Crônicas

Um Céu pra Todos Nós – Walther Moreira Santos

Talvez você nunca tenha visto nem mesmo um pastor de ovelhas (principalmente se você mora numa cidade grande como São Paulo, Rio de Janeiro ou Porto Alegre), mesmo assim vou lhe contar sobre um pastor de nuvens. Mas, você sabe o que é incrível sobre os pastores de nuvens? É que eles podem existir mesmo na maior cidade do mundo.

Foi meu avô quem me ensinou a pastorear as nuvens.

Ele é um homem incrível, sobrevivente da segunda guerra mundial. Bastava isso para justificar que meu avô estivesse nos livros.

O mais inacreditável, porém eu só conto daqui a pouco e acho que você nem vai acreditar.

Primeiro vou dizer que quando meu avô completou 89 anos já não tinha mais nenhum amigo. Todos os seus amigos já tinham morrido de uma ou outra doença, nessa época.

Teve um até que morreu de espanto. O nome dele era etevaldo, mas todo mundo no bairro o conhecia como seu ET. Pois bem: um dia seu ET foi receber o dinheirinho de sua aposentadoria e ao chegar na caixa eletrônica do banco, notou que em sua conta bancária havia mais de um milhão de reais. Ele ficou tão emocionado que caiu durinho da silva, ali mesmo. Morreu na hora. Aconteceu que alguém tinha depositado uma fortuna, por engano, na conta do seu Etevaldo e ele não aguentou a emoção de ficar rico de repente. E foi assim que morreu o último amigo do meu avô: de espanto.

Minha mãe notou que nunca mais meu avô convidara alguém para jogar damas ou xadrez com ele e por isso me encarregou de fazer-lhe companhia.

Pra falar a verdade eu achava que não saberia fazer companhia a uma pessoa com 89 anos porque afinal eu só tinha quatorze.

Eu não poderia falar sobre internet, videogame, ou futebol porque esses eram assuntos que meu avô não conhecia muito bem.

Eu tinha o maior interesse em saber do meu avô como ele tinha conseguido escapar de um campo de concentração, durante a Segunda Guerra, mas mamãe sempre me advertira para não tocar nesse assunto com o vô porque isso o deixava muito deprimido.

Então eu pensei: pronto, vamos ficar um do lado do outro como duas pedras. E isso não me parecia, nem de longe, que seria divertido, para nenhum dos dois.

Mas eu estava enganado.

Mesmo sem seus antigos companheiros de praça, meu avô continuou saindo de casa toda tarde, para se sentar na pracinha do bairro, e só voltava depois do pôr do sol.

Na primeira vez que eu saí com ele, só me veio à cabeça uma frase que, depois de dita, achei meio idiota. Mas o problema com as frases idiotas é que só percebemos o quanto são tolas depois que elas são ditas.

– Por que todos os seus amigos morreram e só sobrou o senhor? -perguntei. É ou não é uma frase boba?

– Porque eu sou um herói da resistência, menino Daniel, é por isso – respondeu ele. “Menino Daniel” era o modo como ele sempre me chamou.

E este papo mixuruca foi toda conversa que tivemos no nosso primeiro dia juntos, na praça.

Se pelo menos vovô levasse para praça um jornal, revista ou mesmo um radinho de pilha, como eu notara em outros idosos, talvez fosse mais fácil tomar conta dele. No começo, era assim que eu pensava.

Não só por não levar jornal ou revista para praça que meu avô era diferente dos outros senhores. Meu avô, mesmo nos dias de muito calor, sempre estava de camisa de mangas compridas. Isto porque durante a guerra os nazistas tatuaram um numero no braço dele, igual fazem com o gado, e eu acho que meu avô não queria que vissem aquilo e ele fosse obrigado a falar sobre quando esteve no campo de concentração.

Às vezes eu só passava pela praça onde ele estava, e dizia “tudo bem, vô?” e ia embora. Outras vezes me sentava um pouco com ele.

Um franzino e inocente velhinho de 1.74m e cabelos brancos, calçando chinelos de couro, sempre limpíssimos e seu neto de quatorze anos, de cabelos louros e calçando tênis sempre sujíssimos.

Numa certa tarde, perguntei:

– Ô vô, o senhor não se cansa de ficar muito tempo aqui, sem fazer nada?

– Quem disse que eu não faço nada? Eu fico aqui pastoreando as nuvens, menino Daniel, e esta hora do dia é a melhor para se fazer isto – disse ele, todo ofendido.

Naquele momento olhei para o céu e vi que meu avô tinha razão. Era magnífico ver o modo como o céu mudava de cor e de forma.

Num momento você poderia pensar estar vendo um elefante ou um palácio e no instante seguinte aquela imagem mudava e lá estava uma cascata, e de braça cascata a imagem mudava para uma cegonha pescando.

Meu avô, um pastor de nuvens.

Depois que eu descobri isso, passei a gostar cada vez mais de passar alguns momentos na praça, pastoreando nuvens com ele.

Mesmo quando fiquei adulto, sempre que podia passava lá na praça onde meu avô se senta.

Mas esta não é a coisa mais incrível sobre meu avô que eu quero contar desde o início.

A coisa incrível é esta: acho que meu avô conseguiu laçar a morte ou o tempo e o prendeu a um banco da praça, isso ainda no tempo em que ele vivia na Europa. Ou fez com o tempo ou a morte, um tipo qualquer de acordo.

É por isso que ele conseguiu sobreviver na guerra. E hoje em dia, com 99 (isso mesmo: noventa e nove), meu avô continua, todo fim de tarde, a se sentar no seu banco predileto, na pracinha. E acho que sempre será assim. Pois meu avô, eu tenho certeza, só vai morrer quando ELE quiser.

Então um dia, se você encontrar um velhinho de cabelos brancos, sentado quietinho num banco de praça, com camisa de mangas compridas, tomando conta das nuvens, pode apostar que ele é meu avô. Não lhe pergunte nada, pois ele não gosta muito de conversar nessas horas. Apenas por um instante, olhe para o céu. E veja o que você esteve perdendo a vida toda.

A crônica
Um Céu pra Todos Nós, de Walther Moreira Santos, de Vitória de Santo Antão/PE, conquistou a Menção Honrosa na categoria Crônica no 28º Concurso Literário Felippe D’Oliveira, em 2005. A publicação foi autorizada pela Secretaria Municipal de Cultura de Santa Maria. Crédito da imagem que abre a página: Mohamed Hassan / Pixabay.

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