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Turismo homicida – por Leonardo da Rocha Botega

Enfim, uma investigação séria sobre os “safáris humanos” na Guerra da Bósnia

Uma notícia sacudiu a Itália ao longo das últimas semanas: o Ministério Público de Milão abriu uma investigação sobre cidadãos italianos, e de outras nacionalidades (russos, estadunidenses, canadenses), que pagaram para viajar à Bósnia-Herzegovina e atirar em civis por diversão durante o cerco à Sarajevo, ocorrido na Guerra da Bósnia. A abertura das investigações tomou por base uma denúncia feita pelo jornalista e escritor italiano Ezio Gavazzeni.

A denúncia não é propriamente uma novidade. O próprio Ezio Gavazzeni, em entrevista ao site Opera Mundi, chamou atenção para o fato de que soube da notícia em 1995, através de dois artigos publicados nos jornais italianos Corriere della Sera e La Stampa. O primeiro artigo chegou a ser publicado na primeira página do jornal, o que indicava a relevância jornalística da matéria. Porém, na ocasião, nenhum promotor italiano decidiu investigar mais a fundo a denúncia.

Em 2022, a denúncia ganhou uma nova configuração com o documentário “Sarajevo Safari”, do diretor esloveno Miran Zupanic. O documentarista deu voz a duas testemunhas que afirmavam ter visto grupos de turistas circulando armados nas colinas de Sarajevo. Foram essas testemunhas que afirmaram a presença de italianos entre esses “turistas”. Ainda em 2022, a prefeita de Sarajevo, Benjamina Karić, apresentou denúncia à promotoria da cidade. A denúncia foi arquivada, segundo Gavazzeni, para não abrir as “feridas profundas” da História da Bósnia.

A História Contemporânea da região dos Balcãs é marcada por inúmeros conflitos étnicos e movimentos nacionalistas. Cabe lembrar que foi em Sarajevo que em 1914 o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do Império Austro-Húngaro, foi assassinado pelo grupo nacionalista sérvio-bósnio Mlada Bosnia, dando início à Primeira Guerra Mundial. A Guerra da Bósnia, por sua vez, ocorreu entre 1992 e 1995, no contexto da fragmentação da Iugoslávia.

O processo de fragmentação da Iugoslávia iniciou em 1991 com as independências da Eslovênia, da Croácia e da Macedônia. Em março de 1992, a maioria da população da Bósnia-Herzegovina votou favorável à independência da região. Na ocasião, o país possuía uma grande diversidade étnica, 44% de seus habitantes eram bósnio-muçulmanos (bosníacos), 31% eram bósnios-sérvios e 17% bósnios-croatas. Os bosníacos defendiam a independência, os bósnios-sérvios defendiam a anexação da região à Iugoslávia, onde a Sérvia era dominante, já os bósnios-croatas defendiam a anexação da região à Croácia.

Desde fins de 1991, o líder dos bósnios-sérvios, Radovan Karadzic, vinha declarando que iniciaria uma guerra civil caso a Bósnia declarasse sua independência. Em meio a essa declaração iniciou-se um cerco a Sarajevo por tropas sérvias que durou longos 44 meses. Após o referendo da independência, Karadzic passou a liderar uma tentativa de limpeza étnica da Bósnia através do extermínio da população bosníaca. Foi nesse contexto que ocorreram os “safáris humanos” em Sarajevo.

Pessoas ricas, fanáticos por armas, frequentadores de campos de tiro ou de safáris na África, muitos envolvidos em círculos de extrema-direita, pagavam entre 80.000 e 100.000 euros (R$ 490 mil e R$ 610 mil) para que as milicias sérvio-bósnias os deixassem atirar em civis. Homens, mulheres, idosos, crianças, todos possuíam um preço. As “excursões” partiam de Trieste na Itália até a Sérvia, de onde os “turistas” seguiam escoltados pelas milicias para Sarajevo.

O cerco de Saravejo resultou em mais de 11 mil mortos e 60 mil feridos. Conforme a Unicef, 40% das crianças de Saravejo foram alvejadas diretamente por snipers. Não se sabe ao certo quantas foram alvejadas pelos 13 mil militares que cercaram a cidade, nem quantas foram alvos dos “turistas homicidas”. Além do cerco a Saravejo, a Guerra da Bósnia também foi marcada pelo Massacre de Srebrenica, onde, ao final da guerra, 8 mil bosníacos foram mortos por soldados sérvios da Bósnia, sob o comando de Ratko Mladic.

Em 2016, Radovan Karadzic, o “carniceiro dos Balcãs”, foi condenado pelo Tribunal Penal Internacional a 40 anos de prisão. Em 2017, Ratko Mladic, o “açougueiro da Bósnia”, foi condenado a prisão perpétua. Também foram condenados o ex-presidente da Iugoslávia, Slobodan Milosević, o comandante considerado responsável direto por dar ordens aos franco-atiradores, Stanislav Galić, e os chefes da espionagem sérvia, Jovica Stanisic e Franko Simatovic, além de outros oficiais sérvios. Stanisic é apontado como um dos organizares do “turismo dos homicidas”.

A denúncia do “safári humano” em Saravejo, silenciado ao longo de três décadas, retoma as antigas discussões sobre o lado oculto da História das Guerras: a cumplicidade de segmentos da sociedade civil, sobretudo ocidental, com os genocídios. Assim foi no Holocausto Colonial, no genocídio da Armênia e no Holocausto nazista. Assim tem sido na Palestina, onde colonos dos assentamentos ilegais israelenses atiram dia e noite contra civis palestinos sob o silêncio cumplice da comunidade internacional.

A ruptura com essas cumplicidades passa pela revisão do paradigma do descarte dos “indesejáveis” que é parte da própria cultura colonialista ocidental. Enquanto essa cultura for predominante, impondo modelos de sociedade, domínios territoriais e enxergando o “outro” como o “inferior incivilizado”, muitos outros “turismos homicidas” virão à tona. Ontem foi na Bósnia. Hoje é na Palestina. E amanhã? Onde será?   

(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve regularmente no site, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).

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4 Comentários

  1. Italia. Famoso pelo sistema judicial. Em 2012 seis sismólogos italianos foram condenados por homicídio culposo. Não ‘predisseram’ o terremoto de 2009 que matou 309 pessoas. Ou seja, foram condenadas por não fazer o impossível.

  2. Um diretor esloveno faz um documentario 30 anos depois dos supostos fatos. Esta respondendo processo por isto. Vai ter que provar.

  3. Todo jeito de ser um factóide. Propaganda. Primeiro porque lembra roteiro de filme ‘B’ de cinema. ‘O Alvo’ com Jean Claude Van Damme. Ou ‘Surviving the Game’ com Ice-T e Rutger Hauer. Diferença é que as ‘presas’ são moradores de rua. Baseiam-se num conto de 1924 chamado ‘The Most Dangerous Game’ de Richard Connell.

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