Artigos

A conta do fascismo chegou – por Amarildo Luiz Trevisan

‘Quantos desses valentões do teclado estariam dispostos a assumir essa fatura’

À medida que se aproximou o julgamento dos principais responsáveis pela arquitetura do golpe de Estado no Brasil, aquele que culminou com a invasão e depredação dos prédios da Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, elaborei essa reflexão para que, quem sabe, possa contribuir para o debate sobre a fragilidade da democracia brasileira diante das forças do ódio e da desinformação.

Vivemos tempos difíceis. A cultura do ódio ganhou corpo, voz e endereço: as redes sociais. O que antes se pensava como um espaço de encontro e troca de ideias se transformou num campo de batalha onde se digladiam direita e esquerda, ricos e pobres, dominantes e dominados – e, claro, gremistas e colorados, porque isso é Brasil. Mas, se hoje os ânimos voltam a se agitar, é bom lembrar que, naquele período turbulento, a temperatura das discussões beirava o insuportável.

Pessoas comuns, vizinhos, amigos, familiares, se engajavam com fervor quase religioso na condenação do governo e, em especial, dos representantes dos Três Poderes, principalmente do Executivo e do Judiciário. Não raro, confundiam crítica com agressão, discordância com ameaça. Era como se a razão tivesse cedido lugar à fúria, e o argumento ao ataque pessoal.

O resultado todos conhecemos: uma horda enfurecida invadiu os palácios da República, destruiu vidraças, móveis, obras de arte – símbolos materiais e imateriais da nossa história. Alguns dos próprios invasores gravaram, com seus celulares, as cenas que hoje compõem as provas de suas condenações. Entre os danos, a icônica tela As Mulatas, de Di Cavalcanti, foi rasgada sete vezes dentro do Palácio do Planalto. Um atentado ao patrimônio artístico e cultural que, se não bastasse o impacto simbólico, causou um prejuízo de milhões de reais.

Tela “As Mulatas, de Di Cavalcanti, na sala do Palácio do Planalto”. Disponível em

https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/pontopoder/atacada-em-invasao-obra-as-mulatas-de-di-cavalcanti-e-avaliada-em-r-8-mi-veja-o-que-foi-alvo-1.3321735

Há quem tente comparar esse episódio a outras ocupações políticas, como as do Movimento Sem Terra, como se todos os atos de resistência fossem iguais, e como se a intenção golpista pudesse ser relativizada. O julgamento em curso certamente esclareceu se houve ou não paralelos – e, principalmente, se as intenções eram realmente as mesmas. Mas, convenhamos, há uma diferença abissal entre ocupar para reivindicar direitos e invadir para usurpar o poder.

O que quero propor aqui vai além do tribunal. Vai na direção da consciência cívica. A partir da condenação dos envolvidos, penso que seria honesto, até simbólico, que aquele “pequeno grande homem fascista” – figura descrita por Adorno como o sujeito comum que, atrás da tela do celular ou do computador, cultivava o autoritarismo e disseminava preconceitos de ódio e mentiras – reconheça sua responsabilidade moral naquilo que ajudou a alimentar e venha a público dizer:

“No lugar desse condenado, eu teria feito o mesmo. Fui cúmplice. Sou parte do problema, mereço também ser condenado.”

Seria esse um gesto de coragem e verdade. Uma espécie de reparação pública, não apenas à democracia, mas à própria sociedade, que é quem, no fim, sempre paga a conta – seja com recursos, seja com a erosão da convivência e da democracia.

Resta saber: quantos desses valentões do teclado estariam dispostos a assumir essa fatura?

O debate está aberto. Não apenas para quem discorda, mas para quem tem coragem de propor caminhos em que a justiça deixe de ser um ritual burocrático e passe a ser, finalmente, um gesto compreendido por todos.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

Artigos relacionados

ATENÇÃO


1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.

2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.

3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.

4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.

5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.


OBSERVAÇÃO FINAL:


A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo