Recuso-me a aceitar o fim do ser humano – por José Renato Ferraz da Silveira
“Esse é o mundo em que vivemos. Alguns dirão que o mundo é um absurdo”

Quando leio e releio o discurso de William Faulkner ao receber o Prêmio Nobel em 10 de dezembro de 1950, em Estocolmo, na Suécia, reflito sobre as breves palavras do escritor. O discurso chama-se Recuso-me a aceitar o fim do Homem. É um sinal de otimismo.
Hoje em 2025, estamos vivendo em tempos sombrios. Tempos de tensões e conflitos de diversas naturezas. Tempos de polarizações ideológicas. Tempos de feridas. Tempos de cicatrizes mal curadas. Tempos de dores e sofrimentos. Tempos de crise moral e espiritual. Tempos em que carreiras se fazem pelo oportunismo.
Os escritores mais lidos, os filmes, as séries mais admiradas, pintam e pregam o cinismo. A maldade parece compensar. Alimentam as notícias dos jornais. O sadismo compensa, o erotismo compensa, inspira os romances que melhor se vendem. Viram filmes que enchem as salas escuras do cinema. O pedantismo e a obscuridade compensam. São tidos por indícios de profundidade e largueza de raciocínio.
Homens e mulheres matam seres humanos e animais com sorrisos nos lábios. O amor e o respeito pelo próximo foram abandonados. Parecem esquecidos esses valores de amor ao próximo. Parece que vivemos sob as palavras de George Orwell em 1984: não haverá riso, apenas o riso de triunfo sobre um inimigo derrotado. Não haverá arte, literatura ou ciência. Quando formos onipotentes, já não haverá mais necessidade de ciência. Não haverá distinção entre a beleza e a falta dela. Não haverá mais curiosidade, nem alegria no processo da vida. Todos os prazeres competitivos serão destruídos.
Ao longo da nossa vida vamos encontrar canalhas asquerosos; seremos traídos por indivíduos que consideramos nossos amigos; vamos sofrer por coquetes que nem um suspiro mereciam; seremos caluniados de maneira tão estúpida que tanta parvoíce lhe cortará a respiração e você ficará sem saber que responder.
Esse é o mundo em que vivemos. Alguns dirão que o mundo é um absurdo. Que significa isso? Dizer que algo é absurdo significa que é contrário a razão. Uma lei é absurda quando ofende o senso comum. Na realidade, o mundo é o que é. Que desejamos? Que o mundo tivesse sido construído para nos satisfazer? Seria um milagre. Somos um ser nascido para a morte. E por isso devemos, na minha opinião, passar por uma constante angústia.
Mas creio que a oração de São Francisco possa dar sentido em nossa vida e melhorar a teia de nossas relações. O mundo precisa de vibrações positivas e otimistas. É o que eu acredito:
Senhor fazei de mim o instrumento de Vossa paz
Onde houver ódio
Que eu leve o amor
Onde houver ofensas
Que eu leve o perdão
Onde houver discórdia
Que eu leve a união
Onde houver trevas
Que eu leve a luz
Onde houver erro
Que eu leve a verdade
Onde houver desespero
Que eu leve a esperança
Onde houver tristeza
Que eu leve alegria
Onde houver dúvidas
Que eu leve a fé
Mestre, fazei que eu procure mais
Consolar que ser consolado
Compreender que ser compreendido
Amar que ser amado
Pois é dando que se recebe
É perdoando que se é perdoado
E é morrendo que se vive para vida eterna.
(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).





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