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Lulismo, bolsonarismo e o Brasil dividido: compreender para reconstruir – por Marionaldo Ferreira

O Brasil vive, há alguns anos, uma divisão política que extrapola partidos, programas e ideologias. Lulismo e bolsonarismo deixaram de ser apenas preferências eleitorais para se tornarem identidades emocionais, quase tribos, que organizam afetos, medos e percepções sobre o país.

Essa polarização costuma ser tratada de forma rasa: de um lado, os “bons”; do outro, os “maus”. Esse enquadramento, além de falso, impede qualquer possibilidade de saída coletiva. Para entender a realidade brasileira — e suas potencialidades — é preciso ir além da caricatura.

O lulismo nasce de uma experiência concreta. Milhões de brasileiros associam os governos Lula a um período em que a vida melhorou: emprego, renda, consumo, acesso à universidade, reconhecimento social. Para essas pessoas, Lula não é apenas um político; ele representa a lembrança de um tempo em que o Estado olhou para quem sempre esteve à margem.

Por isso, o lulismo não é, na essência, um movimento de ódio à direita. Ele é, sobretudo, medo de retroceder. Medo de perder direitos, oportunidades e proteção social. O bolsonarismo surge, nesse imaginário, como ameaça direta a essas conquistas.

O bolsonarismo, por sua vez, nasce de outra experiência igualmente real. Ele se alimenta da frustração com a política tradicional, da sensação de corrupção permanente, da ideia de que o esforço individual não é reconhecido e de que o país perdeu referências de ordem e autoridade.

Para muitos bolsonaristas, o PT se tornou o símbolo de tudo o que estaria errado no sistema político brasileiro. Não importa se essa leitura é justa ou exagerada: o PT virou o rosto do problema. Bolsonaro aparece como alguém que rompe com o discurso polido, confronta instituições e fala o que muitos sentiam, mas não viam representado.

Mais do que um projeto econômico ou social, o bolsonarismo expressa revolta e rejeição ao sistema.

O conflito entre lulismo e bolsonarismo não se sustenta apenas por ideias, mas por medos cruzados:
O lulista teme perder proteção e dignidade
O bolsonarista teme perder controle, mérito e identidade

Quando o medo ocupa o centro da política, o adversário deixa de ser alguém que pensa diferente e passa a ser visto como ameaça existencial. A política vira guerra moral. A escuta desaparece. A desumanização se instala.

Essa lógica é perversa porque alimenta a si mesma. Um lado existe porque o outro existe. Um cresce quanto mais demoniza o outro. E o país fica preso a um eterno ajuste de contas emocional.

Enquanto lulistas e bolsonaristas se enfrentam, o Brasil real segue com problemas estruturais:

Baixa produtividade
Serviços públicos desiguais
Falta de planejamento de longo prazo
Crise de confiança nas instituições

A polarização simplifica tudo em slogans e inimigos, mas empobrece o debate e paralisa soluções mais complexas e duradouras.
Paradoxalmente, essa divisão também revela algo poderoso: o Brasil é politicamente vivo. As pessoas se importam, sentem, se posicionam. Há energia social, ainda que mal direcionada.

O lulismo mostra a importância da inclusão e do papel do Estado na redução das desigualdades. O bolsonarismo expõe a necessidade de eficiência, combate à corrupção, responsabilidade e ordem.

Separadas, essas visões se anulam. Integradas, poderiam apontar para um caminho mais maduro.

O futuro do Brasil não está em destruir o lulismo ou o bolsonarismo, mas em superar a lógica binária que transforma divergência em ódio. Isso exige lideranças capazes de reconhecer os medos de ambos os lados e propor sínteses, não slogans.

Enquanto a política for apenas um espelho de ressentimentos, continuaremos presos ao passado. Quando ela voltar a ser instrumento de construção coletiva, o Brasil poderá transformar sua divisão em aprendizado.

Entender não é concordar. Mas sem entendimento, não há reconstrução.

(*) Marionaldo Ferreira é especialista em governança pública, mentor de líderes e consultor em gestão e captação de recursos para municípios. Atua na formação de servidores e agentes públicos e é autor do livro Governança Pública e Suas Possibilidades.

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12 Comentários

  1. Resumo da opera III. Dilma, a humilde e capaz, inventou um programa de aquisição e renovação da frota de caminhões. Fez um monte de intervenções no sistema, algumas colaram outras não. Resultou na greve de caminhoneiros. Medida Provisória 1328 agora de dezembro, modifica outra no mesmo sentido, ‘Autoriza a destinação de recursos para disponibilizar linhas de financiamento reembolsável a pessoas físicas e jurídicas de direito privado para aquisição de caminhões novos ou seminovos, para renovação de frota […]’. Mais seis bilhãozinhos. O ‘Medo de perder direitos, oportunidades e proteção social’ é só cortina de fumaça para gastança. Cuja conta há de vir.

  2. Resumo da opera. Disse o Rato Rouco: ‘Eu digo sempre assim: feliz era quando eu tinha o PSDB como oposição, porque o PT e o PSDB parecia todo mundo amigo’.

  3. ‘[…] o Brasil poderá transformar sua divisão em aprendizado.’ Sim, Brasil é o mais antigo ‘pais do futuro’ do planeta. Com certeza as coisas irão melhorar. Kuakuakuakuakuakua!

  4. ‘Enquanto a política for apenas um espelho de ressentimentos, continuaremos presos ao passado.’ Não creio. Acontece uma troca de guarda nos proximos cinco anos.

  5. ‘[…] mas em superar a lógica binária que transforma divergência em ódio.’ Problema é que a divergencia anteriormente era fingida. Odio é um chavão dos ‘espinhela caída’. Querem ‘união’ utilizando uma reprovação moral implícita provinda de gente com ‘superioridade’ auto-atribuída. Quem ‘odeia’ tem que ser escanteado.

  6. Problemas estruturais? Produtividade sempre foi baixa. Serviços publicos sempre foram na base do ‘é o que a casa tem para oferecer’; mesmo aumentando a carga tributaria. Planejamento a longo prazo não existe desde o tempo dos milicos, não é só um maço de papel para dizer que existe, é tentar implementar. Instituições sempe estiveram sob suspeita, diferença agora é que bateu nos milicos (por motivos diversos) e no judiciário (vide fim da Lava a Jato).

  7. ‘Por isso, o lulismo não é, na essência, um movimento de ódio à direita.’ Se não fosse não teria existido a ‘Carta aos Brasileiros’ la no começo deste século. Problema é que manifestar o que realmente pensam diminui os votos favoraveis nas urnas.

  8. ‘Milhões de brasileiros associam os governos Lula a um período em que […]’. Aconteceu compra de votos no Congresso via Mensalão, Petrolão e o pais quebrou nas mãos do poste Dilma, a humilde e capaz.

  9. ‘O lulismo nasce de uma experiência concreta.’ O sindicalismo no ABC na decada de 80. Vão querer reescrever a historia agora?

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