A obra dispensada que virou problema: quando a flexibilização exige ainda mais cuidado – por Ana Luiza Arigony
“Quando a lei simplifica, ela dá agilidade, mas também exige maturidade”

Na semana passada, falamos sobre a derrubada dos vetos no novo marco do licenciamento ambiental e como isso mudaria o dia a dia de quem produz, amplia ou regulariza atividades.
Hoje, vamos ao ponto que mais tem gerado confusão – e que já está aparecendo nos escritórios e nos grupos de produtores: a obra que, teoricamente, estava dispensada de licença… mas virou um problemão depois.
E vamos chamar esse caso fictício de o galpão do Seu Renato.
Seu Renato queria ampliar o galpão onde guardava máquinas.
Nada grande: só estender a cobertura uns metros para o lado.
Com as mudanças na lei, ele ouviu dizer que aquele tipo de obra “agora estava dispensada de licenciamento”.
Animado, Seu Renato chamou o pedreiro e tocou a ampliação.
Nem imaginou que isso pudesse gerar problema – afinal, a lei tinha flexibilizado, certo?
Meses depois, veio o susto.
Uma notificação do órgão ambiental informando que a ampliação avançou sobre uma área considerada APP intermitente, identificada por imagem de satélite.
Resultado:
* multa,
* embargo da área ampliada,
* e obrigação de apresentar recuperação ambiental.
Tudo isso numa obra que, na cabeça dele, estava “liberada”.
Mas o que mudou, e por que isso aconteceu?
A grande mudança trazida pela nova regra é a seguinte:
Antes: o órgão ambiental analisava os documentos, estudos e mapas antes de aprovar.
Agora: em muitos casos simplificados ou dispensados, o órgão aprova com base na declaração do empreendedor, sem analisar tudo previamente.
Ou seja: a confiança mudou de lugar. A responsabilidade, também.
Se o produtor ou empreendedor declara errado, seja por falta de conhecimento ou por má-fé, a aprovação sai igual, mas a responsabilização vem depois, quando a fiscalização confronta a declaração com a realidade.
E foi exatamente isso que aconteceu com Seu Renato.
Ele acreditava que a área onde ampliou o galpão não tinha nenhum impedimento.
Mas a drenagem natural do terreno aparecia no CAR, nas imagens de satélite e nos registros ambientais do Estado.
E, ao intervir, ainda que sem intenção, tocou numa área sensível.
A lei mudou, sim.
Ela flexibilizou processos e agilizou etapas.
Mas não mudou o fato de que o produtor continua sendo responsável pelo que faz na área.
A dispensa de licença não é uma dispensa de cuidado.
Seu Renato acreditou que, justamente por estar dispensado, não precisava checar nada.
E é aí que mora o risco.
A licença não evita o dano.
E a dispensa não impede a responsabilização.
A partir de agora, qualquer intervenção, por menor que pareça, exige três cuidados essenciais:
1. Confirmar com o órgão ambiental se aquela obra realmente é dispensada.
Cada estado e município está regulamentando de forma diferente.
2. Checar áreas sensíveis
APP, sanga intermitente, banhado, vegetação nativa baixa – tudo isso aparece em mapa oficial e pode transformar uma “obra simples” num problema ambiental.
3. Registrar antes de intervir
Fotos, laudo técnico simples, coordenadas.
É isso que, lá na frente, evita injustiças e prova boa-fé.
O caso do Seu Renato mostra algo que vale para todos:
quando a lei simplifica, ela dá agilidade, mas também exige maturidade.
Hoje, o órgão aprova com base na sua palavra.
E, se a palavra não corresponder ao que existe no campo, a multa chega igual.
Não porque “o órgão pegou pesado”, mas porque agora a análise é feita a posteriori, quando o erro já virou impacto.
(*) Ana Luiza Arigony é advogada ambiental e mestranda em Engenharia de Produção pela UFSM. Ela escreve no site às terças-feiras.





Resumo da opera. Ainda não acabou. Derrubaram os vetos, mas ainda tem o Supremo Tribunal Cumpanhero. O resto é só ficção de má qualidade. Só faltou o ‘ticio matou uma pitangueira’ e ‘mévio construiu um galpão’.
Da séria série ‘derrubaram uma pitangueira’. Da séria série ‘o mundo adivinhado esfregando a barriga numa mesa numa sala com ar condicionado’. Mundo real? Constroe-se galpões e derrubam-se pitangueiras e dá nada. Porque a fiscalização é na base do sorteio.