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Língua afiada de Bolsonaro o elegeu presidente. Agora ela vai tirá-lo do cargo? – por Carlos Wagner

Para ter continuidade a campanha de vacinação contra a Covid-19 no Brasil é preciso que a China libere os insumos para a fabricação das vacinas. E quem tem que resolver esse problema é o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Apesar dos chineses serem os maiores compradores dos produtos do agronegócio brasileiro, desde que ocupou a Presidência ele, seus três filhos parlamentares e o Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty, têm se ocupado em disparar insultos contra a China. E agora? Se Bolsonaro não resolver esse problema, ele dificilmente escapará de uma ação fulminante de impeachment. A língua afiada de Bolsonaro, que o ajudou a abrir espaço na imprensa, a consolidar sua carreira política e o eleger presidente, agora poderá fazê-lo perder o emprego. Como diz o ministro da Saúde, o general da ativa do Exército Eduardo Pazuello: “É simples assim”.

Resumi no lide da nossa conversa o que é público sobre as vacinas. Mas o que quero conversar com os meus colegas jornalistas e leitores é sobre um ponto desse assunto que não está escrito. Mas é muito forte nas entrelinhas. Para quem não é jornalista: lide é a primeira frase do texto, onde o repórter diz sobre o que vai tratar. Geralmente é uma frase curta e grossa. O que escrevi no caso é mais parecido com um nariz de cera, expressão usada quando o jornalista começa um texto contando uma “historinha” e não vai direto ao ponto. Feito o esclarecimento, vamos aos fatos. Foi graças a sua língua afiada que Bolsonaro conseguiu chamar a atenção dos jornalistas quando era deputado federal pelo Rio de Janeiro. Fazendo pregações racistas, homofóbicas, machistas e a defesa intransigente dos torturadores e assassinos dos presos políticos pela Ditadura Militar (1964 1985). Em 2019, no segundo dia no cargo de presidente, já mostrou que a língua continuava afiada. Agora com muito mais poder de fogo, porque as ofensas e grosserias saem da boca do presidente do Brasil.

A língua afiada de Bolsonaro alimentou uma máquina de fake news operada pelos seus três filhos, Carlos, vereador do Rio, Eduardo, deputado federal de São Paulo, e Flávio, senador do Rio de Janeiro, auxiliados por assessores parlamentares. O grupo de pessoas que operava as fake news ficou conhecido como Gabinete do Ódio. O auge da atuação da máquina foi de março a dezembro de 2019. Sobre o assunto há informações nos arquivos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) conhecida popularmente como CPI da Fake News e em um inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) e investiga o assunto. Claro que também há dezenas de matérias que publicamos e estão disponíveis na internet. Logo nos primeiros meses de 2020 instalou-se no mundo a pandemia causada pela Covid-19. A letalidade do vírus e o fato de não existirem remédios para combatê-lo tornou a vida das pessoas um pesadelo. Bolsonaro investiu contra o vírus atacando a ciência e os procedimentos recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Tornou-se um negacionista.

Aqui é o xis da nossa conversa. Os noticiários, principalmente das TVs (aberta e a cabo), têm mostrado com riqueza de detalhes toda a trajetória de insultos, fake news e outros absurdos praticados pelo presidente do Brasil contra os chineses. Esse tipo de reportagem, usando muito material de pesquisa, tem uma história que merece ser lembrada, principalmente para quem começou no jornalismo na última década. Até os anos 2000, sempre que um repórter precisava usar material de pesquisa na sua matéria era um parto. Ele precisava requisitar para o departamento de pesquisa do jornal, que nunca tinha gente suficiente para o grande volume de trabalho. Esse sistema exigia do repórter uma organização muito grande, porque a informação de pesquisa era demorada. Existiam atalhos, que eram os jornalistas mais antigos nas redações, cuja “memória de elefante” ajudava a recordar as datas aproximadas dos acontecimentos, o que facilitava a vida do departamento de pesquisa. Por ter focado a minha carreira na cobertura de conflitos sociais e crime organizado, sempre precisei muito do material de pesquisa. Essa realidade mudou com o aperfeiçoamento e a popularização da internet, do celular e das plataformas de pesquisas offline. Hoje o repórter obtém informações – vídeos, textos, livros e processos na Justiça – da vida do personagem sobre o qual está escrevendo simplesmente apertando um botão no teclado do terminal na redação ou do celular. Esse avanço tecnológico facilitou a vida dos repórteres e qualificou a cobertura diária do noticiário porque podemos confrontar o entrevistado com a sua história.

É graças a esse avanço tecnológico que hoje os noticiários diários sobre a questão da vacinas podem mostrar todos os desaforos que o presidente e o Gabinete do Ódio dispararam contra a China. O caso das vacinas é o primeiro problema concreto que une vários segmentos da sociedade brasileira contra o presidente. Ele tornou o negacionismo uma política de governo que resultou na lambança que se tornou o Ministério da Saúde, antes uma referência internacional em vários assuntos ligados à saúde pública, como a vacinação em massa. O caso da morte por asfixia dos pacientes infectados pela Covid em Manaus (AM), causada pela falta de oxigênio nos hospitais, é obra-prima do negacionismo do governo brasileiro. Em qualquer canto do Brasil, um repórter pode ter acesso a essa informação, em uma fonte confiável, apenas apertando um botão. O que está acontecendo em Manaus e outras cidades do interior da Amazonas pode se alastrar pelo Brasil caso o avanço da Covid não seja detido pela vacinação em massa. Essa é a questão. Existem duas vacinas licenciadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A Coronavac, uma parceria entre o Instituto Butantan, de São Paulo, e a empresa chinesa Coronavac. E a da Fiocruz, do Rio de Janeiro, produzida em parceria com a Universidade de Oxford (Inglaterra) e o laboratório AstraZeneca (empresa farmacêutica global). Os insumos básicos das duas vacinas são feitos na China.

Sou um velho repórter estradeiro que anda em busca de histórias para contar desde 1979. E sou testemunha de que sempre que confrontamos um personagem com as suas contradições é fundamental se ter na mão a prova do que se escreve. E a melhor delas é o vídeo. Acredito que o problema da China vai ser resolvido. É uma questão de tempo. Mesmo assim os danos causados à saúde pública pelo negacionismo do presidente fazem parte dos 200 mil mortos pelo vírus no país. Além dos enormes prejuízos na retomada dos negócios. A língua afiada do presidente acaba de se tornar um problema para ele, graças às novas tecnologias disponíveis para os repórteres. É por aí, colegas.

*Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

Crédito da foto: Alan Santos/PR

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