Prevenção – por Orlando Fonseca

Com tantos “tiros no pé”, é até irônico que a defesa de Jair Bolsonaro insista em solicitar prisão domiciliar em função de “complicações da facada que ele recebeu em 2018″, durante a campanha eleitoral. Uma comentarista de política lascou uma expressão que dá bem o tamanho da situação do ex-presidente: “Com filhos assim, Bolsonaro não precisa de inimigos”. Um conseguiu colocar o pai em tornozeleira eletrônica e prisão domiciliar, como resultado desastrado de suas malfadadas articulações com a direita americana; Flávio, agora, conseguiu levar o pai para a prisão preventiva, ao convocar uma “vigília” diante do domicílio no qual cumpre o mandado de Alexandre de Moraes. O próprio ministro assim se manifestou: “A Democracia brasileira atingiu a maturidade suficiente para afastar e responsabilizar patéticas (grifo nosso) iniciativas ilegais em defesa de organização criminosa responsável por tentativa de golpe de Estado no Brasil.” Some-se a isso, a “curiosa” intenção de violar a tornozeleira eletrônica (versão mudada para “alucinada”), e para não chamar tudo de uma total falta de inteligência, vamos denominar de conspiração. Por aí se percebe o nível intelectual na criação de narrativas e situações para dizer que o judiciário, os juristas, especialistas, oposição, todos estão errados, e que a Família do ex-presidente é inocente em suas “boas intenções” e práticas desastradas. Na verdade, caro leitor, importa ficar de prevenção com essa gente.
Fico a me perguntar se eles são muito espertos e confiam na boa-fé dos brasileiros, ou são totalmente sem-noção para crer que podemos engolir suas manifestações. Ora, como não ficar com um pé atrás com o parlamentar vir às redes e convocar os apoiadores para fazerem uma “vigília” diante da casa do pai, prisioneiro, a poucos dias do trânsito em julgado? Respeito quem acredita no pedido de orações e na citação de passagens bíblicas, mas chamo a atenção para a veemência do discurso, instando os seguidores a ocupar o acesso ao condomínio do ex-presidente: “Com a sua força, a força do povo, a gente vai reagir e resgatar o Brasil desse cativeiro que ele se encontra hoje” disse Flávio Bolsonaro. E a “piedosa” convocação de fé continua: “Vamos pedir a Deus que aplique a sua justiça aos que perseguem tanta gente inocente e ajudam os verdadeiros bandidos a se manterem no poder”, falas nada crentes do senador. A mensagem foi divulgada sexta-feira passada, levando a Polícia Federal a pedir a prisão para a garantia da ordem pública.
Se ficássemos apenas observando os versículos da Bíblia, talvez até pudéssemos nos comover com a aflição filial de Flávio. Mas importa fazer, assim como o Judiciário, olhar o conjunto. E isso passa muito longe de uma fé piedosa e isenta de beligerância. Quando ficaram em frente aos quartéis, durante os últimos meses do mandato do ex-presidente derrotado nas eleições, os apoiadores também não chamavam o que estavam fazendo de tentativa de golpe. Em Brasília chamavam de “Festa da Selma” e, depois, em toda aquela baderna na Praça dos Três Poderes, não vimos “velhinhas com a bíblia na mão”, quebrando tudo pela frente. É do trabalho dos advogados criar a narrativa necessária para a defesa de seu cliente. Mas chega a ser irônico invocar “prisão domiciliar humanitária”, a um ex-presidente que, no exercício de seu mandato, escarneceu (para usar uma palavra bíblica) e fez pouquíssimo caso dos valores humanitários. Os advogados, agora, defendem que a vigília seria a 700 metros da casa de Jair, mas os baderneiros do 8 de janeiro de 23 estavam a 7,9km da praça dos Três Poderes e não viram problema em seguir em frente.
No pedido de prisão domiciliar “humanitária”, a defesa do ex-presidente anexou diversos laudos médicos identificando os problemas de saúde do ex-presidente (aliás, situações típicas de quem tem a mesma idade). O Ministro Alexandre considerou prejudicado o pedido, pelas situações da madrugada de sábado. Mencionou os precedentes de fuga de Carla Zambelli, Ramagem e o filho Eduardo, denunciado pela PGR no STF, evadidos do território nacional “com objetivo de se furtar à aplicação da lei penal”.
Considerando tudo isso, penso que Bolsonaro deveria ficar grato ao Judiciário por colocá-lo a salvo das influências maléficas dos seus filhos, em uma sala protegida na Polícia Federal, com acesso a cuidados médicos 24 horas, 7 dias por semana. Se é pra fazer ironia e tirar onda de esperto pra cima da inteligência alheia, estou no exercício apropriado de cronista, neste espaço adequado da crônica. E parafraseando Chico César, Deus me livre “da maldade de gente boa (e) da bondade da pessoa ruim”.
(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.





Resumo da opera. Quem gosta de novela assiste a Rede Trouxa. Há quem goste desta cortina de fumaça e da ‘polarização’. Outros tem mais o que fazer.