Sabores, pausas e o último domingo do ano – por José Renato Ferraz da Silveira
“Que 2026 venha com disposição para novos sabores, ideias e caminhos...”

Escrevo estas linhas para finalizar a minha produção textual em 2025. Desde o ano passado, contribuo no site Claudemir Pereira. Agradeço ao Claudemir Pereira pelo espaço generoso e pela confiança em acolher minhas reflexões. É uma honra poder contribuir com este ambiente de diálogo, ideias e pensamento crítico, que tanto enriquece o debate público.
Em dezembro, optei por escrever textos mais leves, buscando acompanhar o espírito do fim de ano, marcado por pausas, reflexões e pela necessidade de respiro diante da intensidade do cotidiano. A proposta foi dialogar de forma mais direta e acessível, sem perder o compromisso com a reflexão crítica.
Em meio a esse contexto, os textos buscaram privilegiar temas do cotidiano, memórias, impressões e pequenas provocações, mais voltadas à escuta e à sensibilidade do que ao embate direto. Dezembro convida a esse exercício: desacelerar, observar e repensar caminhos.
O meu texto contempla o último domingo do ano em família. Fui a feira com a minha mãe e fizemos uma boa compra de legumes, verduras, queijos, hortaliças e etc.
No retorno, plantei alface, couve, cheiro verde. E decidimos preparar no almoço “Spaghetti ao Pesto Genovese’.
“Fizemos o mise en place”. Ou seja, preparamos e organizamos todos os ingredientes (picados, medidos) e utensílios necessários antes de começar a cozinhar. O mise en place é uma técnica francesa (“posto em ordem”) que torna o preparo mais ágil, tranquilo e evita esquecimentos, garantindo que tudo esteja no lugar certo e pronto para uso, como se vê em programas de culinária profissional.
O prato ficou uma delícia! Não me recordo a última vez que fizemos invencionices despropositadas. Confesso que sou a favor de estar aberto a novos sabores. “Os novos chefs de vanguarda estão tentando passar a mensagem como comedores, oferecendo cardápios cada vez mais vastos”, afirma a jornalista e escritora Dana Goodyear.
O psicólogo Paul Rozin, professor da Universidade da Pensilvânia e um dos maiores estudiosos da nossa relação com o gosto, informa que não existe ninguém no mundo que não desgoste ou que não tenha nojo de algum alimento. “Algumas pessoas são mais sensíveis ao gosto amargo, como do café. Outras têm um monte de categorias de alimentos que não gostam, como carnes e verduras, mas nós realmente não sabemos por quê”, afirma Rozin. Nossos gostos têm muito mais a ver com questões sociais e culturais do que biológicas ou hereditárias. O paladar se forma por décadas, não de um dia para outro. “Os primeiros seis anos de vida não são a fase em que as nossas preferências são criadas, como muitos acreditam (…) é fato que temos uma preferência inata por sabores doces, por exemplo. Mas há quem não ligue para a sobremesa ou chocolate de todo dia”, pondera Rozin.
De qualquer modo, neste fim de ano, fica o convite à abertura: aos sabores, às experiências e aos encontros simples que dão sentido aos dias. Cozinhar em família, ir à feira, plantar algo com as próprias mãos e compartilhar uma refeição são gestos aparentemente banais, mas profundamente formadores, capazes de produzir memória, afeto e reflexão.
Encerrar o ano assim – entre o cultivo, o preparo e a partilha – talvez seja uma forma silenciosa, porém potente, de reafirmar que o cotidiano também é espaço de aprendizado, escuta e reinvenção.
Que 2026 venha com disposição para novos sabores, ideias e caminhos, sem perder o gosto pelo essencial.
(*) José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Titular da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).





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