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Mortes matadas – por Marcelo Arigony

“Se os homicídios estão em alta, estamos falhando como sociedade”

Dia desses jantei com Geremildo. Falávamos dos índices de criminalidade em Santa Maria, em especial os CVLI (crimes violentos letais intencionais), as mortes matadas.

Geremildo já fora policial, tempo em que acompanhava estreitamente as estatísticas de crimes. Ele me disse que a maioria dos homicídios envolve pessoas ligadas ao sistema prisional. E que a cadeia é o maior fator criminógeno, seja para o lado de quem mata, seja no lado de quem morre.

GÊ explicou que embora os assassínios sejam o principal indicador de criminalidade, eles são crimes muito peculiares, sui generis, de causas um pouco diversas dos outros delitos. Então as estratégias para sua prevenção escapam da área policial estrita.

Ele ainda fez uma conta rápida: as disputas de poder por grupos ligados ao crime foram responsáveis pela morte de duas centenas de criminosos na cidade na última década. E isso de certa forma representaria a busca do equilíbrio entre as forças do mal.

Por um momento eu fiquei pensando que Geremildo poderia ter razão. Imaginei como estariam os indicadores de furtos, roubos, tráfico, violência doméstica e outros, se as centenas de criminosos que morreram estivessem vivos. Preocupante.

Em seguida voltei à realidade, e lembrei que o bem mais valioso é a vida, que encerra um valor absoluto. Independente de quem seja a vítima, há esposas, filhos, mães, pais, filhos, tios, sobrinhos, avós, netos e amigos, para quem essas pessoas fazem muita falta.

Pensei então que na quarta ou quinta rodada da revolução científica, quando quase tudo já foi descoberto, não deveríamos mais ter tanta desigualdade, geradora de violência e desagregação social.

Lembrei também que o indicador de homicídios é o mais importante exatamente porque desborda da área policial; ele é o resultado da soma de todos os programas, projetos, ações, políticas públicas e privadas de uma nação.

Se os homicídios estão em alta, estamos falhando como sociedade.

(*) Marcelo Mendes Arigony é titular da 2ª Delegacia de Polícia Civil em Santa Maria, professor de Direito Penal na Ulbra/SM e Doutor em Administração pela UFSM. Ele escreve no site às quartas-feiras.

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5 Comentários

  1. Obvio que o Brasil tem problemas sociais serios. Não é moralmente justificavel deixar as pessoas ao ‘Deus dará’. Porém atrelar o crime aos problemas sociais é ideologico, não tem nada de ‘cientifico’ nisto. Coisa de gente que não quer resolver problemas, quer provar que sua ‘religião’ está correta. Resumo da opera? Homo Sapiens surgiu há uns 150 mil anos. Há uns 30 ou 40 mil começou a fazer pinturas nos tetos das cavernas. As revoluções cientificas produziram as metralhadoras, Hiroshima e Nagasaki. Resumo da opera: a vida é feita de escolhas, conviver e pagar o preço das mesmas; a ‘sociedade’ não tem nada a ver com a natureza humana. O resto é tese academica. Coisa de quem vive esfregando a barriga num escritorio com ar condicionado.

  2. Na antiga URSS haviam criminosos comuns. Estrutura social totalmente diferente. Trafico (drogas, pessoas e armas), corrupção, etc. A mafia russa não surgiu com a queda do muro de Berlim. Papel da midia engajada e de pesquisadores militantes. Noticia que abafaram e que agora está esquecida. Nordeste recebia na epoca dos governos do PT a maior parte dos recursos do Bolsa Familia. Entre 2004 e 2007 o numero de homicidios aumentou 300%. Basta garimpar os dados.

  3. Se a cadeia é o maior criminógeno solução é facil, basta não prender ninguém! Tem tudo para dar certo! Apesar de ser necessario um pistolão para permanecer preso no Brasil. Alás, afirmar que ‘quem vai para a cadeia cometeu um crime em 99,99999% das vezes e tem propenção a cometer crimes’ é coisa de fascista, misogino, racista, homofóbico.

  4. No que chegamos a ‘criminologia critica’. Conceito surgido nos EUA na decada de 90. Basicamente é Escola de Frankfurt, neomarxismo, aplicado ao fenomeno criminal. Comum por ai, PUCRS, UFPR, etc. Na aldeia há alguns espécimes, não conseguiram doutoramento numa faculdade de direito serio e acabaram em algum curso Walitta Brasil afora ou até mesmo no exterior. Genese do crime e a ‘justiça’ (temos muitos presos no Brasil!) teria a ver com a estrutura social e a ‘desigualdade’. Politica criminal produzindo e perpetuando ‘desigualdade’. Resumo: tem olho de jacare, cola de jacare, pele de jacaré, boca de jacaré, como não é jacaré?

  5. Faculdades por aí (acho que o SENAI é uma delas) oferece a disciplina de ‘Preparação para o Trabalho’. Na teoria prepara o estudante a assumir as obrigações num possivel futuro emprego. A ética, o que o empregador espera, etc. Para a grande maioria da população ‘sociedade’ são as duas duzias de pessoas com as quais ele interage diariamente (obvio para uns o numero é maior e para outros menor). Não é um conceito abstrato.

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