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O Fumacinha fechou… – por Máucio

Passando pela Rua Floriano Peixoto deu-me a sensação de que o restaurante Vera Cruz havia fechado. Liguei para um amigo e ele confirmou a notícia. A casa que abriu em meados da década de 1950 realmente encerrou suas atividades e vai deixar na memória muitas e muitas histórias da vida desta cidade. Incrível como um lugar tão tradicional como esse feche assim sem nenhuma solenidade…

Conheci o Fumacinha na época da faculdade – década de 1980. Era ali que ia com a turma de amigos ou com a namorada para comer um galeto e tomar uma cervejinha – para mim, aquele lugar fez parte de uma espécie de rito de passagem para o mundo adulto.

O apelido do restaurante, que ficava na Venâncio Aires, era de fácil entendimento devido à nuvem que, oriunda da cozinha, espalhava-se por todo o espaço. Era curioso ver os garçons surgirem do meio daquela névoa carregando a bandeja.  Pelo volumoso fumacê, de aroma nem sempre agradável, podia-se saber toda a evolução dos pedidos da clientela. Dizem as más línguas que o fenômeno da fumaça emanando por todo o ambiente se dava porque o Joaquim havia instalado o exaustor virado na cozinha. Pura maldade dessa gente.

A dupla de garçons constituía-se em outra atração a parte. Dirceu era o mais saliente, por seu método e modo de atender, mas tinha também o Lorde. Chamávamos assim por conta da sobriedade de seu atendimento. Não que tivesse alguma finessi, longe disso, mas porque perto do colega parecia um descendente da nobreza britânica.

Com Dirceu, no entanto, o serviço não tinha cerimônia alguma. Mal se entrava no Vera Cruz e lá vinha ele com sua franja lisa penteada para o lado e caída na testa. Ao chegar à mesa largava o cardápio e dava um tapa nas costas do cliente, seja lá ele quem fosse. E nem se importava com que companhia o sujeito estava. A intimidade era sempre a mesma. Isso quando já não vinha direto com uma cerveja e os copos na mão. Se a gente ficava em dúvida sobre o que pedir para comer, invariavelmente indicava o Filé Vera Cruz que era realmente um prato cheio para qualquer fome estudantil.

Para acabar com as discussões de fim de noite sobre o valor da conta, Dirceu desenvolveu uma prática muito curiosa, capaz de acabar com argumento de qualquer turma de bebum tentando dizer que não havia bebido 34 e sim somente 33 ampolas. O esperto garçom, para evitar a polêmica ia enfileirando as garrafas vazias no chão, junto à mesa, perto da parede. Era muito engraçado de ver aqueles vasilhames lado a lado. Parecia cena de uma festa caseira, mas, no entanto tinha uma eficiência contábil indiscutível.

Havia outro detalhe característico. Como se tratava de um restaurante e não de um bar noturno, lá pela uma da madrugada o Dirceu e o Lorde começavam a dar sinais que já era hora de todos irem embora. O local precisava fechar. Começavam então a servir cerveja quente e se punham a virar as cadeiras e a colocá-las em cima das mesas. Só que essas estratégias eram ignoradas às vezes e o vão embora tinha que ser mais contundente. A galera, no entanto, era até bem compreensiva. Havia uma espécie de entendimento existencial, digamos assim.

Fumacinha fechado, lá íamos nós em direção aos botecos da Avenida Rio Branco, abaixo da Vale Machado. Dali uns vinte ou trinta minutos adentravam ao recinto o Dirceu e o Lorde. Era o segundo sinal de que já havíamos bebido demais e estava de hora mesmo de irmos embora. Para eles dois, no entanto, a noite apenas estava começando.

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