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Tão grave e covarde quanto o feminicídio é a negação da violência contra a mulher – por Valdeci Oliveira

Que condenação de executores e mandantes do caso Marielle se torne símbolo

A condenação na última quarta-feira (25) dos mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, ocorrido há 8 anos, na capital fluminense, é um alívio aos familiares, é a Justiça sendo feita, é a sociedade reagindo e se organizando por respostas e responsabilizações. Nos mostra também o quanto o crime e criminosos estão inseridos na estrutura do estado brasileiro – entre os acusados e condenados temos ex-policiais, um delegado, um conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro e um deputado federal. O envolvimento de milicianos foi comprovado.

Entre os parlamentares que votaram contra a manutenção da prisão preventiva do colega em abril de 2024, nove eram gaúchos, todos homens. E todos, “coincidentemente”, ativistas da extrema-direita, que na frente das câmeras de TV lamentam, se solidarizam com as famílias das vítimas e pedem leis mais duras para criminosos, mas que na prática os ajudam de alguma forma. Para efeito comparativo, a bancada de homens e mulheres do PL votou quase 100% contra a prisão, que teve o apoio de outros 129 ilustres mandatários. Entre a cúpula ruralista, perto de 70% preferiram ver solto o agora condenado. E isso diz muito sobre a nossa política atual.

Tão grave quanto o feminicídio – seja ele político ou não – levado a cabo contra Marielle ou a qualquer outra mulher, é a sua negação, pois ela se configura na expressão do atalho, no caminho mais curto e sem obstáculos para sua banalização. E quando esta vem representada em nomes e rostos de quem exerce o poder a partir do voto dos eleitores, no mínimo, deveria nos servir de sinal, de alerta de que até mesmo as maiores barbaridades estão sujeitas à tentativa de relativização, naturalização.

Na Assembleia Legislativa do RS, tivemos um caso recente que ilustra muito bem isso: um deputado das hostes da direita extremada – o que faz com que a postura pareça se tratar de uma regra, com método e elaboração – usou a TV do Parlamento gaúcho para proferir, em alto e bom som, ao vivo e a cores, um discurso negando o pesadelo infringido à farmacêutica Maria da Penha.

Maria da Penha, que, justamente pelo que passou, dá nome à lei criada pelo governo do presidente Lula há duas décadas e que se tornou uma espécie de marco legal da rede de proteção às mulheres. Essa legislação, incontestavelmente, é o principal mecanismo existente no país para conter e reprimir ações que se configuram em violência doméstica e familiar contra as mulheres, definindo as diferentes – e muitas vezes escamoteadas – maneiras de como se dão as agressões física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.

Diante de uma opinião pública – incluindo parte considerável daquela de viés conservador – que ficou horrorizada diante de tamanho absurdo, principalmente num momento em que os casos de feminicídios não param de crescer no estado e no Brasil, culpou-se a cultura das fake news. Foi essa a desculpa escolhida pelo parlamentar, cujas vestes fazem parte do guarda-roupas dos cidadãos de bem, que supostamente defendem os valores cristãos, da família e de uma pátria que eles mesmos não se importam de subjugar a poderes externos para terem seus próprios interesses salvaguardados.

Evocam um passado que nunca existiu e vislumbram um futuro que, na prática, coloque as mulheres em seus devidos lugares, entre eles o da submissão. Ao diminuir e negar o sofrimento – provado e comprovado – vivido por Maria da Penha, seja por ignorância ou deliberadamente, o deputado apaga a memória e cala a boca de milhares vítimas, esconde a verdadeira face da violência ao mesmo tempo em que a empodera, cospe nas faces já agredidas, pisoteia a história das vidas tiradas, diminui a dor sofrida e menospreza o horror imposto às mulheres, independentemente da idade. E choca ao mesmo tempo em que enraivece.

A fala do nobre deputado vem na esteira de uma conjuntura preocupante em que desembargadores – todos homens – do Tribunal de Justiça de Minas Gerais inocentam – e depois se obrigam a voltar atrás – um homem de 35 anos que estuprou uma menina de 12, caso que integra um conjunto de outros 40 de igual teor e destino julgados pelo mesmo órgão colegiado.

Que a condenação dos executores e mandantes do caso Marielle se torne símbolo, alcance outros algozes, envergonhe (se é que isso é possível) quem busca minimizar ou colocar em dúvida algo inaceitável, repugnante e covarde.

E que os eleitores e eleitoras, quando do nobre e cívico ato de escolher seus representantes, pensem um pouquinho mais antes de apertar os botões na urna eletrônica.

(*) Valdeci Oliveira, que escreve sempre as sextas-feiras, é deputado estadual pelo PT e foi vereador, deputado federal e prefeito de Santa Maria.

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9 Comentários

  1. Resumo da opera. Vermelhos tentando pautar a sociedade com mais intensidade em epoca eleitoral. Violencia contra mulher é um problema. É o unico? É o mais prioritario? Já não foi feito bastante a respeito? Aideti tem a resposta: ‘[…] quando do nobre e cívico ato de escolher seus representantes, pensem um pouquinho mais antes de apertar os botões na urna eletrônica.’

  2. Alas, Rato Rouco utiliza as relações internacionais como cortina de fumaça e promessa de um futuro ‘melhor’. Também porque não tem muito o que apresentar.

  3. Por que Aideti (e Vermelhos em geral) ficam batendo no assunto? Cortina de fumaça. Usam para desqualificar os opositores. Pior, não tem nada para ‘apresentar’. Aideti só tem discursos e reuniões tosa de porco para aparecer na foto. Na conta dele está o fechamento da Rua 7. Poderia ser pior, há politicos com contas reprovadas no TCE, condenações no TJ por improbidade administrativa. Brasil é assim.

  4. Interessante é que a midia tradicional bombardeia ‘conscientização’ sobre o assunto. Dai o numero aumenta e alguns dizem que ‘esta tendo efeito contrario’. Ou seja, não importa o que aconteça a midia tem um efeito sobre o problema. Explicação? Porque ‘sim’. Base nenhuma. Tudo muito ‘cientifico’.

  5. ‘[…] principalmente num momento em que os casos de feminicídios não param de crescer no estado e no Brasil, […]’. A ideologia tomou conta do problema. Obviamente, vide o proprio texto, está sendo utilizado com fins eleitoreiros. Se o numero cresceu é porque já foi menor. Quer dizer que o ‘machismo’ diminui e aumenta conforme o tempo também? Pior é que sempre que um fato novo aparece falam as mesmas coisas, os mesmos chavões, os mesmos lugares comuns e as mesmas ‘soluções’. Todos se dão tapinhas nas costas, ‘somos todos legais’, e daqui uns dias ‘vamos de novo’.

  6. Discurso do deputado, vamos combinar que a grande maioria não dá bola para discurso de parlamentares, é só para ‘causar’. Eleição está perto, chamar atenção é necessario, animar a propria torcida. Os fatores que levaram a eleição de alguns já não estão presentes. Vide Lasier Martins.

  7. ‘Tão grave quanto o feminicídio – seja ele político ou não – levado a cabo contra Marielle ou a qualquer outra mulher, é a sua negação, […]’. Comentario sobre casos isolados não é negar nada. Alas, ninguém é obrigado a adorar as idolas dos Vermelhos, existe liberdade de credo no Brasil, cada um escolhe a propria religiao.

  8. Caso Marielle? Aconteceu no RJ. Apesar do bombardeio de imprensa cumpanhera e do barulho dos Vermelhos a maioria solenemente ignora o assunto. O ‘[…] é a sociedade reagindo e se organizando por respostas e responsabilizações […]’ não passa de truquezinho de ‘retorica’ para fingir que a maioria se importa. Funcionava 30 anos atras. Hoje a conta do supermercado é mais importante. E o preço dos remédios está para subir. E Taxad aumentou tributos de 1200 itens porque falta dinheiro para gastança.

  9. Prisão preventiva tem uma função. Sim, porque não existe cumprimento antecipado de pena. Perigo a sociedade, perigo ao resultado do processo (coação de testemunhas, etc.). Votos dos deputados são prerrogativas deles. Simples assim. Bom notar que os ‘defensores da democracia’ são avessos ao dissenso.

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