O último de Rincão das Guabirobas – por Amarildo Luiz Trevisan
Para o Nicanor, 64 foi só um “mal-entendido patriótico fardado”. E não para aí

Em Rincão das Guabirobas havia, até pouco tempo, um só homem que ainda acreditava em tudo. Chamava-se Nicanor Bica, viúvo, aposentado e devoto das mensagens recebidas sem vírgula, sem fonte e sem vergonha. Acreditava que a eleição tinha sido roubada, que no governo do Mito a corrupção tirara férias, que a pandemia era teatro, que a vacina era truque, que remédio inútil curava até saudade e que 1964 não fora golpe, mas um mal-entendido patriótico fardado.
Nicanor acreditava com a serenidade dos informados pelas redes sociais igual a firmeza de um poste. Quando lhe mostravam números, ele dizia que os números tinham lado. Quando lhe mostravam mortos por conta da pandemia, dizia que a imprensa aumentava. Quando lhe lembravam a pobreza, o preço da carne, a fila do osso e o sumiço do dinheiro, erguia o queixo e respondia que, pelo menos, havia esperança, como se esperança enchesse panela.
A cidade tolerava Nicanor como se tolera um relógio parado na parede, não marca a hora, mas faz companhia. As pessoas já o davam por peça única, último exemplar de uma fé política movida a ressentimento, saudade de ordem e vídeos recortados. Achavam até que, quando ele se fosse, esse Brasil delirante iria junto, enfim recolhido ao museu dos vexames nacionais.
Na barbearia do Nicanor, que em cidade pequena é uma mistura de Senado, confessionário e meteorologia, já tentaram demovê-lo. Mostraram reportagens, estudos, estatísticas, documentos, vídeos, áudios e até a tia Zulmira, que passou vinte e três dias internada e hoje sobe escada como quem negocia com Deus. Nicanor ouviu tudo com paciência bovina e respondeu:
“Isso aí é narrativa.”
A palavra “narrativa”, em sua boca, virou uma espécie de mata-burro argumentativo. Cai ali dentro qualquer fato mais pesado.
Se alguém menciona que Bolsonaro minimizou a pandemia, Nicanor responde “narrativa”.
Se alguém lembra das falas contra a vacina, ele suspira “narrativa”.
Se alguém fala do apoio ao tal tratamento precoce, ele ergue o dedo, como quem cita Aristóteles de bombacha, e sentencia “narrativa”.
Se alguém recorda que 1964 foi golpe, com ditadura, censura e tortura, ele coça a testa e rebate:
“Depende do ponto de vista histórico e também do vídeo que tu assistiu.”
Nicanor não é um homem mau. Este é o problema. Se fosse mau, seria simples. Mas não. É um homem cortês, cumprimenta as crianças, dá milho às galinhas, empresta escada, leva cuca em velório e, quando passa na frente do posto de saúde, faz o sinal da cruz, talvez por hábito, talvez por precaução ideológica. Sua tragédia é outra. Nicanor virou morador permanente de uma realidade paralela com entrada gratuita e saída quase impossível.
A prefeitura já tinha pensado em protegê-lo como patrimônio imaterial. Afinal, já não existiam muitos assim. O mundo ao redor desabou em fatos, documentos, processos, investigações, gravações, números de inflação, filas, desemprego, carestia, desmontes, óbitos, mas ele continuava de pé, intacto, como um guarda-chuva aberto dentro de casa.
O padre local, homem prudente, preferiu tratar o caso como mistério da fé. Disse numa homilia que acreditar sem ver já foi virtude, mas acreditar contra tudo, contra todos e contra o bom senso talvez já fosse teimosia com incenso. Ninguém entendeu direito, mas Nicanor saiu da missa emocionado, certo de que o sermão confirmava tudo o que ele pensava.
Foi então que começou a subir nas pesquisas o filho do Mito.
E o que em Nicanor parecia uma cisma ideológica começou a parecer contagioso novamente. A mentira, quando sobra num homem só, é quase folclore. Mas quando encontra herdeiros, deixa de ser ridícula e volta a ser ameaça.
De repente, as calçadas voltaram a cochichar. Os grupos de família ressuscitaram. As mentiras, que andavam magras, tornaram a engordar. Nicanor já não era o último. Brotavam outros, aqui e ali, no açougue, na fila da lotérica, na porta da escola, todos com aquele mesmo brilho no olho de quem admira de verdade a mentira que prefere.
Rincão das Guabirobas sentiu um frio antigo. Não era só política. Era aquela febre de novo, a febre que um dia juntou patriotismo de WhatsApp, fúria de ocasião e saudade de quartel, até dar naquelas cenas de Brasília, quando a fantasia vestiu verde e amarelo e resolveu quebrar a República para provar seu amor por ela.
Nicanor, feliz, voltou a andar pela praça como quem saísse vencedor de uma longa guerra contra os fatos. Já não falava sozinho, como a Velhinha de Taubaté, de Veríssimo. Tinha coro.
E Rincão das Guabirobas, que por algum tempo pensara ter deixado seus delírios para trás, percebeu, em silêncio, que certas febres apenas baixam. Não passam.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Resumo da opera II. Ovelha não é para mato.
Resumo da opera. Perda de tempo.
Por isto os Vermelhos são um problema que se resolve sozinho. Não adianta ‘doutorado’ e ‘pós-doutorado’. Como fazer ‘pesquisa’ sem o minimo de criatividade? Chupinhou a Velhinha de Taubaté do Veríssimo. Para chegar a conclusão bastava ler o primeiro paragrafo. Diferença não para por ai, ninguém nega o senso de humor e a inteligencia do finado.