A parditude felina – Amarildo Luiz Trevisan
E onde entra o gato Samuel na história. E tem outros felinos, também!

Tenho um gatinho pardo que, aqui em casa, virou joia de família. O Samuel, que virou Samuca no vocabulário doméstico, veio do interior pelas mãos do meu filho, com a justificativa simples e definitiva, lá ele já não tinha futuro.
Veio junto a Alice, branca e sociável, é presença que não pede colo, pede conversa, pede plateia. O Samuca é outra música. Quase não mia. Só os olhos, verdes e acesos, entregam que ele está sempre vendo mais do que diz.
Desde o início, inventou um hábito que ele chama de brincadeira. Samuca se esconde atrás da porta, debaixo da escada, na dobra do sofá. Espera. Vira estátua. Quando o/a colega passa distraído/a, ele salta, um susto elegante, como quem diz: “A vida também é surpresa.” Uns riem, outros não perdoam.
Foi assim que ele acumulou amizades e pequenas inimizades, como todo ser que insiste em ser ele mesmo. A Princesa, clara e altiva, não quer vê-lo por perto. O Aladim já brigou bastante com ele, mas nos últimos tempos parece ter aprendido a lidar com o roteiro do susto. Quando percebe o Samuca na espreita, finge que não é com ele, ou acelera o passo, atravessa a escada ou o corredor como vento, não dá tempo para o outro entrar em cena.
Até que, outro dia, a Jasmine, mais escurinha, mourisca, resolveu implicar também. Tudo bem os clarinhos se ofenderem, pensei, mas a Jasmine também? Aí já parecia excesso, como se o pardo não pudesse descansar em lugar nenhum.

Foi nessa época que li uma reportagem sobre uma pesquisadora, Beatriz Bueno, que teria criado o conceito de “parditude”, ideia que busca nomear e valorizar a experiência parda e mestiça no Brasil. Li e, sem querer, voltei a olhar o Samuca com outros olhos. Há uma condição curiosa, e por vezes dolorida, em ficar no meio. Nem uma margem, nem a outra. Uma espécie de corredor onde passam empurrões vindos de duas direções opostas.
Segundo o Censo 2022, uma grande parte do país se identifica como parda. Mesmo assim, há quem descreva essa vivência como um “limbo” social, pressionado por disputas que exigem escolhas rígidas, como se a identidade fosse só uma porta com duas placas. O que me chamou atenção, no texto que ela publicou, foi a insistência em algo simples: que as próprias pessoas pardas investiguem suas experiências e falem delas, sem pedir licença para existir. Assim como fez o cantor Caetano Veloso, na música Pardo:
Sou pardo e não tardo a sentir-me crescer o pretume
Sou pardo e me ardo de amores por ti sem ciúme
Sou pardo e não tardo a sentir-me crescer o pretume
Sou pardo e me ardo de amores por ti sem ciúme de amores, Nêgo.
Também li críticas vindas de lideranças do movimento negro, preocupadas com o risco de fragmentação da luta antirracista e com possíveis divisões que enfraqueçam alianças históricas. De um lado, a necessidade de unidade diante de violências concretas. De outro, o desejo de nomear a própria pele sem ser acusado de atrapalhar o incêndio.
Voltei o olhar para a minha casa e encontrei o Samuca no seu lugar preferido, meio escondido, meio dono da cena. Os gatos têm isso: fazem política com o corpo. A Princesa passou, olhou de canto, seguiu. O Aladim veio depois, hesitou, acelerou, escapou do susto. A Jasmine apareceu por fim, firme como sentença, e o Samuca, curioso, ficou só olhando, sem saltar. Talvez tenha percebido que nem todo encontro precisa de surpresa, às vezes basta presença.
Fico pensando que a ciência, quando é viva, também funciona como uma casa com muitos gatos. Há território, disputa, aliança, equívoco, afeto. Há o esforço de nomear o que antes era confuso, de dar forma ao que parecia nebuloso. E há, sobretudo, a tarefa difícil de aprender a conviver com o meio, com o entre, com aquilo que não cabe em rótulos fáceis. Isso vale para uma casa, vale para um Brasil miscigenado que tantas vezes hesita em reconhecer a parditude.
A própria Beatriz Bueno, ao sustentar a polêmica em torno desse nome, acabou expulsa do mestrado, ainda que a justificativa oficial tenha seguido outro caminho, como costuma acontecer nesses casos.
Mas, se quem tomou essa decisão tiver um pouco de humildade para aprender com um gato pardo, talvez descubra que o “entre” não é um limbo. O “entre” pode ser ponte, pode ser travessia, pode ser uma forma de existir com mais de uma raiz no corpo e com mais de uma história no olhar.
E pode ser também um passo de Gradiva, desses que avançam com elegância, empurrando a ciência para diante, não para fechar o mundo em categorias mortas, mas para compreender melhor a riqueza ilimitada da diversidade humana.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Resumo da opera. Vamos combinar que seria muito mais fácil deixar a moça terminar o mestrado dela sem alarde. Dissertação iria ‘sumir na prateleira’. Programa não tem doutorado, para continuar teria que procurar outro lugar. Briga de orientando com orientador, não é incomum, geralmente acontece por conta dos egos. Militantes de esquerda tem o habito de supervalorizar o que fazem.
O programa envolvido é o ‘Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades’. Vinculado ao Instituto de Arte e Comunicação da UFF. Sigla PPCULT. Se é um culto não se sabe. Obviamente o viés é a esquerda. Aparentemente está na Comunicação Social mas é majoritariamente sociologia e antropologia. Dissertação, exemplo, ‘Na Trilha dos Vinis: Das Ruas as Redes, o Comércio de discos no Rio de Janeiro Pós Pandemia’.
‘A própria Beatriz Bueno, ao sustentar a polêmica em torno desse nome, acabou expulsa do mestrado, ainda que a justificativa oficial tenha seguido outro caminho, como costuma acontecer nesses casos.’ Justificativa oficial pode ou não ser verdadeira. Os problemas apontados poderiam ou não ser facilmente contornados. Maioria não vai ficar sabendo.
‘Fico pensando que a ciência, quando é viva, também funciona como uma casa com muitos gatos. Há território, disputa, aliança, equívoco, afeto.’ Sem elocubrações filosoficas, ciencia é ciencia. Metodo cientifico não muda. Problema é a Academia e as pessoas que lá habitam, como vivem, o que comem e como se reproduzem. Não é um territorio asseptico como vende a propaganda. Tem muita sacanagem, batalha de egos e vaidades, carona em trabalhos, etc. Há universidades no pais onde existe o ‘grupo de pesquisa sobre ratos’, ‘grupo de pesquisa sobre capivaras’, ‘grupo de pesquisa sobre porquinho da India’ e ‘grupo de pesquisa sobre roedores’, tudo na mesma instituição. Era tudo uma coisa só, sai uma briga (ou mais) e ocorre o milagre da multiplicação dos grupos de pesquisa. Não é incomum que terminem até em programas de pos-graduação diferente de cursos diferentes.
‘De outro, o desejo de nomear a própria pele sem ser acusado de atrapalhar o incêndio.’ Bem mais complicado do que isto. Existem diferenças obvias. A personagem é jovem e muito bem apessoada. Algo como 115 mil seguidores no Instagram. Citada por Mano Brown no seu podcast ‘Mano a Mano’ (vamos combinar que ele é muito conhecido e altamente respeitado).
‘ De um lado, a necessidade de unidade diante de violências concretas.’ De um lado a necessidade de uma minoria não parecer minoria. Porque se o Supremo Tribunal Cumpanhero precisa reconhecer que ‘existe racismo estrutural no Brasil’ e que ‘não existe racismo diverso’ é porque o primeiro não existe e o segundo existe. Canetaço da ‘vanguarda iluminista’.
Lembrando o caso de um biologo youtuber famoso. Bichinho para lá, bichinho para cá. Controvérsia com famosa sobre abrigo de animais. Larga um video ‘não tem outro jeito, vou ter que me candidatar a deputado federal’. E adotou um discurso que lembra o PDT.
‘Também li críticas vindas de lideranças do movimento negro, preocupadas com o risco de fragmentação da luta antirracista e com possíveis divisões que enfraqueçam alianças históricas.’ Segundo o IBGE existem mais pardos (45%) do que brancos (43%) no Brasil. Pretos seriam 10%. Números arredondados. Como em toda causa há quem sobreviva dela, militantes profissionais. Logo o problema não pode diminuir e muito menos acabar. Como em toda causa publicidade é necessaria de vez em quando, logo um problema ou uma encrenca (real ou imaginária, organica ou fabricada) tem que acontecer.
‘[…] que teria criado o conceito de “parditude”, ideia que busca nomear e valorizar a experiência parda e mestiça no Brasil.’ ‘Criar conceito’ é complicado. Lembrando o caso de Djamila Ribeiro e o ‘lugar de fala’. O conceito ou algo parecido já tinha aparecido em Foucault, Bordieu e outros. Nenhum espanto ela é oriunda da USP onde aconteceu uma missão francesa decadas atras, professores vieram lecionar (algo que teria que se repetir mas os egos não permitem). Muita gente tentou transformar em ‘lugar de cala’, inclusive alguns sem espinhaço aqui de SM aderiram.