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A sabedoria divina está ultrapassada? – por Amarildo Luiz Trevisan

A “do mundo é eficiente para ganhar o dia, a divina é para mudar o rumo”

O nosso tempo elevou o ver a órgão soberano. As tecnologias amplificaram o gozo estético e a presença constante das imagens. Chegamos ao ponto de assistir à guerra como quem acompanha uma transmissão ao vivo. No entanto, o ruído das bombas e o brilho ofuscante das telas estão nos cegando. O resultado, paradoxalmente, não é mais clareza, é mais cegueira. Os olhos, saturados, já não atravessam a aparência. A visão, quando vira vício, perde profundidade. E a alma, quando vive de superfície, desaprende a escutar, a ouvir o coração do outro, de ouvir o que poderia interromper a violência antes que ela vire hábito.

É curioso como a Bíblia continua fértil em passagens que nos fazem, como São Paulo, cair do cavalo sem aviso. Vivemos dias superconectados, com olhos por toda parte, câmeras no teto, no celular que está no bolso, na esquina, e com essa fome de exposição que transforma qualquer clic em conteúdo. Ainda assim, nos Evangelhos, Jesus insiste numa ordem que parece fora de época: silêncio. Não conte a ninguém. Não espalhe. Não alimente a multidão. E a pergunta se impõe, com o espanto de quem já foi capturado pela lógica do like: será que a sabedoria divina envelheceu?

Numa das cenas mais desconcertantes, Jesus pede a Pedro, Tiago e João que guardem a visão. No Monte Tabor, após a Transfiguração, a ordem é taxativa: “A ninguém conteis a visão, até que o Filho do homem tenha ressuscitado” (Mateus 17:9). E não é um caso isolado. Em Marcos, esse pedido de sigilo volta quase como um método. Após a cura do leproso, Jesus o adverte com firmeza, pedindo que não divulgue (Mc 1,43 a 45). Na casa de Jairo, depois de devolver a menina à vida, ordena que ninguém saiba (Mc 5,43). Ao curar um surdo, novamente recomenda que não contem a ninguém (Mc 7,36). A tradição chamou isso de “segredo messiânico”, como se o próprio Cristo manejasse o tempo, a luz e o excesso de aplauso, para não deixar que a sua missão fosse reduzida a espetáculo.

Só que essa prudência colide com a sabedoria do mundo, que gosta de se apresentar como inevitável. O mundo sentencia: “Quem não é visto, não é lembrado”. Diz também, com ares de verdade antiga: “O que os olhos não veem, o coração não sente”. E ainda: “O boi só engorda sob o olhar do dono”. Ou, na versão mais romântica e mais fria ao mesmo tempo: “Longe dos olhos, longe do coração”. São máximas que hoje funcionam como mantras ou evangelhos paralelos, sobretudo quando o assunto é marketing pessoal, prestígio, sobrevivência social. Ser é aparecer. Existir é ser notado. Viver é ser observado.

A diferença, porém, talvez não esteja em negar o mundo, mas em trocar o lugar da interpretação. A sabedoria divina parece pedir um deslocamento: do ver para o ouvir, da vitrine para a escuta, do anúncio para o recolhimento. Em vez de transformar tudo em narrativa pública, ela chama a atenção para aquilo que não se sustenta diante da lente, mas se sustenta no coração. Por isso, o pedido de Jesus é tão desconcertante. Ele não proíbe a alegria, nem despreza o testemunho. Ele protege o mistério contra a pressa. Ele protege a missão contra a inflação do espetáculo.

É nesse ponto que São Paulo soa tão atual que chega a provocar o nosso desequilíbrio. Na Primeira Carta aos Coríntios, ele contrapõe a sabedoria deste mundo à sabedoria de Deus, uma sabedoria escondida, não porque seja fraca, mas porque não se vende. Ele escreve que fala de uma “sabedoria misteriosa”, que os poderosos não conheceram, e que, se tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória (1Cor 2,6 a 10). Enquanto os pobres não veem, porque são bombardeados, não apenas por bombas reais, mas por um cotidiano de choques, urgências e humilhações, até que a vista se torne cansaço e a atenção, uma forma de sobrevivência, os poderosos também não veem, porém por outro motivo. Eles não entendem a sabedoria divina porque se ocupam demais em administrar a visão alheia, isto é, em decidir o que o povo pode ver, quando pode ver, e de que modo deve ver. É uma cegueira que nasce do controle. O olhar, aí, deixa de ser busca da verdade e vira instrumento de governo. Basta lembrar como, em regimes autoritários, o controle da informação vira regra. Não se trata apenas de esconder fatos, trata-se de fabricar evidências, de moldar versões, de distribuir luzes e sombras conforme os interesses do poder.

Só que a sabedoria divina, justamente por não depender da vitrine, escapa a esse esquema. Ela não se entrega ao jogo do “mostra e prova”. Ela não se curva ao tribunal da imagem. E é por isso que os poderosos, mesmo cercados de informações, permanecem incapazes de conhecê-la. Mas então, como essa outra sabedoria se revela? Pelo Espírito. E o Espírito, por definição, não se exibe. Não cabe na câmera. Não tem corpo para ser reduzido a prova. Ele se insinua, sopra, atravessa, convence sem empurrar.

Lembro então de Édipo, que só compreende quando já não pode mais confiar na vista. Há tragédias que nos lembram, com crueldade simbólica, que ver não é sinônimo de entender.

Mas qual é o mecanismo que torna então a sabedoria divina mais eficiente do que a sabedoria do mundo?

A sabedoria do mundo opera pela visibilidade, pela disputa de atenção, pela pressão do imediato, e por isso ela precisa de palco, prova e controle. A sabedoria divina opera pela escuta, pela interioridade, pelo tempo do amadurecimento, e por isso ela não depende da vitrine, nem do aplauso, nem do comando.

Daí vem a eficiência dela, em três movimentos que se encadeiam.

Primeiro, ela não entra no jogo da captura. Quando a lógica é “ser visto para existir”, quem controla a visão controla pessoas. A sabedoria divina escapa porque se apoia no invisível, ela acontece mesmo sem registro, mesmo sem plateia. Isso a torna indomável.

Segundo, ela transforma a fonte da ação. A sabedoria do mundo costuma mudar comportamentos por medo, interesse, recompensa, reputação. Funciona, mas é frágil, basta trocar o incentivo e tudo volta ao que era. A sabedoria divina, quando passa pelo Espírito, mexe com o centro, altera o desejo, reorienta a vontade, cria outra medida do que vale a pena. Não é uma maquiagem, é uma conversão que toca fundo no olhar e no ouvir.

Terceiro, ela cria comunhão em vez de competição. A sabedoria do mundo frequentemente precisa de um inimigo, de um vencido, de um “outro” a ser derrotado, e isso produz conflito em cadeia. A sabedoria divina se realiza no reconhecimento do outro, no cuidado, no perdão, na justiça que não humilha. Por isso ela é mais eficaz para resolver conflitos, porque não administra apenas a superfície do problema, ela toca a raiz, a relação.

Em linguagem mais simples, a sabedoria do mundo é eficiente para ganhar o dia, a divina é eficiente para mudar o rumo. A do mundo governa imagens, a divina atravessa consciências. A do mundo precisa ser vista, a divina precisa ser ouvida. E, quando finalmente é ouvida, ela não apenas informa, ela forma.

Por isso, talvez a sabedoria divina não está ultrapassada. Ela está, talvez, desafiando a nossa época com a mesma delicadeza firme de sempre. Enquanto o mundo grita para aparecer, ela sussurra para que a gente escute. Enquanto o mundo pede provas, ela pede presença. Enquanto o mundo transforma tudo em imagem, ela insiste no invisível que sustenta o humano. E, num tempo em que o espetáculo quer ocupar até o lugar do sagrado, talvez seja justamente o silêncio, esse silêncio que não é ausência, mas cuidado, que volte a ser a forma mais radical de lucidez. A solução dos conflitos não virá de um novo ângulo de câmera, mas de uma antiga e esquecida capacidade: fechar os olhos para o espetáculo e abrir os ouvidos para escutar, no silêncio, o coração do outro.

(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.

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4 Comentários

  1. ‘A sabedoria divina se realiza no reconhecimento do outro, no cuidado, no perdão, na justiça que não humilha.’ E por isto que tem inferno.

  2. “O meu reino não é deste mundo” (João 18:36). Comunas embaralham as coisas para usar politicamente.

  3. Caso do J. Cristo não tem a ver com ‘prudencia’. É um cronograma. As coisas tem o tempo certo para acontecer.

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