Crônicas

Até os sabiás estão diferentes – por Luiz Carlos Torres Araújo

Dois de novembro, dia de finados no Brasil, caiu numa segunda-feira: feriadão. Ficamos em casa com a missão de limpar o piso do pátio, organizar a despensa, começar uma bancada de madeira e observar um casal de sabiás. Apesar de haver várias árvores à disposição no terreno eles resolveram fazer ninho abaixo do beiral da casa. Há um espaço entre os barrotes, que saem pela parede, e as tábuas do beiral. Mas esses barrotes não são largos o suficiente para receber a estrutura do ninho. Tentaram o segundo barrote, a contar da parte mais baixa, depois o terceiro, depois o da cumeeira. Húmus, galhos, barro, palhas, tudo que levavam lá para cima pouco depois despencava; vinha parar no chão. Haviam passado os últimos dias de outubro nesse afã, sem desistência. Achamos que eles não assistiram com atenção as aulas de arquitetura da escola dos sabiás. Teimosia demais já deixa de ser perseverança. O casal estava muito ansioso. E não era para menos. A maioria dos pássaros já haviam fabricado seus ninhos.

No comecinho da noite de quinta, descobrimos que eles haviam encontrado um novo local. Onde? Em cima da porta veneziana, sanfonada, da sacada. O topo das folhas abertas da porta oferecia uma base eventual. Vimos, com tristeza, que o ninho quase pronto havia se desmantelado ao fecharmos a porta. Todo o trabalho dos sabiás estava no chão, destruído. No outro dia, frente ao nervosismo do jovem casal, resolvemos fixar na parede uma plataforma de madeira de 20 por 20 centímetros, acima da porta sanfonada, e protegida pelo beiral da casa.

Antes de esquentar o sol da última sexta-feira de outubro, os sabiás começaram mais uma vez sua obra, agora aproveitando a plataforma de madeira que colocamos lá. Trabalharam com afinco e sábado, perto do meio-dia, o ninho ficou pronto. Massudo, acolhedor, cheio de amor. Aí aconteceu o inacreditável: o casal de sabiás foi embora! Desapareceu. Trabalhamos todo o feriadão sempre dando uma espiada para o ninho pronto e nada. Às vezes sentávamos um pouco para beber uma água ou café e a cogitação corria solta. Seriam loucos? Quem sabe um gato de telhado terminou com eles? Talvez fosse um triângulo amoroso e tudo foi descoberto? Acabrunhados, tecemos outras considerações do tipo: deve ser um casal de primeira viagem; os jovens fazem umas coisas malucas que ninguém entende; os pais não tinham as rédeas firmes e eles se criaram afoitos e, por fim, coisa de brasileiro – deixaram para última hora e então desistiram.

Terça-feira, dia 3 de novembro, a cidade voltou ao normal, crianças indo para a escola, trabalhadores lotando os ônibus, o barulho de movimento urbano e … olha lá! Os sabiás voltaram para o ninho. Os dois pássaros, garbosos, alegres, deram retoques finais na moradia. A moça, ou senhora sabiá, seguidamente experimentava o aconchego do estojo de palhas e plumas. Antes de escurecer, subimos no telhado e de lá avistamos o primeiro ovo a engalanar o novo lar.

Então, concluímos que eles descansaram no feriadão ou foram fazer lua de mel. Ora, o mundo está mudado mesmo! As mudanças atingem até os sabiás.

A crônica
Até os sabiás estão diferentes, de Luiz Carlos Torres Araújo, de São Leopoldo, conquistou o 1º lugar na categoria Crônica no 43º Concurso Literário Felippe D’Oliveira, em 2020. A publicação foi autorizada pela Secretaria Municipal de Cultura de Santa Maria. Crédito da imagem que abre a página: Gerhard G. / Pixabay.

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