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Dia da Consciência Negra e o massacre esquecido dos lanceiros negros farroupilhas – por Carlos Wagner

E ainda tem, um ano atrás, a morte do Beto, por seguranças do Carrefour

O resgate da história dos lanceiros negros é uma pauta que não pode ser esquecida pelas redações (Foto Reprodução)

O 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, tem sido sempre uma boa oportunidade para nós, jornalistas, contribuirmos para o fim do racismo estrutural no Brasil. Vou citar dois fatos que considero importantes a nossos leitores.

O primeiro é lançar luzes sobre episódios que foram varridos para debaixo do tapete. Na história do Rio Grande do Sul, não é preciso cavar muito fundo para encontrá-los. Um deles é o Massacre de Porongos, que foi empurrado para um canto da história sobre a Revolução Farroupilha, ou a Guerra dos Farrapos, travada de 1835 a 1845 entre gaúchos e o Império do Brasil.

Na época, fazia parte das tropas farroupilhas um contingente de escravos, os chamados Lanceiros Negros. Lutavam sob a promessa de serem libertados ao final do conflito. Em 1844, os farrapos e os imperiais alinhavavam o fim das hostilidades, a qual ocorreu no ano seguinte, em 1º de março, com a assinatura do Tratado de Poncho Verde.

Durante as negociações, os imperiais exigiram a quebra da promessa dos líderes farrapos de libertarem os soldados negros. Por conta disso, o general farrapo David Canabarro traiu os lanceiros negros, que foram emboscados e mortos por tropas imperiais em uma região próxima à fronteira com o Uruguai, chamada Porongos, em 14 de novembro de 1844.

O que escrevi é o resumo de uma das versões sobre a morte dos lanceiros negros. Entre os intelectuais gaúchos, há intenso debate sobre o que realmente ocorreu. Cito alguns dos livros que tratam do assunto. 

História regional da infâmia – O destino dos negros farrapos e outras iniquidades brasileiras (ou como se produzem os imaginários), de Juremir Machado da Silva. Negros na Revolução Farroupilha – Traição em Porongos e farsa em Ponche Verde, de Moacyr Flores. E Lanceiros Negros, de Geraldo Hasse e Guilherme Kolling. Além dessas obras, existem dezenas de artigos, teses de doutorado e outras publicações.

No Dia da Consciência Negra, vasculhei jornais nacionais e gaúchos em busca de matérias sobre os lanceiros negros. Também fiquei atento aos noticiários das TVs e emissoras de rádio. Se divulgaram algo, devo ter passado batido, porque nada encontrei.

Convido meus colegas, em especial os mais jovens que já estão na correria das Redações, a fazerem uma reflexão sobre a chance que temos de aproveitar a data para remexer a história de episódios como o Massacre de Porongos.

Como já citei, existe uma enormidade de livros e pesquisas sobre o assunto. Todo esse material nos fornece informações para uma ampla investigação, incluindo as fontes disponíveis e as discordâncias entre historiadores. Por quê? Por serem exatamente as discordâncias que despertam a atenção do leitor na tentativa de se buscar a verdade.

Agora vamos ao segundo fato, o qual anunciei no começo deste texto. Em 19 de novembro de 2020, véspera do Dia da Consciência Negra, João Alberto Silveira, 40 anos, o Beto, um homem negro, foi espancado e morto por dois seguranças brancos a serviço da filial do supermercado Carrefour, na zona norte de Porto Alegre.

Acompanhei o caso e, em 23 de novembro de 2020, fiz o post “Morte de homem negro tem a marca da precarização dos serviços de vigilância”. O inquérito policial indiciou, por homicídio qualificado, o PM Giovani Gaspar da Silva, 24 anos, soldado temporário da Brigada Militar (BM) que fazia um bico no supermercado, e Magno Braz Borges, 30 anos, segurança da empresa Vectro, com sede em São Paulo, contratada pelo Carrefour.

O que aconteceu com os negros no Brasil nesses 176 anos que separam o Massacre de Porongos da morte de Silveira no Carrefour? A maioria da população negra é pobre e vive em favelas. E são a maioria da população carcerária.

Uma das causas dessa situação é que, quando a princesa Isabel aboliu a escravidão, em 13 de maio de 1888, milhares de negros foram simplesmente jogados na rua sem direito a nenhum centavo pelos anos de trabalho forçado.

Foi por essa razão que, em 2003, os movimentos negros instituíram o 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra, em homenagem à morte de Zumbi dos Palmares, líder do maior quilombo do Brasil na Serra da Barriga, na então Capitania de Pernambuco.

A luta pelo Dia da Consciência Negra começou em 1971 com um grupo de jovens em Porto Alegre, que se reunia para questionar a legitimidade do 13 de maio como data da libertação dos escravos.

Foi graças a essa articulação política dos movimentos negros que a morte de Silveira  tornou-se notícia internacional. Meses antes, em maio, George Floyd, negro, foi morto por asfixia ao ter o pescoço pressionado pelo joelho do policial branco Dereck Chauvin, em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos.

Em 2013, nasceu nos Estados Unidos o Black Live Matters (Vidas Negras Importam), um movimento que se articulou ao redor do mundo com protestos e cobranças por justiça. Graças a essas mobilizações, nos dias atuais ficou mais difícil varrer para debaixo do tapete episódios como o Massacre de Porongos e tantos outros envolvendo vítimas negras por esses rincões do Brasil.

Mas ainda tem gente que tenta. Daí a necessidade de ficarmos atentos. Na lida da reportagem aprendi que o repórter precisa estar sempre atento às oportunidades que surgem para remexer as histórias mal contadas que circulam por aí.

O Dia da Consciência Negra é uma dessas datas que nos incentivam a remexer o passado em busca de injustiças escondidas no presente, testemunhando a brutal luta pela sobrevivência da população negra. 

PARA LER A ÍNTEGRA, NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI.

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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2 Comentários

  1. Da suposta ‘traição’ de David Canabarro não existem provas, apenas suposições. É só ler as ‘fontes’ citadas. Teixeira Nunes, o comandante, morreu em combate em 28 de novembro de 1944. Morreu comandando os remanescentes dos Lanceiros. Ao final da guerra, cerca de 120 Lanceiros foram incorporados ao Exercito Imperial por ordem de Caxias, respeitando o Tratado de Ponche Verde. Resumo da ópera: ‘narrativa’ construida com base em suposições de uma possivel comunicação da qual não se tem documentação. Uma possibilidade que foi ‘transformada’ em certeza. O que não tem nada a ver com o que aconteceu no Carrefour, salvo certas opiniões ideologicas. Sim, racismo existe e deve ser combatido.

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