Contos

Bicho de chuva – Parte II – por Tânia Lopes

Apesar do tempo carregado, o homem madrugara esperançoso.

Justo quando a vida estava sem graça como mate frio e de erva lavada, lhe aparecera um novo alento!

Abriu a janelinha para entrar um ar. Farejou feito bicho e sentiu que a chuva não demorava.

Serpenteou com o pequeno caminhão, devagar, por um atalho, para desviar da estrada onde o velho estancieiro (que lhe pagara para por um motorzinho de puxar água) podia passar com a caminhoneta rumo à cidade.

Por detrás da velha tapera que ainda tinha uns restos de parede de pedra, enfeitados naturalmente com ramadas de flores que iam do branco ao roxo, acomodou o caminhão de modo a não ser visto de nem um lado. Baixou para esticar as pernas. Viu as touceiras de Maria Mole, Jurubeba e, de Trevinhos. Chegou mais perto, vasculhou com os olhos, e a mão, de leve, procurou entre o verdor, um trevo que fosse de quatro folhas… Demorou pouco na procura, e achou. Voltou ao caminhão e colocou delicadamente a folha sob a gravura de São Cristóvão que recebera numa procissão e colara ao vidro com fita adesiva preta que sempre tinha à mão, para consertar algum fio desencapado. Fios desencapados e fé eram o que não faltava em sua vida.

Ficaram na cidade os restos mortais da mulher, do único filho, e como bem físico, um terreninho que nunca conseguira registrar por enleios de herança… Quase dava como perdido… O comprara com muito esforço e, erradamente pagara na confiança antes de ter o papel… Infelizmente aprendera a desconfiar, mas mesmo assim, num rasgo de esperança emprestou o terreno e o chalezinho de madeira para um amigo comercializar melancias, e outras frutas sob um toldo de lona. Se tudo desse certo, isso seria apenas mais uma história para contar na vida…

Abriu a porta-luvas, pegou a cuia, encheu-a de erva da boa que comprara na cidade. A térmica já viera cheia de água quente, que conseguira num posto de gasolina. Serviu-se, sorveu uns goles enquanto se encaminhava para frente da tapera a fim de olhar para ver se “ela” aparecia.

A mulher vinha com o passo firme, olhando o chão, pensando na vida dura que levara desde que se julgara gente. Deixava para trás poucas lembranças, alguns irmãos perdidos, e os escassos namorados que nem valia à pena lembrar… Tinha coragem para recomeçar, braços fortes para a lida, e um coração que estranhamente pinoteava no peito num assanhamento desusado. Lançou o olhar para a tapera velha e viu que o homem a esperava com a cuia na mão… Ambos faceiros riram feito crianças fazendo arte! Ele a direcionou para o caminhãozinho para escaparem da chuva que começara forte. Tinham muito para conversar antes de pegar a estrada, para a reestreia de “namorados” sob os auspícios da esperança renovada!

A AUTORA

Natural de Itaqui e professora de Artes Plásticas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Tânia Lopes é detentora da cadeira número 8 da Academia Santa-Mariense de Letras, cujo patrono é Érico Veríssimo. Já publicou mais de 11 obras e, em 2004, foi a patronesse da Feira do Livro Infantil de Santa Maria.

Este conto foi publicado com autorização da autora. Crédito da imagem no topo da página: Guilherme Gomes / Pixabay. Crédito da foto da autora: Lucas Linck / LABFEM-UFN.

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