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O Dia em que o riso morreu – por Leonardo da Rocha Botega

Um texto sobre aterça tocada por tragédias, inclusive a perda de Paulo Gustavo

3 de fevereiro de 1959, após suas apresentações no Surf Ballroom na cidade de Clear Lake, Estado de Iowa – Estados Unidos, três jovens músicos, Buddy Holly, Ritchie Valens e J. “The Big Bopper” Richardson, embarcaram em um Beechcraft Bonanza. Alguns minutos depois, a pequena aeronave, alugada para agilizar o deslocamento entre um show e outro, entrou em uma tempestade de neve e acabou caindo em um milharal. Era 1h05 da madrugada e poucas horas depois o mundo se entristeceria com a notícia da morte daqueles meninos promissores que faziam uma geração inteira mexer os quadris ao som de Peggy Sue, La Bamba e Chantilly Lace. Aquele dia ficou imortalizado na música American Pie, de Don Mclean, como O Dia em que o rock morreu.

Obviamente, naquele dia o rock não morreu. Sobre a influência de Buddy Holly, The Big Bopper e Ritchie Valens surgiram The Beatles, The Rolling Stones, Eric Clapton, Don McLean, Bob Dylan, Raul Seixas e tantos outros artistas que marcaram outras rebolantes gerações. Porém, a tristeza daquele dia chocou profundamente não apenas os fãs do jovem trio, mas o conjunto de uma sociedade que dançava para esquecer os tensos dias de um sonho americano irrealizável para todos. A mesma tristeza que nos tocou profundamente na última terça-feira, 4 de maio de 2021.

O Dia em que o riso morreu começou violentamente perturbador. Enquanto a maior parte dos olhos do país se voltavam para o depoimento de um ex-ministro da saúde (e a fuga de outro) na CPI da Covid no Senado Federal, um jovem de 18 anos invadiu uma escola de educação infantil portando um facão e matou três crianças e duas mulheres na cidade de Saudades, em Santa Catarina. Saudade, palavra que só existe na língua portuguesa, imortalizada na letra do Rafael Ritzel e na voz do grande Pylla Kroth da Banda Fuga como uma “confusão de sentimentos”. Naquela manhã, Saudade representaria ainda mais uma “tristeza no olhar”. Todos nós, que ainda somos humanos humanizados e humanizantes, ficamos “lentos” diante daquela barbárie.

Naquele pequeno município, às 10h da manhã, o riso começou a morrer e o que é pior: o riso morria como um doce riso de criança. Aquela gargalhada que nunca esquecemos e que nos faz gargalhar também. Aquele dia se anunciava como um dia duro e a morte do riso não parou por aí. Por volta de 21h, o Brasil definitivamente deixou de sorrir. Após uma luta de quase dois meses pela vida, o brilhante ator e comediante Paulo Gustavo nos deixou como uma das mais de 412 mil vidas perdidas pela Covid-19 e pelo descaso da política genocida em curso no país.

Se alguém perguntar a um brasileiro o que lhe faz rir, entre as muitas possibilidades de resposta estaria com toda certeza Paulo Gustavo. Paulo Gustavo nos fez rir debochando da estupidez escrota das nossas autointituladas “cidadãs de bem”, com a Senhora dos Absurdos no 200 Volts, do malandro de bom coração que vez por outra cruza o nosso caminho, o Valdomiro Lacerda do Vai que Cola que bate a nossa porta. Nos fez rir da caricatura da sua mãe, das nossas mães, as Donas Herminias que sempre acreditam que homens com 30, 40, 50 anos são ainda meninos. Paulo Gustavo rompeu os palcos do riso e entrou nas nossas casas demonstrando que entretenimento não precisa ser violento, que o humor não precisa ser sádico, estupido ou preconceituoso. Paulo Gustavo nos fez rir de forma leve, do cotidiano leve, das nossas próprias vidas, sem agredir o outro.

Paulo Gustavo morreu sem que nunca o víssemos chorar em público. O riso era a sua resistência. O riso sempre foi a resistência de muitos brasileiros e brasileiras. O riso, expressão que durante muito tempo foi proibida pelos fundamentalistas no poder, é parte da cultura popular brasileira. Rimos de nós mesmos, do desespero do zagueiro diante de um drible bonito, da batucada improvisada, da música mal cantada. Rimos até mesmo dos absurdos de um país dominado por uma elite que o boicota. Mas hoje, assim como nos últimos e nos próximos dias, não conseguiremos sorrir. O riso morreu! Espero que em breve ele possa voltar a renascer! Que esse imenso Necrotério Neocolonial que nos transformamos ainda possa se tornar um país de alegrias!         

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Observação do Editor: a foto de Paulo Gustavo, que ilustra este artigo, é uma reprodução da Internet.

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3 Comentários

  1. Finado era da comunidade LGBT. Casado, dois filhos adotados. Incomoda certas minorias. Era ‘pôster boy’ da causa, dai o ‘auê’, Despertou os instintos mais primitivos de alguns. Nada novo, semana que vem o cavalo de batalha vai ser outro.
    Riso não morreu, óbvio, porque a esquerda tupiniquim, os vermelhinhos, a ‘resistência’, a vanguarda do atraso sempre vai dar muito motivo para riso.

  2. Em 2013 estrelou o ‘Minha Mãe é uma Peça’. Quarta maior publico daquele ano, atrás de Homem de Ferro, Meu Malvado Favorito 2 e Thor, o mundo sombrio. Continuação da trilogia saiu em 2016, ficou em terceiro, atrás de Os Dez Mandamentos (do bispo Macedo) e Batman vs. Superman: a Origem da Justiça. Em 2016 foi lançado o ultimo da série, de novo ocupou o terceiro lugar, atrás de Vingadores Ultimato e O Rei Leão (um remake com CGI).
    Estes são os fatos. Altamente distorcidos em muitos lugares, mentiras na cara dura.

  3. Questão de ponto de vista. Sujeito era humorista e tinha sucesso em determinada fatia da população. Não é o tipo de trabalho que me faz rir, muito grito, muito escrachado. Prefiro algo mais sutil. Como o BBB, que também não assisto, não tenho nada contra o que o faça. O que não acontece com alguns chatos que teimam em tecer altas teorias sociológicas com um programa que tem elenco escolhido a dedo e provavelmente algum roteiro ou orientação (existe clausula de confidencialidade nos contratos, não se sabe).
    Setor da cultura, jornalismo, como certos setores acadêmicos, é dominado pela esquerda. Viva Gramsci.

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