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A dor que virou amor em 55 anos de história – por Amarildo Luiz Trevisan

“Isso é fazer história. Isso é fazer a diferença” - sobre o PPGE e o CE/UFSM

No dia 29/11, vamos comemorar os 55 anos do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) e do Centro de Educação (CE) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Lembro como se fosse hoje. Estávamos todos reunidos, professores, coordenação e representantes da pós-graduação da universidade, esperando o veredito sobre a criação do Doutorado em Educação do nosso PPGE em 2007.

A semana já tinha sido longa. Os dez professores escolhidos para compor a proposta do doutorado passaram dias recolhendo, empilhando e organizando sua produção acadêmica dos últimos dez anos: artigos, livros, capítulos e relatórios. Tinha que ser cópia física, nada podia ser digitalizado ou fotocopiado. Tudo ali, exposto em uma sala grande, como se fosse uma instalação viva da memória intelectual do programa. Durante 1 semana, três grandes nomes da educação brasileira circularam por entre aquelas mesas, folheando páginas, conferindo currículos, examinando a proposta do curso.

Para nós, que víamos aquele cenário por dentro, havia um misto de expectativa e cansaço. Tínhamos a sensação de que aquela avaliação não era apenas sobre um projeto, mas sobre a própria história do PPGE, que vinha desde 1970 formando mestres em educação, e que agora ousava dar um passo a mais ao pleitear o doutorado.

Quando a comissão chamou para a reunião final, o coração pesou um pouco mais no peito. Entramos na sala, tomamos acento, ouvimos as primeiras palavras protocolares. Depois de algumas considerações, veio o parecer. Aprovado. A palavra soou como um alívio que se espalhou pela sala. Em seguida, veio a frase que mudou tudo para mim. A comissão reconheceu a qualidade da produção e da proposta, e disse que, pelo nível apresentado, o curso de doutorado poderia ter sido criado pelo menos vinte anos antes.

Naquele instante, percebi que havia ali um elogio, uma validação do esforço de tantos anos. Mas havia também uma dor. A dor da oportunidade que poderia ter vindo antes, dos alunos que ficaram pelo caminho, dos debates que poderiam ter sido feitos, das pesquisas que poderiam ter sido amadurecidas. Essa frase ficou me ecoando por muito tempo.

Até aquele momento, eu mesmo levava uma trajetória discreta dentro do programa. Tinha concluído o meu doutorado havia oito anos. Trabalhava no PPGE há sete. Dava minhas aulas, desenvolvia minhas pesquisas, orientava meus alunos. Cumpria as rotinas exigidas para me manter credenciado. Fazia o que era preciso.

O encontro com aquela comissão, porém, mexeu comigo. A dor daquela constatação se transformou em algo diferente. Aos poucos, virou pergunta, virou incômodo, virou desejo de não repetir a mesma história. A dor foi virando amor.

Desde então, passei a me envolver mais diretamente com a política acadêmica do PPGE, do Centro e da UFSM. Em vez de apenas reagir às demandas, comecei a participar das discussões, das reuniões, dos projetos coletivos. Anos depois, na coordenação do programa, tivemos a alegria de alcançar o conceito 5, reconhecimento que colocou o PPGE em um patamar de excelência na pós-graduação em educação do país. Não foi um milagre. Foi o resultado de um trabalho intenso e coletivo, de uma crença renovada no potencial que já existia, mas que precisava ser assumido por inteiro.

Outras conquistas vieram na sequência. Lembro ainda da longa negociação que resultou na aprovação do Museu do Conhecimento, um projeto que articulou três programas de pós-graduação da área de humanidades da UFSM, Educação, Letras e Comunicação. Não foi simples. Envolveu diálogos, ajustes, insistência. Mais uma vez, a dor das dificuldades institucionais se converteu em amor pela ideia de um espaço que preservasse, organizasse e tornasse visível a produção acadêmica e cultural da universidade.

Recordo também a criação, em 2015, do curso de Ciências da Religião, na modalidade de educação a distância. Havia ali uma lacuna histórica na formação de professores para o ensino religioso nas escolas. Transformar essa falta em oportunidade exigiu coragem, criatividade e trabalho colaborativo.

Ao olhar para trás, vejo que aquele parecer da banca externa, no fim de 2007, foi um ponto de inflexão. Não só para mim, mas para muitos de nós. Percebemos que a UFSM havia sido pioneira ao sair dos grandes centros e criar um curso de pós-graduação em educação no coração do estado. Percebemos que o nosso programa também foi pioneiro em diversas frentes. Mas entendemos, ao mesmo tempo, que isso não nos autoriza a descansar. Muita coisa estava, e ainda está, por ser construída.

Às vezes, a rotina da sobrevivência nos limita por demais. Preenchemos formulários, lançamos notas, respondemos e-mails, corremos atrás de prazos. Olhamos apenas o imediato. Esquecemos de erguer o olhar para os lados, para cima, para frente. Foi quando a nossa visão se alargou que outras demandas começaram a aparecer, vindas das parcerias com colegas, da confiança mútua, da competência já instalada em nossa casa, e também da crença no potencial adormecido que há em cada um de nós.

Hoje, ao celebrar os 55 anos do Programa de Pós-Graduação em Educação e do Centro de Educação da UFSM, sinto que essa história é, em grande parte, a história dessa transformação. A dor da demora, do atraso, da falta de reconhecimento se converteu em amor pela construção compartilhada, pela ousadia de inovar, pela decisão de fazer mais do que o mínimo exigido. Amor pelos alunos que passaram e pelos que ainda virão. Amor pela universidade pública que resiste e insiste em oferecer um ensino de qualidade no centro do Rio Grande do Sul.

Quero agradecer a todos que fizeram parte dessa caminhada, desde os pioneiros que imaginaram o mestrado em 1970 até os que, hoje, continuam reinventando o programa em meio a novos desafios.

. Que a dor que por vezes sentimos diante das dificuldades continue se convertendo em amor pela educação, pela universidade e pelas pessoas que a constroem todos os dias. Parabéns ao Centro de Educação e ao PPGE, e meu agradecimento a todas as pessoas que fizeram e continuam fazendo parte dessa história.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

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