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“Valor Sentimental”: perdoar ou esquecer? – por Roselâine Casanova Corrêa 

A resenha sobre o filme norueguês, um dos grandes candidatos ao Oscar 2026

“Não há nada neste filme que não esteja lá por alguma razão”, afirmou a jornalista e crítica de cinema Isabela Boscov, acerca de “Valor Sentimental” (Sentimental Value), filme norueguês dirigido por Joachim Trier, que estreou no Brasil no Natal/2025 e está disponível no MUBI e na Apple TV. Com alguns prêmios no currículo, o longa será um forte concorrente – em várias categorias – ao filme “Uma Batalha Após a Outra”, no Oscar/2026. Já levou o prêmio de melhor ator coadjuvante – Stellan Skarsgård – no Globo de Ouro (11/01). E um feito inédito: concorre ao melhor ator coadjuvante em um filme estrangeiro, pela primeira vez, em quase um século do Oscar (1929).

A trama se desenvolve a partir das complexas relações de uma família, suas fissuras emocionais e a ausência paterna. Gira em torno de uma casa, como se ela detivesse todas as memórias daquela família disfuncional. De fato, a casa enquanto lembrança é tão forte, que está presente da primeira à última cena do longa.

Nela cresceram as irmãs Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), que são confrontadas com o pai narcisista Gustav (o sueco Stellan Skarsgård), no funeral da mãe. Aliás, Lilleaas residiu em Goiás por um ano – por meio de um intercâmbio – onde teve contato com a Língua Portuguesa. Há também no elenco a atriz norte-americana Elle Fanning, que interpreta Rachel Kemp, uma luz que contraste com o tom soturno de Nora.

Ocorre que o pai estava ausente havia anos e reaparece como se estivesse fora há poucos dias. É um diretor de cinema que retorna à terra natal e deseja fazer um filme com sua própria filha Nora, uma atriz renomada de teatro. Nora, por seu turno, demonstra desde a primeira cena estar passando por uma crise emocional. Para piorar o clima já tenso, o pai aparenta não querer sair da casa, afinal, ainda é proprietário dela. E mais: fazer seu filme derradeiro em seu interior. E o desconforto das filhas não parece lhe afetar. Mas elas podem, afinal, contar uma com a outra.

A trama se passa na Noruega, mas pode ser na casa ao lado, ou na nossa própria casa. Os sentimentos explorados podem ser comuns em quaisquer famílias. Lembra os filmes do diretor sueco Ingmar Bergman: exploração da psicologia humana, temas existenciais como a solidão e o abandono, diálogos complexos, personagens femininas enigmáticas e um estilo visual peculiar.

Basta perceber a importância da casa como metáfora visual para explorar a personalidade de pai e filhas e que guarda uma tragédia familiar. Tanto que a edificação apresenta fissuras em suas estruturas, desalinho em seu interior, como a denunciar, por si só, os conflitos ali existentes. Em uma narrativa lenta, mas que exprime toda a dor, ressentimento e abandono que podem gerar o extremo da existência: a desistência. Literalmente!

Contudo, na mesma medida em que as dores podem bloquear qualquer tipo de diálogo entre pai e filhas, o núcleo familiar parece estar sempre a pedir desculpas. Apesar de todas as rachaduras colocadas por Trier, de maneira subliminar. Ao final das contas, a melhor saída parece ser perdoar do que esquecer. Muito Bergman!

(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Foi membro do COMPHIC (2012-2022). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”.

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18 Comentários

  1. Resumo da opera III. Nolan está filmando a Odisséia. Zendaya vai fazer o papel da deusa Atena. Benny Safdie vai ser Agamenon. John Leguizamo vai ser um servo grego. Com sotaque novaiorquino. Himesh Patel, um indiano, vai se outro grego. Will Yun Lee de ascendencia coreana vai ser outro grego. Jimmy Gonzales, um texmex, vai ser outro. Para ver se vai funcionar negócio é ir no cinema assistir.

    1. Boa essa sua comparação da escalação de “Odisséia”.
      Faltou mencionar: Matt Damon (Odisseu); Tom Holland (Telêmaco); Robert Pattinson (Atinous); Mia Goth (Mélantho); Anne Hathaway (Penélope); Charlize Theron (Circe).
      E tem Lupita Nyong’o e Corey Hawkins, ambos pretos.
      E John Leguizamo, colombiano.
      Embora prepondere norte-americanos no elenco, há várias outras nacionalidades.
      Para mim, isso não é um demérito, pelo contrário. É um avanço para a diversidade sendo representada no cinema.
      Contudo, valorizo a discordância.
      “Para ver se vai funcionar negócio é ir no cinema assistir”, uma curiosidade: você frequenta regularmente o cinema?? Pois observo que suas colocações advém de leituras, não de vivência da sala de cinema.
      Mas, claro, posso estar equivocada.

  2. Resumo da opera II. Oscar não de hoje tem criterios de diversidade. Cotas para mulheres, pessoal do Alfabeto, necessidades especais e etnias. Não que não existam pessoas competentes nestas categorias. Problema é outro vicio de Hollywood, o acesso. Amigos e amigas dos amigos, independente da capacidade, são escolhidos(as).

    1. Há cerca de 10.000 votantes na premiação do Oscar.
      Desse total, em torno de 63 são brasileiros, o que equivale a algo em torno de 0,6%.
      Há votantes na Ásia e na África.
      Você acha mesmo que amiguinhos podem fazer lobby exitoso com tantos votantes, ao redor do mundo??
      Chamam o Super Homem para obter êxito??

  3. Resumo da opera. Qual o ultimo filme que venceu o Oscar de forma unanime? Onde não ocorreu nenhum absurdo?

    1. Embora “unanimidade” absoluta seja rara no Oscar devido à diversidade de países e culturas votantes, alguns filmes vencedores do prêmio de Melhor Filme foram aclamados de forma quase consensual por críticos e público.
      São eles:
      – Casablanca (1942);
      – O Poderoso Chefão (1972);
      – O Poderoso Chefão II (1974);
      – O Silêncio dos Inocentes (1991);
      – A Lista de Schindler (1993);
      – O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003);
      – Parasita (2019 – sul-coreano).
      Em nenhum deles vejo “absurdo”.
      Só acho falta de premiações para países estrangeiros, o que está mudando (vide Oscar/2026).

  4. ‘[…] um forte concorrente – em várias categorias – ao filme “Uma Batalha Após a Outra”, no Oscar/2026.’ Não e o motivo é simples. Entre a qualidade e a ideologia Hollywood fica com a ideologia. Por isto está em decadencia galopante.

    1. “Entre a qualidade e a ideologia Hollywood fica com a ideologia”: desculpe, mas quem só menciona ideologia, em praticamente todos os comentários, é você, Brando.

      “Por isto está em decadência galopante” (Hollywood).
      De fato, Hollywood é uma decadência na velocidade da Fórmula 1.
      Aliás, “F1: O filme”, é ótimo. Embora você, claro, irá odiar.

  5. Elle Fanning concorre ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante (séria ‘The Great’, principalmente a primeira temporada, é muito boa). Inga Ibsdotter Lilleaas concorre ao Oscar na mesma categoria. Aparentemente, complexo de inferioridade tupiniquim, ter morado no Brasil um tempo é mais importante. Alas, se fosse um homem assinando a coluna não faltaria quem o acusasse de misógino.

    1. “Valor Sentimental” concorre a 08 prêmios no Oscar/2026.
      Dê um google que você verá em quais categorias.

      Resenhas – como qualquer outro tipo de texto – presta-se a informar.
      Por essa razão mencionei a estadia de Lilleaas em Goiás.
      De fato, “aparentemente” está bem colocado em sua frase.
      Só aparentemente pode parecer complexo de inferioridade de sociedade colonizada.

  6. ‘Em uma narrativa lenta, mas que exprime toda a dor, ressentimento e abandono que podem gerar o extremo da existência: a desistência.’ Filme cabeça e chato.

    1. Brando, sabes o que mais me diverte em você??
      Conclui com absoluta certeza algo que sabidamente não assistiu.
      Ou trata-se de telepatia??
      Quem sabe osmose??

  7. Stellan Skarsgård é um tremendo ator. Chernobyl e Andor. Chance de ganhar é grande. Na base do ‘já demos o premio para muitos outros piores antes e para evitar dar o premio pelo conjunto da obra antes de morrer melhor dar agora’.

    1. Caso leve a estatueta, será muito, mas muito merecida.
      Independente de sua idade.
      Aliás, o etarismo está fora de moda.

  8. ‘E um feito inédito: concorre ao melhor ator coadjuvante em um filme estrangeiro, […]’. Feito não inédito. Concorre a melhor ator coadjuvante (esta é a categoria) atuando em um filme estrangeiro.

    1. Perfeita correção.
      Às vezes você se desarma e consegue ser simpático.
      Obrigada, Brando.

    1. Você, que é um intelectual, porém nenhum pouco pedante, poderia publicar suas próprias resenhas.
      Adoraria lê-las.
      Sem codinome, claro.
      Grande abraço, Brando.

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