humor, alucinações e o cotidiano dentro das oficinas promovidas dentro do hospital. Ambas recebem o mesmo rótulo da sociedade: loucas.

Por meio de falas das duas, A loucura entre nós coloca em questão o quanto é tênue a linha que separa as pessoas ditas normais das perturbadas mentalmente. A cada depoimento, dúvidas surgem em ritmo louco em nossas cabeças (sem trocadilho). Será que não é um tipo de loucura se submeter às regras do trabalho? Quem bate cartão todo santo dia sem reclamar não está um pouco louco?

Esclarecer essas dúvidas não é a função de A loucura entre nós e isso é mais um ponto positivo do documentário. Ao colocar o público para pensar sobre a loucura e apresentar os chamados loucos pelo seu lado humano, sem supervalorizar crises histéricas, faz rever conceitos que, até então, pareciam muito claros, como sanidade, tristeza e até amizade.

bianca-bA loucura entre nós tem uma câmera respeitosa mesmo quando acompanha uma espécie de tour pela ala dos pacientes mais violentos, guiada por Elizângela. Diante da lente, que parece funcionar como um imã para alguns, eles soltam o verbo com velocidade, como se quisessem apresentar-se para quem está assistindo, quase um pedido de socorro em alguns momentos. Após pouco mais de uma hora, nos vemos tocados por vidas que parecem distantes da nossa, escondidas pelas paredes e grades de um hospital. Mas estamos mais próximos dos pacientes do Hospital Juliano Moreira.

Nossas rotinas apressadas, nossos sonhos adiados e até o que parece ser a nossa felicidade, pode não passar de um transtorno. Nos extras, uma entrevista com Marcelo Veras complementa o filme com perfeição. No fundo, todo mundo que busca a cura da loucura, quer mais é entender seu lado louco.

A loucura entre nós

Ano: 2016

Direção: Fernanda Fontes Vareille

Disponível em DVD pela Obras-Primas do Cinema

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