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“Um Direito Meu”: fale baixo e seja sábia – por Roselâine Casanova Corrêa 

Luta (real) de uma mulher indiana contra divórcio ilegítimo, contada em filme

“Um Direito Meu” (हक़ / Haq), filme indiano lançado mundialmente em novembro/2025, entrou na Netflix em janeiro/2026, tematiza o direito das mulheres – sobretudo durante o divórcio – e baseia-se em uma história real.  Nos papeis principais, Yami Gautam (Shazia Bano, a esposa), Emraan Hashmi (Abbas Khan, o marido) e Vartika Singh (Saira, a segunda esposa), sob a direção de Suparn Verma e roteiro de Reshu Nath. O filme é inspirado em um caso julgado pela Suprema Corte da Índia, que marcou a luta pelos direitos das mulheres e gerou um debate social profundo no país.

Na Índia pratica-se três religiões: o hinduísmo, o islã e o cristianismo e cada uma possui suas próprias leis de divórcio, mas o Estado laico uniformiza esses direitos, sem a interferência das religiões oficiais. Para os muçulmanos era utilizado o “Talaq” (o marido devolve o dote e profere a palavra três vezes), a mulher não possuía direito algum, nem pensão aos filhos. Em geral sem profissão definida, retornavam à casa paterna, com suas crianças.

Bano e Abbas se conheceram em 1967, em uma biblioteca, no estado mais populoso da Índia – Uttar Pradesh – onde a maioria é hindu (79,73%), seguida por uma população muçulmana (19,26%). Ele já era um advogado bem estabelecido, ela filha de um “sábio” – o que, na verdade, é um professor – e grande referência para a filha. O casal se casa e o que ela ganha do noivo? Uma linda máquina de costura! A vida cotidiana vai indo bem, nascem os filhos, porém Abbas dá sinais de que algo não lhe agrada.

Viaja para o Paquistão e retorna com a segunda esposa, a bela Saira. E aí tudo desestabiliza. Pelo menos para Bano. Quando se estabelece o conflito familiar, Abbas resolve rápido: invoca o Talaq três vezes e devolve o dote (prática do Islã). Para ele estava tudo certo. Para Bano, uma mulher instruída, mas sem dinheiro, tudo desanda.

Bano passou 10 anos (1975-1985) em vários tribunais e até a Suprema Corte da Índia, lutando contra um divórcio ilegítimo, buscando reivindicar seus direitos legais e humanos, superando preconceitos de gênero e na busca por igualdade. A Suprema Corte da Índia declarou a prática do Talaq inconstitucional/ilegal somente em 2019. Contudo, as leis indianas permanecem ligadas as tradições, embora ocorram tentativas de modernizar os processos de divórcio, ainda estigmatizado. Para a mulher, diga-se! E isso não ocorre somente na Índia, mas em vários lugares pelo mundo.

A trama é, de fato, comovente, envolta em uma arquitetura belíssima e que remonta ao estilo árabe (a Índia teve períodos de domínio árabe, embora restritos a certas regiões e épocas específicas). O chão, em tons de terracota, contrasta com as cores vibrantes dos saris ou kameez bordados e em tecidos finos como a seda, o algodão e o cetim. Esse conjunto confere uma fotografia fluída e alegre, para retratar uma realidade dura. Tudo embalado em uma trilha sonora que complementa os diálogos, sob a batuta de Vishal Mishra.

Em uma entrevista à TV, respondendo como a mulher deve se comportar, Shazia Bano não titubeou: “fale baixo; sejam sábias; sejam rigorosas; se possível, não falem”. E concluiu: “eu só queria justiça, um direito meu”.

(*) Roselâine Casanova Corrêa é Professora de História. Graduada em História (UFN), com especialização em História do Brasil (UFSM); Museologia (UFN) e mestrado em História (PUC/RS). Foi membro do COMPHIC (2012-2022). Também é, com o jornalista Bebeto Badke, idealizadora do “Projeto Amnésia: descubra Santa Maria”. Rose escreve às quintas-feiras, sobre cinema, nesse site.

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