Quem promete mudança, tem que governar mudando. Ou perde a confiança popular – por Marionaldo Ferreira

Quando o campo democrático e progressista chega ao governo, não basta ocupar cadeiras, trocar nomes ou suavizar discursos. Governar, nesse campo, é produzir diferença concreta, perceptível na vida das pessoas. Caso contrário, a mudança vira apenas retórica – e a política perde sentido aos olhos de quem mais precisa dela.
A governança progressista carrega uma responsabilidade histórica: romper com a naturalização da desigualdade. Se administra o mesmo orçamento com a mesma lógica, se preserva os mesmos privilégios, se aceita as mesmas amarras institucionais como se fossem leis da natureza, então não governa – apenas gerencia o sistema que prometeu transformar.
Há um erro recorrente: acreditar que é possível fazer justiça social sem tocar nas estruturas que produzem injustiça. O resultado é previsível. Ao não mexer na engrenagem que oprime, o governo acaba sendo oprimido por ela. A máquina estatal, desenhada para conservar poder, captura o projeto político e o reduz a um simulacro de mudança.
O povo percebe. Talvez não formule em conceitos, mas sente no cotidiano. Se a escola não melhora, se a saúde continua inacessível, se o transporte segue excludente e se o trabalho permanece precário, a pergunta surge com força: por que mudar, se tudo continua igual? É nesse vazio que cresce o descrédito na política e se alimentam soluções autoritárias.
Governar de forma democrática e progressista exige coragem para enfrentar interesses, rever prioridades e disputar o sentido do Estado. Não se trata de radicalismo irresponsável, mas de coerência histórica. Quem promete mudança precisa governar mudando. Do contrário, o governo até se mantém – mas o projeto se perde, e com ele a confiança popular.
Sem transformação visível, não há pedagogia política. E sem pedagogia política, a democracia fica frágil, refém do próprio sistema que dizia querer superar.
(*) Marionaldo Ferreira é especialista em governança pública, mentor de líderes e consultor em gestão e captação de recursos para municípios. Atua na formação de servidores e agentes públicos e é autor do livro Governança Pública e Suas Possibilidades.





‘O homem racional adapta-se ao mundo; o homem irracional persiste em tentar adaptar o mundo a si mesmo. Portanto, todo o progresso depende do homem irracional’. George Bernard Shaw.