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Lula e Bolsonaro têm carta na manga para evitar a “zebra” nas eleições? – por Carlos Wagner

Que dizer à maioria dos eleitores – justamente aqueles que não se manifestam

A famosa carta na manga é uma marca na disputa eleitoral (Foto Reprodução)

Não que não seja um assunto de grande interesse público. Mas devemos atentar para o fato de que, a cinco meses das eleições presidenciais, os comentaristas políticos continuem usando a maior parte dos seus espaços nos noticiários para discutir a necessidade de existir um candidato da chamada terceira via para quebrar a polarização entre o presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), que concorre à reeleição, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP).

A essas alturas dos acontecimentos já era para estarmos em busca de maiores informações a respeito dos planos de governo de Lula e Bolsonaro. E, principalmente, saber se eles têm alguma carta na manga que será usada na disputa. O conteúdo das notícias a respeito das duas candidaturas tem se centrando nas articulações políticas que estão fazendo em busca de apoiadores.

A lista de problemas nacionais é enorme, talvez uma das maiores das últimas décadas. Quem são as pessoas que estão trabalhando no plano de governo dos candidatos? Já falamos em vários nomes. Mas ainda não detalhamos uma equipe que esteja trabalhando no plano.

Antes de seguir a nossa conversa vou dar uma explicação que considero necessária. O maior contingente de eleitores é justamente daqueles que não se manifestam e muito menos saem às ruas para fazer campanha. Seguem a sua vida normalmente. Mas estão atentos a tudo que acontece e sedentos por informações a respeito de como os candidatos propõem resolver os seus problemas. E são eles que decidirão as eleições.

Daí a importância de sermos relevantes para esses leitores, publicando informações que os ajudem a compreender o que está acontecendo. Voltando a nossa conversa. Vamos começar pelo maior de todos os problemas nacionais: o desemprego. Somando os desempregados com os desalentados, que são aqueles que desistiram de procurar uma colocação no mercado de trabalho, chegamos a mais de 20 milhões de pessoas.

O que as cúpulas das duas campanhas estão conversando sobre o assunto? Temos publicado muito pouco a respeito. Lembro o seguinte. Além do desarranjo provocado na economia pela pandemia da Covid-19, a guerra entre Rússia e Ucrânia espalhou ainda mais confusão pelos quatro cantos do planeta.

Alerto o seguinte. Temos publicado que a inflação brasileira não é única no mundo. Vários países, incluindo os Estados Unidos, estão enfrentando o problema devido à conjuntura mundial causada pela Covid e pela guerra na Ucrânia.

Mas não é bem assim. Os Estados Unidos têm inflação. Mas têm empregos. O mesmo acontece com a maioria dos 27 países da União Europeia. Já o Brasil tem inflação e desemprego. São coisas diferentes. Como resolver o problema?

A resposta a essa pergunta precisa ser dada pelos candidatos. Outro rabo de foguete que o próximo presidente do Brasil herdará será a questão do preço dos combustíveis, em especial da gasolina, do óleo diesel e do gás de cozinha.

Até 2016, a Petrobras subsidiava de maneira informal esses preços. Foi quando o então o presidente da empresa, Pedro Parente, alinhou os preços com os do mercado internacional, rompendo uma tradição de décadas de subsídio disfarçado. Não deu outra. Em maio de 2018 os caminhoneiros colocaram os brasileiros de joelhos durante uma greve de 10 dias que causou um prejuízo de R$ 16 bilhões para a economia nacional.

Atualmente os caminhoneiros estão pagando, em média, R$ 6,20 pelo litro do diesel, um dos preços mais altos da história, e só não pararam o país porque Bolsonaro tem uma base eleitoral muito forte entre os empresários do setor. Lembramos que o atual presidente da República foi um dos agitadores da greve de 2018.

Mas seja lá quem for o presidente a partir de 2023, ele terá um tempo muito curto para encontrar uma solução e evitar que os caminhoneiros coloquem novamente o país de joelhos. Outro problema é o gás de cozinha que, custando em média R$ 120 o botijão, nunca esteve tão caro. Centenas de pessoas estão cozinhando com a lenha que encontram pela frente.

O preço da gasolina, R$ 7 o litro, em média, é também um dos mais altos dos últimos tempos. A solução não é fácil pelo simples motivo de que os preços dos combustíveis são reajustados em dólares enquanto o brasileiro recebe o seu salário em reais. Qual o plano dos candidatos para enfrentar esses problemas?

Outra questão que é de agora. Há um bom tempo a máquina administrativa federal vem sendo sucateada pela falta de concurso público para a contração de novos funcionários. O sucateamento atingiu o seu ponto mais alto no governo Bolsonaro. Qual foi a solução encontrada pelo atual governo? Encheu a administração federal de militares (ativa, reserva e reformados). A maioria deles ocupando postos de coordenadores de setores.

Não podia dar outra. A solução virou um baita problema e a máquina parou. Há mais de 1 milhão de trabalhadores esperando por uma perícia no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O caso dos atrasos nas perícias do INSS é uma síntese da urgência do problema de quem precisa da administração pública.

Essa pessoa não tem tempo de esperar uma reforma administrativa. O seu problema é urgente, como resolver? O setor de fiscalização do meio ambiente já vinha sendo deteriorado. O que Bolsonaro fez foi acelerar a destruição dos mecanismos de controle. A questão é muito simples. Se o próximo governo, seja lá qual for, não fizer alguma coisa, os produtos brasileiros vão ser retaliados pelos ecologistas nos mercados internacionais.

Órgãos como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (IBAMA) precisam ser reconstruídos imediatamente. A propósito, essa conversa de que a humanidade precisa da comida que os brasileiros produzem, portanto terão que suportar os abusos contra o meio ambiente, é papo furado, como se dizia antigamente. Há tecnologia para produzir alimentos até em cima de pedras.

Já escrevi demais. Mas antes de concluir vou dizer duas coisas. A primeira é que precisamos conversar mais com as pessoas ao redor dos candidatos para saber se eles têm alguma carta na manga, um plano de governo ou uma denúncia que possa virar a eleição a seu favor.

Lembro o seguinte: pela maneira como as coisas estão caminhando na cobertura da disputa eleitoral, Bolsonaro e Lula estão pautando a imprensa, especialmente o presidente da República com as suas lambanças. A maneira de virarmos o jogo é começarmos a falar a linguagem daqueles que estão atolados em dívidas, sem emprego e sem dinheiro para comprar um botijão de gás.

Lembro que a soma de tudo que aconteceu no mundo, em particular no Brasil, durante o mandato de Bolsonaro, nunca tinha acontecido antes. Portanto, não podemos ir para a cobertura das eleições fazendo as mesmas pautas que fizemos nas outras. Temos que surpreender o leitor.

E, por último, a história da terceira via. Essa história cresceu dentro das redações, entre os comentaristas políticos. Muitas vezes, em eleições polarizadas entre dois candidatos, havia uma “zebra”, um terceiro candidato em quem poucos acreditavam, mas que de repente caia na simpatia do eleitorado e vencia. 

Uma explicação para os jovens colegas. Zebra foi uma expressão criada nos anos 1960 pelo técnico de futebol Gentil Cardoso e era usada quando um time sem currículo vencia um grande favorito. Popularizou-se no país com a criação da Loteria Esportiva. A referência ao simpático equídeo listrado das savanas da África decorre do fato de que o jogo do bicho não tinha a zebra entre os animais a serem sorteados. 

Logo, “dar zebra” seria um resultado impossível. O candidato “zebra” pode surgir na atual disputa eleitoral? Por que não? Os comentaristas políticos chamam esse candidato de terceira via. Eu, um velho repórter estradeiro, o chamo de zebra.

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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