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Sob nova direção – por Orlando Fonseca

O ano de 2021 fez o favor de iniciar, mas ainda sob a suspeita de que o ano passado não passou de fato. Na esfera municipal, mudanças são anunciadas pela assunção de novos atores políticos ou a permanência dos antigos mandatários com novas promessas ou disposições renovadas. É uma tentativa de burlar em nosso imaginário a forte impressão de que as coisas vão continuar com a desordem que a pandemia promoveu ali, no ano findo.

Prefeitos não podem revogar o vírus. Mesmo que tivessem feito tal promessa na campanha eleitoral – o que não é de se estranhar, na realidade por que passamos – é impossível tomar medidas com tal dimensão. Por isso é que, ainda que muitos não gostem, ou mesmo desrespeitem, é que as prefeituras colocaram fiscais nas ruas para eliminar aglomerações. Das pessoas, claro – é preciso repetir o óbvio – já que uma multidão de coronavírus não se dispersam com a chegada da guarda-municipal. Ao contrário, podem até se tornar mais fortes e espalharem o contágio com mais agilidade. Por isso as regras de isolamento social, para que não haja as condições ideais para a propagação da Covid.

Parlamentares que assumiram nas Câmaras Municipais, país afora, não podem criar leis que expulsem da cidade novos coronavírus, mesmo que o fizessem em nome de uma releitura do que é justiça, do que é contrato social, do que é liberdade e do que é bom senso. A ideia, no entanto, nesses dias em que ocupam as tribunas país afora, é a de mudança. Isso porque a população está – como é natural – esgotada com os protocolos anti-pandemia. Para isso, muitos desses novos tribunos lançam mão do senso comum, para agradar no varejo. Contudo, autoridades políticas não têm poderes para invalidar a ciência, mesmo que queiram; mesmo que queiram apenas agradar a massa ignara.

Ainda que se disponham as novíssimas ideologias, com as suas máscaras de falsidade, tentando esconder o fascismo descarado, é impossível retirar da ordem mundial o sentido histórico dos Direitos Humanos. Se bem que a humanidade, em uma fração muito grande, tenha feito de tudo para desmerecer o humanismo. Trump, derrotado pela retomada do bom senso nos EUA; Bolsonaro – eleito corrupto do ano, pelo Organized Crime and Corruption Reporting Project, um consórcio internacional que reúne jornalistas investigativos. A pauta de mudanças é grande, no entanto, maior do que os 12 meses do ano que acabou de nascer é o impacto assimétrico que a pandemia trouxe ao planeta: os “realmente” ricos ficaram ainda mais ricos, e os pobres ficaram mais miseráveis.

Enquanto em nosso país acompanhamos a desordem social e econômica, pelo comportamento errático do governo federal, vemos que as coisas no resto do mundo não estão melhores: as 500 pessoas mais ricas do planeta somaram a suas fortunas US$ 1,8 trilhão, um salto de 31%, o maior desde que o Índice de Bilionários da Bloomberg, criado há 8 anos. O diretor executivo da Tesla e da SpaceX, Elon Musk, foi quem mais viu sua fortuna crescer em 2020, já o fundador e presidente da Amazon, Jeff Bezos, enriqueceu US$ 76,9 bilhões em 2020, o segundo maior crescimento entre os bilionários, o que lhe garantiu o status de pessoa mais rica do planeta. Por aqui, o corte do Auxílio emergencial pela metade jogou 11,6 milhões na pobreza, e o governo ainda não anunciou como pretende atender a esse contingente de 65 milhões de pessoas que vinham recebendo o auxílio. Ou seja, as mudanças não podem ocorrer, pela atuação política, apenas para favorecer a economia – que anda muito bem, quando cumpre a sua vocação empreendedora. O humanismo pós-pandemia passa pela concepção de um Estado mediador, capaz de garantir a dignidade, em especial dos mais desfavorecidos. Caso contrário, a pandemia deixará sequelas sociais que exigirão vacinas muito mais potentes do que as que já estão sendo aplicadas em países sérios, ao redor do Planeta.

*Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela Da noite para o dia.

Observação do editor: Crédito da imagem: Miroslava Chrienova por Pixabay

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7 Comentários

  1. Mais do mesmo. Quando não rende risadas é cansativo. Parece um certo programa, servidores públicos de cabeça branca esbanjando sinalização de virtude, pregando distribuição de renda (dos outros) e embolsando salários polpudos. Gente que passou anos no exterior e na volta não organizou curso, orientou praticamente ninguém.
    Humanismo? Há que se fazer como os alemães, fixar o conceito primeiro. Qual humanismo? O clássico? O Marxista? O Critico? É aconselhável para evitar a empulhação semântica.

  2. Alás, o que o pessoal de humanas credita como ciência? Ou também é só uma palavra bonita para usar como ferramenta politica?
    Cavalão eleito corrupto do ano. ‘Cercou-se de figuras corruptas, usou propaganda para promover sua agenda populista, enfraqueceu o sistema jurídico, empreendeu uma guerra destrutiva contra a região Amazonica que enriqueceu os piores proprietários de terra do pais’. ‘Bolsonaro tem sido acusado de coletar salários de empregados fantasmas’. ‘A família Bolsonaro e seu circulo interno parece estar envolvida em conspiração criminosa e tem sido regularmente acusada de roubar o povo’. O resto é repetição, rachadinha, a troca do chefe da policia federal, ‘gabinete do ódio’, caso Marielle e prisão do Marcelo Crivella.
    Resumo da opera: velha tática, informação sai do pais, é ‘esquentada’ por alguma ONG ou instituição externa ‘cumpanheira’ (ou extrema imprensa estrangeira) e retorna com grande escândalo para causar polemica e desgaste de imagem. Escancara os problemas cognitivos de gente primitiva.

  3. Elon Musk apesar de bilionário faz algo que é impensável para um servidor publico. Trabalha de 80 a 90 horas por semana. Já trabalhou 120. Dormiu num colchonete no escritório muitos dias. Jogou metade da fortuna em duas empresas (Tesla e SpaceX), não dando muito certo e jogou a outra metade. Quase perdeu tudo, os amigos tiveram que pagar as contas pessoais dele.
    Bezos era vice presidente de um fundo de investimentos com 30 anos. Largou tudo, pegou uma grana com os pais e abriu uma livraria online numa garagem.
    Resumo da opera: tentam passar a ideia de que todos os bilionários assim o são porque caiu um monte de dinheiro do céu e passam o tempo como Tio Patinhas, nadando no dinheiro da caixa-forte.

  4. Pessoal de humanas não tem contato com Pareto. Daí não ficam sabendo de outras ‘concentrações’. Derek Price, físico, descobriu uma ‘lei’, metade das publicações da academia vêm da raiz quadrada de todos os autores. Ou seja, se 100 papers tem 25 autores, cinco autores publicam 50 artigos. Estatistica.
    Há também o principio de Mateus, quase dois mil anos. Esta na Biblia.

  5. ‘Pois é assim como um homem que, partindo para outro país, chamou os seus servos e lhes entregou os seus bens: a um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual segundo a sua capacidade; e seguiu viagem. O que recebera cinco talentos, foi imediatamente negociar com eles e ganhou outros cinco; do mesmo modo o que recebera dois, ganhou outros dois. Mas o que tinha recebido um só, foi-se e fez uma cova no chão e escondeu o dinheiro do seu senhor. Depois de muito tempo voltou o senhor daqueles servos e ajustou contas com eles. Chegando o que recebera cinco talentos, apresentou-lhe outros cinco, dizendo: Senhor, entregaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que ganhei. Disse-lhe o seu senhor: Muito bem, servo bom e fiel, já que foste fiel no pouco, confiar-te-ei o muito; entra no gozo do teu senhor. Chegou também o que recebera dois talentos, e disse: Senhor, entregaste-me dois talentos; aqui estão outros dois que ganhei. Disse-lhe o seu senhor: Muito bem, servo bom e fiel, já que foste fiel no pouco, confiar-te-ei o muito, entra no gozo do teu senhor.’

  6. ‘Chegou por fim o que havia recebido um só talento, dizendo: Senhor, eu soube que és um homem severo, ceifas onde não semeaste e recolhes onde não joeiraste; e, atemorizado, fui esconder o teu talento na terra; aqui tens o que é teu. Porém o seu senhor respondeu: Servo mau e preguiçoso, sabias que ceifo onde não semeei e que recolho onde não joeirei? Devias, então, ter entregado o meu dinheiro aos banqueiros e, vindo eu, teria recebido o que é meu com juros. Tirai-lhe, pois, o talento e dai-o ao que tem os dez talentos; porque a todo o que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem, ser-lhe-á tirado. Ao servo inútil, porém, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá o choro e o ranger de dentes.’

  7. Mateus 25 (parábola é repetida em Lucas). Até uma critica do ‘rentismo’ existe.
    Resumo da opera: Estado, que nada faz a contento, tem que ser mediador? ‘Estado’ não é um conceito abstrato flutuando no ar, é um conjunto de pessoas. E, infelizmente, em muitos lugares um amontoado de cabeças de bagre. Tira-se recursos da sociedade para roubar, esbanjar ou desperdiçar.

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