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Compromisso permanente com o futuro – por Marta Tocchetto

Confiança da articulista: ‘Comitê pelo Meio Ambiente pode fazer belo trabalho’

O Comitê pelo Meio Ambiente assume compromisso com o futuro promovendo ações e iniciativas para a mudança do comportamento ambiental em Santa Maria.

Sexta feira, 29 de julho, foi lançado o Comitê pelo Meio Ambiente em Santa Maria. A iniciativa é de seis instituições locais: Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade Franciscana (UFN), Instituto Federal Farroupilha (IFFar), Câmara de Vereadores, Prefeitura Municipal e Grupo de Comunicação Diário.

O objetivo do Comitê é discutir ações e iniciativas práticas que promovam a mudança de comportamento da sociedade santa-mariense tornando o tema ambiental prioritário, rumo a um futuro sustentável. Deste propósito surgiu o slogan – Compromisso permanente com o futuro. A reunião de forças busca transformar a cultura ambiental da cidade.

O Grupo Diário em todas as suas plataformas se comprometeu a trabalhar, diariamente, o tema ambiental. Meio ambiente não pode aparecer de vez em quando na mídia, mas permanentemente, reafirmou a representante do Grupo em sua manifestação. A priorização do tema pela sociedade requer a união do poder público, de instituições e da comunidade.

Somente desta forma, a cidade se tornará um exemplo a outros municípios e uma referência em meio ambiente. Sair do obscurantismo ambiental que Santa Maria se encontra é mais do que um objetivo, é uma necessidade. Não há desenvolvimento, crescimento e justiça social sem saúde ambiental.

Recentemente, o Diário de Santa Maria publicou em matérias jornalísticas, números assustadores em relação aos resíduos urbanos: o município gasta 8,5 milhões/ano ou 23 mil/dia com destinação de resíduos; diariamente são dispostas no aterro 250 toneladas de resíduos; outras 250 a 350 toneladas/dia de 41 cidades são enterradas no mesmo aterro; 15 mil toneladas/mês abarrotam o solo de Santa Maria.

Não é possível que a cidade assista impassível essa quantidade de material se acumular, permanecendo enterrada, muitas vezes, centenas ou milhares de anos. A ausência de coleta seletiva na cidade conduz para a destinação incorreta e o desperdício, no mínimo, de 40% do que é enterrado. São plásticos, metais, vidros, papéis e resíduos orgânicos que poderiam ter outras destinações e acabam sendo descartados sem aproveitamento.

Esta prática acarreta gastos desnecessários e exorbitantes, pois o aterro é privado e cobra pela tonelada disposta. Significa dizer que quanto mais resíduo vai para o aterro mais alta é a conta. O mesmo vale para o sistema de coleta. Outra consequência é o esgotamento da capacidade do aterro, pois a vida útil se abrevia, exigindo que o complexo e oneroso processo de construção de novas células seja reiniciado.

É preciso também considerar a conta ambiental da situação a ser paga pela sociedade toda, pois os materiais recicláveis, se voltassem ao ciclo produtivo, evitariam a extração de mais bens da natureza, a fim de atender às necessidades de produção. Essa prática acelera o esgotamento das reservas naturais.

Além disso, o processo de decomposição dos materiais enterrados pode gerar produtos poluentes que comprometem a qualidade da água, do ar e do solo e, a própria biodiversidade. Os microplásticos resultantes do processo de degradação dos polímeros plásticos exemplifica essa problemática.

Há também muito resíduo indevidamente descartado em terrenos baldios, córregos, sangas e arroios de nossa cidade. Os custos financeiros para o desentupimento de bueiros e para a limpeza destes espaços são tão grandes quanto os riscos à saúde. A epidemia de dengue que assola algumas regiões testemunha que resíduo descartado erroneamente provoca doenças graves, além de diversas formas de poluição, inclusive a visual.

A cidade perde com a aparência feia e desagradável, com o mau cheiro, com a presença de ratos, baratas e outros vetores nos espaços públicos provocados pelo acúmulo, em especial de resíduo orgânico que poderia ser compostado ou encaminhado à biodigestão possibilitando o aproveitamento energético e o biofertilizante para uso em hortas comunitárias e no ajardinamento da cidade.

A conta não acaba aí. O custo social também é elevado, pois os resíduos orgânicos e recicláveis destinados ao aterro impedem as associações e as cooperativas de catadores de obterem o sustento com o trabalho de triagem e encaminhamento à reciclagem dos materiais separados. Não podemos desconsiderar que o biogás oriundo do tratamento do resíduo orgânico pode substituir o gás de cozinha, cujo preço é inalcançável para a maioria da população.

Situação que agrava ainda mais a miséria e a fome, tendo em vista que o pouco alimento disponível às famílias em vulnerabilidade, muitas vezes, não é consumido pela falta de condições de cozimento. Os combustíveis fósseis ainda contribuem para o agravamento da situação climática, que traz como consequência a piora da injustiça social.

Não é difícil verificar que a questão ambiental está correlacionada com as questões econômicas e sociais, portanto a priorização do meio ambiente na cidade de Santa Maria trará ganhos significativos. A prioridade deve ser da sociedade como um todo buscando gerar cada vez menos resíduos, em vez de apenas, substituir materiais.

O poder público precisa garantir e implantar ações, medidas e práticas, por meio do estabelecimento de políticas públicas que incentivem e induzam a mudança de comportamento ambiental dos munícipes, a exemplo do IPTU verde, recentemente aprovado. Soluções milagrosas não existem. É importante lembrar que o tratamento de resíduos pode reduzir os impactos, porém nunca irá neutralizá-los. O tratamento apenas reconfigura o problema.

É importante que os incentivos, as mudanças e os movimentos sejam sempre em direção a não geração ou à redução, caso não sejam possíveis, então, ao reaproveitamento e, por fim, à reciclagem. Só dessa forma, os custos ambientais, econômicos e sociais terão perspectivas de serem reduzidos.

O Comitê pelo Meio Ambiente pode fazer (confio que fará) um belo trabalho nessa direção, trazendo luz sobre o problema com o objetivo de oferecer a clareza necessária para a busca de soluções que, sabidamente, são complexas e trabalhosas, mas não impossíveis, rumo a tão sonhada sustentabilidade, para tanto a reunião de forças e a convergência na direção do coletivo, da colaboração e da conexão são essenciais. Ganha a cidade, ganhamos todos nós com a criação do Comitê pelo Meio Ambiente.

(*) Marta Tocchetto é Professora Titular aposentada do Departamento de Química da UFSM. É Doutora em Engenharia, na área de Ciência dos Materiais. Foi responsável pela implantação da Coleta Seletiva Solidária na UFSM e ganhadora do Prêmio Pioneiras da Ecologia 2017, concedido pela Assembleia Legislativa gaúcha. Marta Tocchetto, que também é palestrante em diversos eventos nacionais e internacionais, escreve neste espaço às terças-feiras.

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