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Será que a palavra é sorvete? – por Daiani Ferrari

Descobri onde mais se come sorvete no Estado. Santa Cruz do Sul. Fui àquela cidade na última semana e o que mais me chamou a atenção foi a quantidade de pessoas comendo sorvete. Na chegada, por volta do meio-dia, vi muitos sorvetes nas mãos santa-cruzenses. No almoço, idem. Depois da refeição, muito mais. Durante a tarde, passeando por lá, muito sorvete, sorvete por toda parte.

Naquele mesmo dia, sentada na praça central, lendo o livro Comer, Rezar, Amar, vi muita gente comendo sorvete também, e isso estava me deixando com água na boca, a ponto de tomar o sorvete da mão do primeiro que passasse. Como não conhecia a cidade, saí caminhando e encontrei a Catedral de São João Batista, o maior templo em estilo neo-gótico tardio da América Latina. A construção iniciou em 1º de fevereiro de 1928, sob a supervisão do arquiteto alemão Simão Gramlich, que veio fugido para cá da primeira Guerra Mundial, em 1922. Consta que chegou primeiro em Recife e depois veio “pras bandas do sul”.  

Qual minha surpresa quando entro na Catedral, além da beleza de suas paredes, da pintura “Grupo da Cruz” atrás do altar, os vitrais, as escadarias de acesso às torres, do tapete vermelho e bancos ornamentados quem sabe à espera de um casamento? Pessoas comendo sorvete dentro da igreja. Na entrada uma menininha pedia moedinhas (mal sabe ela que tenho um cofrinho e que moedas são tão sagradas quanto canetas) e algumas pessoas conheciam o local, olhavam cada centímetro do templo, e outras comiam sorvete. Confesso, não fiquei muito tempo ali porque estar dentro de uma igreja me causa certo desconforto, talvez por precisar acreditar em algo espiritual e não saber em que. Refletindo sobre o que me deixou espantada, os sorvetes, resolvi não sair de Santa Cruz sem saborear a iguaria.

No livro, Giulio, amigo de Liz, autora que na ocasião morava em Roma, dizia que para realmente fazer parte de um lugar era preciso saber qual a palavra deste lugar, que no caso de Roma era sexo. Que só assim as pessoas são capazes de sentir-se parte integrante do local. Liz pensava não fazer parte de Roma, pois julgava que a palavra de ordem na capital italiana era algo identificando glamour, riqueza, exuberância ou algo afim, mas nunca sexo, até por que os atos libidinosos passavam longe do momento vivido por ela.

Pensei nisso no momento da primeira prova do sorvete. Qual seria a palavra de Santa Cruz? Oktoberfest, alemães, Enart, hospitalidade, sexo, chucrute, fumo? O que seria? Quem sabe sorvete? Eu optei por pensar que fosse sorvete. No caso de ser esta a palavra, já posso me sentir parte integrante dela e ter o direito de voltar.

“Giulio falou:

– Talvez você e Roma só tenham palavras diferentes.

– Como assim?

Ele disse:

– Você não sabe que o segredo para entender uma cidade e seus habitantes é aprender qual a palavra da rua?

Ele prosseguiu explicando, em uma mistura de inglês, italiano e gestos, que toda cidade tem uma única palavra que a define, que identifica a maioria das pessoas que mora ali. Se você pudesse ler o pensamento das pessoas que passam por você nas ruas de qualquer cidade, descobriria que a maioria delas está tendo o mesmo pensamento. Qualquer que seja esse pensamento da maioria – essa é a palavra da cidade. E, se a sua palavra pessoal não combinar com a palavra da cidade, então ali não é realmente o seu lugar.” (Comer, Rezar, Amar – Elizabeth Gilbert)

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