“Foi Apenas Um Acidente” e como pensar o regime do Irã – por Roselâine Casanova Corrêa

O cineasta iraniano Jafar Panahi, foi condenado em dezembro/2025, em Teerã, a um ano de prisão por “atividades de propaganda” contra o regime dos aiatolás. Foi, também, proibido de viajar por dois anos e impedido de participar de grupos políticos. No mesmo dia da condenação em Teerã, estava em Nova York, para receber os prêmios de Melhor Roteiro Original, Melhor Diretor e Melhor Filme Internacional no Gotham Awards, por “Foi apenas um acidente”, também vencedor da Palma de Ouro, no Festival de Cannes, em maio/2025. Em entrevista ao Hollywood Reporter, Panahi afirmou que retornará ao seu país – após a campanha de divulgação do filme – independente da sentença.
Panahi já foi preso por duas vezes: em 2010 e 2022, acusado de fazer propaganda contra o regime e apoiar Hossein Moussavi, reformista opositor à ala religiosa em seu país. Na ocasião – em uma entrevista à Folha – criticou o governo brasileiro, por manter relações comerciais com o regime, que reconhecidamente viola os Direitos Humanos.
Assim, seu filme “Foi apenas um acidente” (It Was Just an Accident), lançado no Brasil em dezembro/2025, e que pode ser visto no MUBI e no Imovision é, em parte, autobiográfico. Contudo, apresenta uma narrativa ficcional baseada em relatos que ouviu de detentos durante seu tempo na prisão. Embora a trama em si – que segue um grupo de antigos prisioneiros do regime iraniano – circule pelas discussões acerca do destino de um homem que eles creem ser seu torturador, seja uma obra de ficção, ela aborda temas reais e traumáticos vivenciados sob o regime iraniano.

O diretor foi proibido de fazer filmes em seu país e seu longa foi gravado clandestinamente, em grande medida, nas ruas de Teerã. Essa é a razão de estar concorrendo aos prêmios pela França. As filmagens se constituíram em um esquema complexo de logística, com uma equipe enxuta e ágil para evitar fiscalização e abordagens policiais. É, em tese, um filme de resistência. Exitoso pela crítica e pela bilheteria.
Talvez o maior mérito de Panahi seja transformar vivências e memórias traumáticas, sob um regime autoritário, com leveza e humor. Afinal, trata-se de uma história dura e pessoal que, em determinado momento – o reconhecimento do torturador pelo protagonista – lembra a atriz Beth Mendes, ao reconhecer seu torturador sob o regime da ditadura civil-militar brasileira, ao ouvir sua voz (seu torturador foi o único a ser julgado e condenado, no Brasil).
Sob a fotografia de Amin Jafari, observa-se o contraste entre o deserto deslumbrante e o terror claustrofóbico, resultando na dúvida e na hesitação acerca do que fazer com o torturador reconhecido por todos os envolvidos. Há, entre eles, dilemas morais que se contrapõem entre trauma/justiça.
Em síntese, Jafar Panahi transita pela complexidade humana em situações extremas, com um elenco afinado e carismático: Ebrahim Azizi (Eghbal), Vahid Mobasseri (Vahid), Hadis Pakbaten (Golrokh) e Mariam Afshari (Ahiva).
As notícias dos últimos dias acerca das arbitrariedades do regime no Irã, só referendam a trama. Da pior forma possível!

(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Foi membro do COMPHIC (2012-2022). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”.





Brando, sugiro também “Através das Oliveiras”, de Abbas Kiarostami.
Belíssimo e com uma fotografia de arrasar, por entre as oliveiras.
Mas talvez eu prefira esse, pelo fascínio às oliveiras, seus frutos e seu azeite.
“Dez” é excepcional, sobretudo por tematizar a mulher no contexto iraniano.
Resumo da opera VI. Os Vermelhos não vivem em Narnia, vivem no ‘Mundo Invertido’.
Olá, Brando, tudo bem com você??
1ª Não sou vermelha, uma vez que torço para o Grêmio.
2ª Ao invés de Nárnia, eu vim de Westeros, o continente fictício da série “Game of Thrones”, que eu amo.
3ª Não curto Stranger Things, portanto não vim de Hawkins, o tal “Mundo Invertido”.
Resumo da opera V. Como na questão palestina, ‘daqui 10 anos tem de novo’.
Muito antes disso, caro Brando.
Só lembrar que os conflitos anteriores a esse de 2025/2026, no Irã, ocorreram em 2022.
Resumo da opera IV. Invasão do Iraque deu errado. No Afeganistão voltou o Talibã. Dai o ‘isolacionismo’ ianque.
Complementando seu raciocínio, Brando:
Iêmen e Síria, além do Iraque e do Afeganistão.
Resumo da opera III. Podem fazer quantos filmes quiserem, não muda absolutamente nada. Escrever textos idem. As pessoas vão ler/ver achar ‘que pena’ e depois tocar a vida. No maximo uma sinalização de virtude ‘olha como sou legal, sou contra a ditadura iraniana’.
As pessoas escrevem/filmam acerca dos conflitos no Oriente Médio devido à sua significância geopolítica global, à natureza complexa e duradoura das disputas, e ao impacto humanitário profundo que geram.
O tema atrai a atenção de jornalistas, escritores e pesquisadores por várias razões.
Dê um Google que você encontrará todas elas.
Mas informar as pessoas, por si só, já uma excelente razão.
Ou você entende o “ignorar” uma alternativa mais viável??
E eu sou uma uma pessoa muuuito legal, independente da ditadura de qualquer país.
Resumo da opera II. Para quem chegou de Marte agora, critica-se a escravidão africana nas Americas. Ninguém (ou quase) menciona que muito mais gente foi para o Oriente Médio. Durante muito mais tempo. Que atualmente escravas sexuais ainda por lá existem, trafico de pessoas para trabalhar idem.
A escravidão ocorreu no mundo todo, desde a Antiguidade Ocidental e Oriental (Grécia, Roma, Egito).
O tráfico de pessoas idem.
Só não entendi o comentário, pois não abordei esse tema na resenha, que, aliás, refere-se a um filme específico, dentro de um contexto político autoritário preciso.
Resumo da opera. ‘[…] dilemas morais que se contrapõem entre trauma/justiça.’ Não existe dilema nenhum. É Choque de Civilizações do primeiro ao quinto e invertido. Argumento também utilizado na Russia e na China, é o ‘Ocidente querendo impor seus costumes decadentes’. Parte dos democratas ianques só não concordam com o ‘decadentes’. Diversidade, equidade, inclusão. Pautas do Alfabeto. É uma teocracia, se a mentalidade das criaturas é religiosa não irá mudar com um ‘debate racional’.
‘É,[…] um filme de resistência.’ Sim, na base do ‘vai tomando balaços ai, talvez alguns sejam enforcados, enquanto isto a gente faz um filme para “ajudar”‘.
‘[…] lembra a atriz Beth Mendes, ao reconhecer seu torturador sob o regime da ditadura civil-militar brasileira, […]’. Kuakuakuakuakuakua! As orquestrações dos Vermelhos são sempre engraçadas! Kuakuakuakuakuakua!
Você tem obsessão pelo que chama de “vermelhos”, não é mesmo??
Um bom tema para terapia.
Quem sabe você escreve sob a sua perspectiva e publica??
Porém, sem codinome.
Que tal??
Graphic Novel. Marjane Satrapi. Persepolis. Em quadrinhos a vida da autora antes, durante e depois da Revolução Iraniana.
Marjane Satrapi, que retrata sua infância até seus primeiros anos de vida adulta no Irã, durante e após a Revolução Islâmica.
Persépolis lembra os leitores da “precariedade da sobrevivência” em situações políticas e sociais.
Considero essas histórias em quadrinhos geniais.
E autobiográficas, né??
Ainda Abbas Kiarostami. Outro filme mais antigo. Cameras no painel de um carro. ‘Taste of Cherry’. ‘O gosto de cereja’. Um suicida dirige um carro e propõe a diversas pessoas que pedem carona que elas o enterrem depois de cometer o ato. Outro baita filme.
Do principio. Cinema iraniano. Abbas Kiarostami. Fez um filme chamado ‘Ten’ (traduzido no Brasil criativamente como ‘Dez’). Uma mulher dirigindo um taxi na cidade. Duas ou tres cameras montadas no painel de um carro. Custou praticamente nada. Um baita filme.