“Não tem ninguém em Santa Maria no verão” – por Guilherme Bicca

São anos e anos conversando com todo tipo de santa-mariense, na sua maioria, empresários e, toda vez me surpreendo com a afirmação (ou lamento) de que no verão, nada funciona, nada dá certo. De que não adianta promover nada, porque, nessa época nunca tem ninguém em Santa Maria.
No topo da teoria está a ideia de que com a UFSM e a UFN em férias, TODOS os estudantes dessas instituições voltam para sua terrinha, deixando a cidade universitária desértica. Mesmo que a própria Universidade tenha divulgado recentemente que, dos 30 mil alunos que estudam no campus local, pouco mais de 10 mil são de fora de Santa Maria.
Confesso que não possuo os dados da UFN, mas tendo a acreditar que seja parecido em proporção.
A teoria também abarca a constatação de que ao sair de férias, professores universitários, servidores públicos municipais, estaduais e federais, juízes, promotores, procuradores, bancários, enfim… todos os detentores de cargos públicos da cidade, passam o verão na praia.
Férias de sessenta dias? Ok.
Além deles, aparentemente, todo médico, advogado, arquiteto, psicólogo, dentista, nutricionista, contador… todo profissional liberal, com o mínimo de autonomia sobre a própria carreira, também passa os meses de janeiro e fevereiro na praia.
Santa Maria possui quase 300 mil habitantes. Mesmo que todos os profissionais citados acima, suas familias, e estudantes das universidades que moram fora da cidade, somem 50% da população, ainda teríamos quase 150 mil pessoas “veraneando” em Santa Maria.
Isso é mais do que a população total de qualquer um dos outros 33 municípios da Região Central, incluindo Cachoeira do Sul e Santiago somados. É mais do que a população de Santa Cruz do Sul.
Então:
- Mesmo que TODOS os estudantes universitários fossem de outras cidades e voltassem para suas casas no verão… o que não é verdade;
- Mesmo que todos os funcionários públicos de Santa Maria tivessem férias de 60 dias e os passassem integralmente na praia… o que não é verdade;
- Mesmo que todos os profissionais liberais de Santa Maria pudessem e se dessem ao luxo de não trabalhar por dois meses inteiros no verão e viajassem por todo esse período… o que não é verdade;
Ainda assim teríamos uma legião de gerentes de lojas e restaurantes, vendedores, atendentes, garçons, corretores imobiliários, jornalistas, publicitários, cabeleireiros, esteticistas, cozinheiros, policiais, bombeiros, militares, motoristas, padeiros, engenheiros, pedreiros, veterinários, empresários, seguranças, vigilantes, técnicos de informática, de telefonia, de internet, de segurança do trabalho… aff… já deu pra entender, né?
E talvez, alguém que defende essa teoria esteja lendo a coluna e pensando: “Mas então por que a cidade fica deserta e parece que ninguém frequenta os shoppings, as lojas, os bares, os restaurantes?”.
Talvez porque ao acreditar nisso, quase ninguém se dê ao trabalho de criar atrações voltadas a quem está em Santa Maria, nesse período. E aí ficam como aqueles casais novos que brigam mas ainda se gostam: um querendo o outro, em cada canto, com o beiço pendurado.
Quem promove algo especial tem público. E até quem não promove. Vide o McDonald’s, sempre lotado, com filas, e o Clube Dores, que abarrotado de tanta gente, precisa usar o campo de futebol como estacionamento.
Achou óbvios demais os exemplos? Que tal então o Theatro Treze de Maio, que em janeiro promoveu o “Palco Treze Infantil”: duas semanas de programação com peças teatrais infantis e gratuitas, todos os dias, das 19h às 20h.
Resultado? Casa lotada em cada uma das seções. Quem diria… teatro fazendo sucesso em uma cidade deserta, em que nada dá certo no verão.
Agora dá licença, pois tenho que me aprumar. Hoje tem show do Sino na Carniceria Del Fuego. Eu até estava com vontade de comer uma pizza, mas sem reserva, se não chegar cedo, não consigo uma mesa no Vera Cruz. E na volta pra casa, sorvetinho na Santino. Se a fila não estiver na calçada, claro.
(*) Guilherme Bicca é jornalista graduado na Universidade Franciscana (UFN) desde 2008. Nesses anos, especializou-se em assessoria de comunicação integrada, quando realizou trabalhos junto a instituições como Sociedade de Medicina; Apusm; Sindilojas; e, mais recentemente, CDL Santa Maria. Está à frente da comunicação de entidades como Adesm e Secovi Centro Gaúcho; presta assessoria especializada ao Fidem Bank; é redator sênior na Jusfy, legaltech eleita a startup mais escalável do último South Summit. Também é um dos âncoras do Semanário, programa veiculado aqui mesmo em claudemirpereira.com.br; e criador do podcast Bocas do Monte, da TV Santa Maria. Guilherme Bicca escreve às sextas-feiras no site.





Resumo da opera II. O ‘tá sempre lotado’ obviamente é cascata. O jabá da Carniceria também. Truquezinho antigo da ‘escassez’. Aumenta o valor percebido e ativa o ‘medo de perder’, ansiedade, urgencia, desejo de compra. SM é uma cidade interiorana, não descobriram ainda que existe uma duzia de canais no Youtube explicando os truquezinhos.
Resumo da opera. Se alguém promover um evento (ou abrir supermercado no domingo) e aparecer pouca gente vai ter prejuizo. Simples assim. Obviamente o pessoal da publicidade que fizer a divulgação vai receber de qualquer forma.
Concha acustica. Comporta 2 mil pessoas. Baixada Melancólica. Comporta 6500 pessoas. Planetário. Comporta 122 pessoas por sessão. ‘Quando tem show lota’ é genérico. Se tiver todo dia vai lotar? Não.
‘E na volta pra casa, sorvetinho na Santino.’ Coisas da classe média. Gente com dinheiro come Häagen-Dazs.
‘[…] , não consigo uma mesa no Vera Cruz.’ Tem 120 metros quadrados.
‘Que tal então o Theatro Treze de Maio, […]’. Capacidade de 335 pessoas.
‘[…] e o Clube Dores, que abarrotado de tanta gente,[…]’. Não tem piscina?
‘Vide o McDonald’s, sempre lotado, com filas, […]’ . Conveniencia.
‘Talvez porque ao acreditar nisso, quase ninguém se dê ao trabalho de criar atrações voltadas a quem está em Santa Maria, nesse período.’ Cacoete dos autoctones. ‘Se tiver oferta vai aparecer demanda’. Decadas atrás abriam os supermercados nos domingos. Pessoal vinha fazer compras aqui. Situação mudou. Já não abrem mais faz tempo. Abriram supermercados nas cidades ao redor, alguns abrem nos domingos. Pequenos supermercados criaram-se na cidade. Lojas de conveniência. Jenios da aldeia defendem retomada da abertura aos domingos. Argumento é que tudo voltará a ser como antes, o pessoal das cidades ao redor vão deixar de comprar nos estabelecimentos locais e se deslocar para SM. Escondem a propria conveniencia atrás de uma fantasia.
‘[…] teríamos uma legião de gerentes de lojas e restaurantes, vendedores, atendentes, garçons, […]’. Que tem que cumprir 44 horas semanais e não tem a pachorra de sair todo dia. Netflix quebra o galho.
‘[…] somem 50% da população, ainda teríamos quase 150 mil pessoas “veraneando” em Santa Maria.’ Qual o poder aquisitivo desta gente? Ursula von der Leyen da Comunidade Europeia declarou que acordo com a India abriria um mercado com mais de 1 bilhão de pessoas para a CE. Conversa, tem gente no subcontinente que mal tem dinheiro para se vestir.
Adendo aos profissionais liberais. Recesso do judicário já acabou. Médicos programam férias, mas geralmente são 15 dias de cada vez. Alas, a dificuldade de marcar consulta continua por conta da agenda cheia. Recolhimento de impostos não para, logo contadores tem que dar um jeito. Logo não é bem assim.
‘[…] todo profissional liberal, com o mínimo de autonomia sobre a própria carreira, também passa os meses de janeiro e fevereiro na praia.’ Com o minimo de renda, sim.
‘[…] todos os detentores de cargos públicos da cidade, passam o verão na praia.’ Aquela folha de pagamento de que muitos se vangloriam vai para o ‘exterior’? Pessoal com poder aquisitivo, com a vida ganha? Menos dinheiro na economia local? Não é facil medir. Transparencia é naquela base, dados são jogados brutos, estão disponiveis mas é o mesmo que nada.
‘De que não adianta promover nada, porque, nessa época nunca tem ninguém em Santa Maria.’ Tem o lado positivo. Menos santamarienses significa menos gente para sujar a cidade, jogar lixo no chão. Significa menos gente ligando o pisca-alerta e deixando o carro onde é mais conveniente. Menos gente buzinando para magicamente fazer o transito andar. Menos reclamões. Menos gabolas.
Faltou citar amigo BICCA:
CONCHA ACUSTICA (Parque Itambé), “Quando tem show” lotada!!
ESTÁDIO BAIXADA MELANCÓLICA: Lotada
UFSM no planetário: “Quando tem show” lotada
……….
Tem plena razão, meu amigo. Todos esses e muitos outros lugares que quando tem qualquer tipo de promoção, lota. Mas ainda assim, tem empresa de gastronomia e de entretenimento que faz férias coletiva no verão. Os shoppings não promovem um evento sequer, porque tem a certeza de que não terão público. Só esquecem de conferir os fatos, antes de tomar decisões.