O Papa é argentino e Deus é brasileiro – por Valdeci Oliveira
“Francisco se foi, mas não sem antes deixar nesse mundo terreno um legado...”

O papa é argentino e Deus é brasileiro. A bem-humorada frase, dita a partir de um comentário sobre a já folclórica rivalidade entre o Brasil e nossos irmãos portenhos, cunhada em julho de 2013 durante sua primeira viagem apostólica, nos mostrava que uma lufada de novos ventos partia do Vaticano aos quatro cantos do mundo. Quatro meses antes, tão logo fiquei sabendo que a fumaça branca trazia junto o anúncio de que um certo Jorge Mario Bergoglio tinha sido eleito como chefe da Igreja Católica, o 266º Bispo de Roma, fui nada original e parti para pesquisar de quem realmente se tratava.
Bastaram algumas “tecladas” no telefone e poucas matérias jornalísticas na sequência – na verdade, a primeira já indicava isso – para que eu vislumbrasse que, com aquele argentino, com jeito do avô bonachão que se aproximava dos 80 anos, teríamos novas chances de celebrarmos a humanidade, a inclusão social, a defesa dos mais fracos, o direito das mulheres, o respeito a quem ama alguém do mesmo sexo.
E não deu outra. Nos últimos 12 anos, a cada manifestação papal sobre qualquer um desses temas, além de outros como guerra, exploração pelo trabalho, migração, direito à saúde e à moradia, o acesso pleno à cidadania e na defesa inconteste do meio ambiente, sentíamos um alento a revigorar nossas utopias, incentivar nossas lutas por um mundo mais justo, onde a fé não seria mercantilizada e o valor da vida não medido em cifrões.
A escolha do nome foi outra certeza de que estávamos, junto com ele, do lado certo da História. O que sabemos é que o cardeal brasileiro Dom Cláudio Hummes teve participação importante. Amigo do ainda somente “Jorge Bergoglio”, no momento seguinte ao escrutínio, o religioso teria chegado próximo ao colega eleito e pedido para que ele não esquecesse dos mais pobres. E a resposta veio de imediato, sem titubeio: “Então meu nome será Francisco.”
Faltaria espaço aqui para escrever e descrever o que foi a Igreja Católica na última década sob o manto de Francisco. Nem precisa, pois sua marca foi tão forte, sua mensagem tão clara e seus gestos tão nítidos que até mesmo o mais ignorante dos homens, desde que não tenha ficado isolado numa ilha ou dentro de uma caverna de 2013 para cá, é capaz de saber que pelo menos se tratou de alguém que pregava, não da boca para fora, o amor e a paz em todas as suas formas de expressão.
Àqueles que, com certa malícia ideológica o criticavam sobre o “excesso” de defesa dos desvalidos, fazia questão de esclarecer que não se tratava de comunismo, mas de puro Evangelho. Aliás, essas “acusações” de pertencer à turma de Lênin e Marx continuam sendo feitas pela turma do radicalismo político, para quem qualquer pessoa com uma postura minimamente humana tem a “alma vermelha.”
E não tem melhor exemplo disso que o dado por uma vereadora de extrema-direita da Capital gaúcha, que se referiu ao falecimento do Papa Francisco como uma “limpeza espiritual”. O comentário trazia junto uma imagem do Bispo de Roma desenhado com cenho cerrado, semblante severo e um raio caindo do céu sobre uma cúpula do Vaticano em uma noite de tempestade. Com variações de termos e traços, essa foi a tônica no mundo virtual conservador, tão afeito a fuzilamentos de honras e reputações, logo após a notícia de sua partida.
Para mim, a imagem que carregarei comigo pelo que resta da minha vida – e a que considero a mais emblemática nos doze anos de papado de Francisco – não poderia ser outra senão aquela em que o pontífice, sozinho, em 27 de março de 2020, no auge da pandemia da covid-19, caminha só pela Praça de São Pedro, no Vaticano. No altar, protegido da fina chuva que caia e cercado pela rarefeita luz daquele fim de tarde nublado, rezou sozinho.
Uma imagem que toca, emociona e diz muito sobre aquele homem que resumiu, em sua oração ao Deus Pai, um período de medo e dor da humanidade de forma simples: “Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo”.
Francisco se foi, mas não sem antes deixar nesse mundo terreno um legado que, a depender da “política” clerical, dificilmente será superado, pelo menos nos próximos anos. Mas para o nosso bem, espero estar enganado, e que sua memória cale fundo nas consciências dos cardeais que escolherão o próximo pontífice, pois o lado reacionário da Igreja já afiou suas garras e fará de tudo para voltar ao “trono” que já foi de Pedro.
Jorge Mario Bergoglio deu vida a Francisco e este nos deu grandes “cargas” de esperança. Conosco compartilhou a certeza de que o amor, por mais combalido que fique em alguns momentos, é como uma Fênix, sempre pronto a ressurgir das cinzas. É só uma questão de tempo, fé, resiliência e perseverança.
Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, Presente!
(*) Valdeci Oliveira, que escreve sempre as sextas-feiras, é deputado estadual pelo PT e foi vereador, deputado federal e prefeito de Santa Maria.





Resumo da opera III. Quem escolheu ‘O Papa é argentino e Deus é brasileiro’ merece um premio.
Resumo da opera II. De ‘doutores’ panfleteiros a ‘educadores populares’. São muito ‘fracos’. É só cruzar os braços e esperar, o problema se resolve sozinho.
Resumo da opera I. Vermelhos usando o obito como ferramenta de propaganda.
O que os vermelhos fazem na Igreja? Critica da Filosofia do Direito de Hegel do Carlos Marcio. ‘A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo.’
Em 2013 o finado Papa foi entrevistado pelo jornal La Stampa. Foi perguntado como se sentia por ser considerado marxista pelos conservadores. Respondeu: ‘A ideologia marxista é errada. Mas tenho muitos marxistas na minha vida que são pessoas boas, logo não me sinto ofendido’. Criticava a falsa noção de que a derrubada do sistema de livre mercado aumentaria a justiça social e melhoraria a vida dos socialmente marginalizados.
Decadas atrás um ianque ensinou controle de qualidade para os japoneses. Que já estavam na vanguarda da eletronica. Aconteceu um grande hype, os ‘tigres asiaticos’. Mandariam no mundo. Hoje o Japão está quebrado, economia estagnando e população encolhendo.
O Papa João Paulo I antes de virar Bispo de Roma, se lembro bem, visitou SM.
O Papa João XXIII era conhecido como o ‘Papa Bom’. Promoveu o Concilio Vaticano II. Quase não se menciona o fato ou o legado.
Legado só vai se saber daqui 50 anos. Mais, Igreja Catolica perde fieis num ritmo importante.
Papa era ‘gente boa’, não era uma figura distante como são os europeus.