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Um breve desabafo feminista – por Elen Biguelini

Pretendíamos nesta semana tratar de mais uma salonnière francesa. Mas a atual situação mundial não permite.

Nos últimos dias, e-mails e relatos relativos ao caso Epstein tem surgido na internet.

Como mulher, esta articulista sofre para ler estas noticias. Algumas delas são intragáveis e chegam a ser de tal forma esdruxulas que beiram ser inacreditáveis. Para além do abuso sexual de crianças, assassinatos, bebês jogados no mar e muito mais.

As notícias chocam mas não surpreendem. Durante séculos as mulheres têm lutado para serem ouvidas. Tanto quanto vítimas quanto como seres humanos pensantes.

Casos horripilantes como este ou o da senhora francesa que era medicada por seu marido que convidada homens para abusarem dela em sua casa, são tão fortes quanto frequentes. A violência sistêmica contra as mulheres continua a ser tópico, porque por mais que lutemos contra ela de todas as formas possíveis, ela continua sendo dia a dia da grande maioria das mulheres.

E não apenas contra mulheres, mas contra crianças. Crianças estas que depois se tornam mulheres traumatizadas. O termo “grooming”, que não parece ter tradução direta para o português, não ao menos como concebido aqui, descreve justamente a preparação consciente destas mentes inocentes para um posterior e continuado abuso. E o termo não se refere apenas para meninas, pode também ser usado para meninos.

Infelizmente ainda vivemos em uma sociedade na qual falar de sexualidade é tabú, sendo que é justamente a educação sexual que permite as crianças a percepção do abuso (seja sexual ou físico) que sofrem. Se não sabem descrever, não podem chegar a algum adulto ou pedir ajuda.

E a caracterização que a mídia tem feito das vítimas do caso Epstein é um segundo crime contra elas. Ao chamar crianças de 13 ou 14 anos de “jovens mulheres” acabam diminuindo o valor do crime. Como se crianças desta idade viajassem com adultos desconhecidos para ilhas particulares sabendo o destino que as esperava. Eram crianças. Não há consentimento. Há apenas abuso.

Cada nova notícia mais chocante que a outra acaba nos dessensibilizando. Diante de um nível tão alto de maldade, casos como o da senhora que desapareceu no elevador do condomínio, ou os tradicionais casos de violência doméstica parecem rasos. Mas todos tem igual poder na hora de destruir a vida de uma mulher ou de uma criança.

Cansamos de reiterar a necessidade de cura para a sociedade como um todo. Uma forma não apenas de ver estes repetidos casos e tentar punir os agressores, como também de impedir que eles voltem a acontecer. Deve haver alguma forma de acabar com esta violência sistêmica e generalizada.

Gostaríamos de algum dia poder dizer que não há mais violência de qualquer forma. Que não há desigualdade. Mas a sociedade nos mostra dia após dia que não, nas palavras de Elis Regina “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.

(*) Elen Biguelini é doutora em História (Universidade de Coimbra, 2017) e Mestre em Estudos Feministas (Universidade de Coimbra, 2012), tendo como foco a pesquisa na história das mulheres e da autoria feminina durante o século XIX. Ela escreve semanalmente aos domingos, no Site.

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