O Calcanhar de Aquiles da Educação – por Amarildo Luiz Trevisan
“Senti que algo no ar havia mudado. Não era uma frase solta. Era convocação”

Tinha eu dezoito anos e uma sede imensa de compreender o mundo. Estava ali, no auditório lotado da PUCRS, à espera de um homem que, à época, era quase um mito. Paulo Freire, recém-regressado do exílio, depois que a Lei da Anistia abriu frestas na clausura política do país. Aquele homem, que tanto incomodara o regime com suas ideias sobre alfabetização, era, para nós, uma espécie de profeta que voltava do deserto.
Ele entrou, e ninguém piscava. Usava uma roupa que evocava outras geografias, uma túnica longa e calças largas, como se tivesse trazido no corpo a memória de tantos exílios. Não ostentava adereços. Apenas sua cabeça, calva no topo, com alguns fios longos que escorriam pelo pescoço, como se ali também houvesse algo a ensinar sobre o tempo.
Após as inevitáveis ovações, que ele parecia aceitar com uma certa ironia discreta, lançou à plateia a pergunta: “Qual o livro mais importante do mundo?” Silêncio absoluto. Uns olhos se desviaram para o chão, outros se perderam no teto. Alguém, timidamente, arriscou: “A Bíblia”. Outros citaram Sócrates, Platão. Um mais atrevido disse “Pedagogia do Oprimido”. Ele sorriu com aquele riso leve que mistura carinho e ironia.
E então, como quem abre uma porta com naturalidade, respondeu: “Para mim, o livro mais importante do mundo tem uma página e meia”. Silêncio mais denso ainda. Ele então revelou, com a solenidade de quem carrega um segredo antigo: “As Teses sobre Feuerbach, de Marx”. E, sem pressa, leu a terceira tese, com sua voz firme, carregada do sotaque nordestino que nem o exílio conseguiu apagar:
“O educador tem de ser educado. A coincidência entre a mudança das circunstâncias e a atividade humana só pode ser concebida como práxis revolucionária.”
Naquele instante, senti que algo no ar havia mudado. Não era uma frase solta. Era uma convocação. Paulo Freire, com a maestria de quem conhecia as armadilhas da educação bancária, lançava diante de nós o espelho incômodo da autoeducação. Não basta educar o outro. É preciso, antes, olhar para dentro e transformar-se.
Décadas depois, lendo a tese doutoral de Marx sobre Demócrito e Epicuro, entendi melhor aquele momento. Na juventude, Marx descobriu que Epicuro, ao contrário de Demócrito, não via o mundo como uma máquina regida apenas pela necessidade. Epicuro introduziu o clinamen, o desvio. Segundo Lucrécio, que explicou a teoria, os átomos, ao caírem no vazio, não seguem apenas o caminho reto e previsível. Há, em algum ponto, um leve desvio, pequeno, em lugar e tempo incertos. Esse desvio é suficiente para que os átomos colidam entre si e, assim, surja o novo. Sem o clinamen, nada se encontraria, nada nasceria. Tudo permaneceria em queda vazia e silenciosa.
Mais do que uma teoria física, o clinamen é um princípio filosófico profundo. Ele representa a possibilidade de liberdade, o ponto exato onde a repetição cega se rompe e o novo se torna possível. Marx viu nisso a semente da transformação social e da liberdade humana. Como bem disse Gadamer, quem mergulha no passado e retorna, volta sempre à frente de seu tempo.
Esse detalhe, que Marx captura com apenas 23 anos, já mostra o “salto temporal” que Gadamer descreve. Marx mergulha na filosofia antiga, mas retorna com um conceito que só muito depois seria plenamente compreendido: o vínculo entre liberdade, natureza e práxis. Por isso, ele não apenas interpreta Epicuro, mas também abre caminho para a sua futura crítica do materialismo e para a ideia de que “o educador precisa ser educado”. Afinal, Epicuro, para Marx, inscreve no próprio movimento da matéria um princípio ético: a liberdade humana como algo que não deriva do mundo externo, mas da própria natureza dos corpos.
Paulo Freire sabia disso. Ao trazer Marx naquele auditório, ele nos chamava ao desvio necessário. Não ao desvio inconsequente, mas àquele que rompe com as linhas retas da educação repetitiva. Ele nos convocava a exercer o clinamen dentro de nós mesmos, a provocar esse leve deslocamento que nos tira do conformismo e nos leva à transformação. Mais do que um desvio qualquer, trata-se de um desvio para o interior, um movimento que rompe a repetição e nos reconduz a nós mesmos, para que possamos, então, transformar o mundo com consciência e liberdade.
Não por acaso, foi justamente esse princípio de desvio que explica por que o método de alfabetização de Paulo Freire foi tão revolucionário. Ele foi um clinamen diante do Mobral – o Movimento Brasileiro de Alfabetização criado pela ditadura militar. Enquanto o Mobral buscava combater o analfabetismo como uma questão de números, dentro de uma lógica de controle social e político, o método de Freire propunha algo muito diferente: uma alfabetização que libertava, que fazia o educando pensar sobre sua própria realidade, que partia da vida e da linguagem concreta das pessoas. Não era um método para domesticar. Era um desvio radical. Por isso, foi perseguido aqui e celebrado no mundo todo.
E talvez seja justamente aí que resida um dos maiores desafios da educação: lidar com a criatividade. Por que será que nenhuma política pública no Brasil, até hoje, conseguiu tratar bem desse tema? Não seria porque a criatividade verdadeira exige liberdade, e liberdade é sempre algo difícil de controlar? Ao fim, o sistema tende a preferir uma educação que funcione como uma correia de transmissão da ideologia dominante, com métodos prontos, respostas rápidas e pouca margem para o inesperado.
Por isso, enquanto a educação continuar apostando em mudar as coisas, sem tocar o ser humano, enquanto a economia seguir acreditando que o essencial são moedas, bancos e sistemas financeiros, enquanto a universidade priorizar apenas a formação de profissionais para o mercado, dificilmente compreenderemos a transformação que Paulo Freire – como um Hermes moderno – veio anunciar ao retornar do exílio. A transformação que começa nas pessoas, não nos modelos.
A história e o presente mostram exemplos que fazem pensar. Há países riquíssimos em petróleo que convivem com a vulnerabilidade extrema de seu povo, presos a regimes autoritários ou dependentes de riquezas que não se traduzem em dignidade. Por outro lado, há nações que, mesmo devastadas por guerras, como a Alemanha, conseguiram reconstruir-se e alcançar um nível elevado de desenvolvimento. Isso sugere que a diferença nem sempre está nos recursos, mas, muitas vezes, na capacidade de reinventar a si mesmas, de reorientar valores, de reconstruir suas culturas e modos de viver.
O calcanhar de Aquiles da educação talvez seja justamente essa dificuldade de reconhecer que não há transformação verdadeira sem um desvio para o interior. Afinal, como já sabiam Epicuro, Marx e Freire, é nesse pequeno desvio, esse clinamen que nos tira do lugar comum, que o novo pode começar a acontecer. Quem sabe seja aí que resida um dos maiores potenciais da educação: provocar deslocamentos, abrir caminhos, e não apenas seguir os roteiros prontos de sempre.
Marx percebeu, enfim, que, já que o sistema nos reificou, ou seja, nos transformou em coisa, talvez devêssemos olhar com mais atenção para a própria matéria. Quem sabe possamos aprender com ela que nada é tão rígido quanto parece. Pois, no fundo, até mesmo a matéria – aquela que muitos acreditam ser inerte e cega – só existe porque carrega, em seu íntimo, um princípio de liberdade.
E se fôssemos pensar, então, o que significa ser um verdadeiro empreendedor nessa perspectiva? Não aquele que apenas reproduz modelos de sucesso ou repete métodos infalíveis, mas aquele que ousa o desvio, que cria algo novo, que reinventa a si mesmo e ao mundo – exatamente como ensinam a matéria, o clinamen e a própria educação quando deixam de ser prisioneiros da linha reta.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/UFSM). Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Excelente, lastimável que muitas pessoas não compreendam.
Parabéns professor Amarildo
Resumo da opera. A humanidade vai, conforme dizem, virar um bando de zumbis dominados pela inteligencia artificial controlada pelas ‘grandes corporações do mal’. Até a extinção. O resto é mimimi.
Paulo Freire é muito citado e muito pouco ‘utilizado’. Dialogo e escuta. Professor(a) com meia duzia de turma com trinta ou quarenta alunos(as) não tem como. Debate raso, uns são a favor e outros contra.
Eis o calcanhar da educação brasileira. Marx, Paulo Freire, Democrito, Epicuro, Gadamer (o da hermeneutica). Platão e suas formas ideais não poderia faltar, ‘o ser humano’. Todos capazes de tudo. Pergunta que não quer calar: quantas teses sobre Machado de Assis ainda podem ser escritas? Resposta simples, com parafrases e citações, infinitas. Acrescentam algo de novo? Nada. É a ruina da Academia, muita quantidade e muito pouca qualidade.