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Quando novos e velhos personagens entram em cena – por Leonardo da Rocha Botega

O articulista e as manifestações de rua em protesto contra o governo Bolsonaro

O ano de 1988 representou um importante marco na cidadania brasileira. A promulgação da Nova Constituição, no dia 5 de outubro, trazia consigo o emergir de duas décadas de lutas intensas pela retomada da democracia e pela construção de um acordo político mínimo que garantisse a possibilidade da construção de um Estado de Bem-Estar Social, sabidamente, tardio. As palavras pronunciadas por Ulisses Guimarães, “da Ditadura temos ódio e nojo”, traziam para a esfera dos poderes da República a voz das ruas.

Nesse mesmo ano, o sociólogo Eder Sader nos brindou com uma excelente reflexão sobre como chegamos até aquele momento. O livro “Quando novos personagens entram em cena: experiências e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo (1970-1980)” se tornou uma leitura fundamental para entendermos que, para além dos acordos da transição lenta, gradual e segura, novos sujeitos sociais romperam o cerco da repressão, demonstrando aos generais-presidentes que o tão aclamado “povo brasileiro” queria sair do sufoco político, econômico e social escondido por trás das propagandas e da censura.

Eram as mães do movimento contra a carestia, os operários metalúrgicos renovando a luta sindical no ABCD paulista, os sanitaristas e lutadores da saúde exigindo o direito à vida, entre tantos outros personagens que tiraram o sossego de um certo João Figueiredo, presidente que dizia gostar mais do “cheiro dos cavalos do que do povo”. Um ato de “sincericídio” que, apesar de hoje parecer tão comum nos cercadinhos do Palácio do Planalto, naquele contexto, representou o fim definitivo da autoproclamada popularidade ditatorial.

Nas décadas que seguiram à publicação da obra de Eder Sader, as ruas se tornaram cada vez mais espaços da cidadania, como já haviam sido nos anos que precederam o Golpe Civil-Militar de 1964. Foram as ruas que responderam ao chamado verde-amarelo de Fernando Collor com os trajes pretos de um Já Basta!

Foram as ruas que brecaram muitos projetos de retiradas de direitos sociais de governos que juraram à Constituição de 1988 e depois passaram a desestruturá-la. São as ruas que acolhem o choro das comunidades a cada novo massacre sofrido nas favelas. Mas também são as ruas que, mais recentemente, acolhem os movimentos de negação da cidadania, da vida e da democracia.

A exemplo de outros países, como os Estados Unidos, o Chile e mais recentemente a Colômbia, no último sábado (29 de maio) as ruas de mais de 180 cidades brasileiras foram tomadas por milhares de homens, mulheres, jovens, velhos, organizados ou não em movimentos sociais, para dizer um novo Já Basta!

O mais profundo e indignante Já Basta desde o início da Nova República. Não por conta do tamanho dos protestos que, apesar de terem sido muito maiores do que o previsto, não foram os maiores que as últimas décadas assistiram. Mas sim, pela intensidade e a diversidade da revolta.

Uma revolta que levou pais, mães, filhos, filhas, amigos e amigas das mais de 460 mil vítimas do descaso da política genocida em curso no país, a se somarem aos “velhos personagens” que, ao longo das últimas décadas, sempre estiveram nas ruas, independente de governo.

Uma revolta mais forte do que o medo da Covid-19, afinal, como um jovem manifestante colombiano escreveu em um cartaz: “Se um povo protesta e marcha em meio a uma pandemia, é porque seu governo é mais perigoso que o vírus”. Uma revolta que trouxe à cena novos e velhos personagens com um objetivo comum: barrar a destruição civilizatória em curso. Que essa revolta seja o começo de uma tão necessária reconstrução do Brasil!          

(*) Leonardo da Rocha Botegaque escreve no site às quintas-feiras, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

Observação do Editor: As fotos que ilustram esse artigo, das manifestações em Santa Maria, são de Atílio Alencar. Para conferir outras, clique AQUI.

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