Donald Trump ainda não atravessou o Rubicão, mas… – por José Renato Ferraz da Silveira
Presidente do EUA age como quem se acha "acima dos limites constitucionais"

A história parece repetir-se em câmera lenta. Quando Donald Trump, já em seu segundo mandato, ameaçou usar o Exército para intervir em cidades governadas por democratas, o gesto soou como bravata para uns, mas como alerta vermelho para quem enxerga os sinais de uma possível ruptura institucional. A ameaça de empregar tropas contra cidadãos norte-americanos – sob o pretexto de “restaurar a ordem” – reabre feridas profundas da política dos Estados Unidos e ecoa o que a história romana ensinou há mais de dois mil anos: regimes ruem quando líderes confundem poder militar com poder civil.
A aparente apatia dos democratas e de boa parte do eleitorado moderado, que assiste às ações erráticas do presidente sem uma reação coordenada, amplifica o risco. O país que construiu a mais longeva democracia representativa do planeta, modelo de equilíbrio entre os poderes e de respeito às instituições, dá sinais de fadiga moral e de desconfiança interna.
Trump age como quem se considera acima dos limites constitucionais. Seu estilo impulsivo e suas decisões econômicas e políticas – incluindo o tarifaço que isolou os EUA de aliados estratégicos e reacendeu tensões comerciais com a Europa, o México e a China – demonstram o mesmo padrão: o de um governo que age por instinto e revanchismo. O impacto já é visível nos índices de inflação e nos alertas do Fundo Monetário Internacional sobre os riscos da política comercial protecionista.
Mais do que consequências econômicas, o “Trump 2.0” projeta um novo tipo de ameaça – menos ruidosa, mais institucional.
A sombra do militarismo e o eco romano
Os romanos antigos sabiam dos riscos de misturar tropas e política. O recado daquela época é um alerta: generais que cruzam fronteiras com exércitos atrás de si tendem a cruzar também o limite da legalidade. Por isso, criaram uma lei que proibia os governadores militares de adentrar a Península Itálica com suas legiões. Quando Júlio César atravessou o Rubicão com a 13ª Legião, em 49 a.C., desafiou essa ordem – e, ao declarar “Alea jacta est” (“a sorte está lançada”), inaugurou o fim da República.
Trump parece ter aprendido a lição de César – não a da prudência, mas a da conquista. Ao convocar centenas de oficiais-generais dos seis ramos das Forças Armadas para exigir um “juramento de fidelidade”, ele não apelou à Constituição, mas ao seu projeto político pessoal. O gesto, simbólico e perigoso, representa um rompimento do pacto civil-militar que sustenta a democracia norte-americana desde sua fundação.
A fidelização do poder e a erosão democrática
A tentativa de fidelizar os militares não é uma iniciativa isolada. Ela se soma a uma série de ataques à imprensa, à Suprema Corte, ao Departamento de Justiça e ao Partido Democrata, que compõem uma estratégia mais ampla: minar a credibilidade das instituições para apresentar-se como única alternativa viável.
Nos Estados Unidos, o poder das Forças Armadas sempre foi acompanhado de uma tradição de neutralidade política. Mesmo diante de crises internas, generais e almirantes mantiveram-se como garantidores da Constituição, e não de governos. Essa neutralidade foi rompida parcialmente no primeiro mandato de Trump, quando ele tentou usar o Exército para conter protestos antirracistas. Na ocasião, foi repreendido pelo general Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto.
Agora, em seu retorno ao poder, Trump parece determinado a não cometer o mesmo erro. Ele substituiu figuras de perfil técnico por aliados ideológicos e recompensou militares que expressaram lealdade pessoal. A lógica é a do cerco: eliminar resistências dentro do sistema antes de avançar sobre o sistema.
O golpe que não virá com tanques
A erosão das democracias modernas raramente acontece em um único ato. Não há tanques nas ruas nem censura explícita. O golpe é gradual, jurídico, simbólico – e, portanto, mais difícil de conter. O risco nos Estados Unidos não está em uma tomada repentina do poder, mas na normalização do autoritarismo, na desmoralização das instituições e no medo da reação.
O “novo golpe” americano é o da erosão lenta: o que se constrói com decretos, aparelhamento administrativo, narrativas de ódio e manipulação da verdade. A confiança pública se fragmenta e a sociedade perde a capacidade de reagir. Quando perceber a extensão do dano, o país talvez já tenha atravessado o seu próprio Rubicão.
O tarifaço e o isolamento internacional
Se no plano interno o governo Trump flerta com o autoritarismo, no plano externo a política econômica e comercial adotada é uma bomba de efeito retardado. O aumento generalizado das tarifas de importação – apelidado de “tarifaço” – já provocou retaliações de parceiros estratégicos e ameaças de novos embargos.
A União Europeia, a China e o Canadá reagiram com medidas espelhadas. Economistas preveem queda na competitividade das exportações americanas, inflação importada e pressão sobre a cadeia produtiva interna. A política do medo e do fechamento, ao invés de proteger empregos, já ameaça pequenos produtores e empresas que dependem de insumos estrangeiros.
Além disso, o aumento de tarifas sobre produtos latino-americanos – especialmente sobre o aço, o alumínio e o etanol brasileiro – abre espaço para que a China e a Índia ampliem sua presença econômica na região. Em outras palavras, Trump está enfraquecendo a posição geopolítica dos Estados Unidos, justamente quando tenta reafirmar sua liderança global pela força.
Um líder movido pela revanche
Trump 2.0 é mais calculista, mas também mais ressentido. Em seu retorno ao poder, ele busca vingar-se de antigos aliados e corrigir o que considera “traições” – de juízes, da imprensa, do establishment republicano e das próprias instituições que o contiveram.
Esse movimento é acompanhado por uma retórica incendiária contra governadores democratas e pela tentativa de criar uma narrativa de “guerra interna”, na qual o presidente se coloca como defensor do “povo traído” contra as elites e as “cidades do caos”. O discurso autoritário encontrou terreno fértil em parte da população cansada das divisões políticas e insegura diante da economia.
O perigo, entretanto, é que o excesso de poder concentrado na figura presidencial subverta a lógica do sistema de freios e contrapesos que fez dos Estados Unidos o paradigma institucional do Ocidente.
A omissão como combustível do autoritarismo
A ausência de reação firme por parte dos democratas e de amplos setores da sociedade civil é o elemento mais preocupante do cenário atual. O medo de “alimentar a polarização” se transforma, na prática, em neutralidade diante do autoritarismo.
Quando a normalidade institucional é ameaçada, o silêncio torna-se cúmplice. Juristas, acadêmicos e jornalistas têm alertado que a defesa da democracia não se faz apenas com votos, mas com vigilância constante. A erosão democrática começa quando cidadãos e instituições decidem “esperar para ver”.
O maior paradoxo do Ocidente
Os Estados Unidos sempre se apresentaram como o guardião da democracia liberal. No entanto, o país vive hoje o paradoxo de ter, em seu comando, um presidente que questiona a legitimidade das eleições, ameaça governadores e tenta cooptar as Forças Armadas.
O modelo de separação dos poderes, idealizado pelos fundadores, resiste – mas por quanto tempo? O Judiciário, o Congresso e a imprensa continuam funcionando, mas cada ataque presidencial mina um pouco mais sua autoridade simbólica.
A pergunta que ecoa entre analistas é simples e inquietante: quem cruzará o Rubicão desta vez?
Assim como Roma perdeu sua República aos poucos, corroída por ambição e apatia, os Estados Unidos enfrentam agora o seu teste mais severo. O país que liderou o “mundo livre” durante o século XX, que enviou tropas para garantir eleições em outros continentes (mas que também fomentou golpes de estado na América Latina para garantir seu poder e influência sobre a região) vê sua própria democracia sob ameaça doméstica.
Donald Trump ainda não atravessou o Rubicão – mas o som dos passos já ressoa no horizonte. A democracia mais rica e representativa do mundo corre o risco de se tornar refém de um líder que se julga maior do que as instituições que o elegeram.
E se os Estados Unidos caírem, quem restará para defender o próprio ideal democrático?
(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Associado IV da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).





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