Artigos

Já era, Collor! – por Orlando Fonseca

Com a prisão de Collor, semana passada, encerra-se a trajetória de um político que tem sua marca na história republicana brasileira. De Caçador de Marajá, a caçado pela Polícia Federal, passaram-se mais de 30 anos, e muita coisa aconteceu ao país e ao ex-presidente. A meu juízo, Collor já estava fazendo hora extra fora da cadeia, porque não foram poucos os escândalos de corrupção em seu governo. Mudou o país, mudaram os procedimentos jurídicos, o que nos deixa ao menos com a expectativa de que, neste quesito, as coisas estão andando para o caminho justo. No entanto, é de se perguntar se ainda perdura diante dos eleitores a figura política, o agente conhecido pela “era Collor”, e tudo que o tornou bem-sucedido na sua carreira política.

Na primeira eleição direta após a redemocratização, Collor venceu Lula da Silva, no segundo turno. Com um bordão que tentava seduzir o eleitor, atacando o serviço público, ele se tornou o “caçador de marajás”. Qual seja, ele prometia melhorar a ação do estado combatendo os altos salários. Também resgatava um antigo slogan peronista: dizia-se a favor dos descamisados (uma farsa, pois tratava mal os que trabalhavam em seu entorno). Sua campanha de marketing político foi marcada por toda sorte de boatos (fake news não era um nome usual) contra o seu concorrente. Eu mesmo vi uma entrevista ao jornalista e apresentador Ferreira Neto, na qual Collor dizia, simulando gravidade, caso o Lula fosse eleito, os petistas iriam invadir os apartamentos e dividir as propriedades (urbanas ou rurais). Uma vez eleito, ficou conhecido pelo luxo exagerado da Casa da Dinda, pelos carrões e corridas de Jet Ski no Lago Paranoá. O primeiro ato da sua gestão ficou marcado pelo famigerado confisco da poupança.

Alguns meses atrás, revi uma matéria em que a toda poderosa Ministra da Economia de Collor, Zélia Cardoso de Melo, reconhecia que foi um erro o confisco da poupança. A intenção era tirar a liquidez do mercado, a fim de combater uma hiperinflação galopante. Houve um bloqueio de todos os depósitos, na ordem de 50.000 cruzados novos (a moeda vigente), o equivalente a cerca de 1.300 dólares na cotação oficial e US$ 700 na paralela, à época. Foi um desastre total, porque não apenas causou transtornos na vida da população e do mercado, como também trouxe tragédias financeiras das quais muita gente não se recuperou. Collor, lutador de artes marciais que era, dizia que precisava vencer o dragão da hiperinflação com um golpe único, um “yppon”. Mas foi um golpe sujo.

Houve pontos positivos em seu governo, como a abertura ao mercado internacional. Ele chamava os carros nacionais de carroças; comandou a demarcação das terras Yanomamis e dirigiu a COP 92 – no Rio, pois demonstrava preocupação com a causa ambiental. No entanto, não demonstrou haver em seu plano de governo uma política para os setores, nem acordos comerciais consistentes para que a abertura ao comércio exterior desse certo. Dessas coisas, porém, pouca gente se lembra. Diante da irrupção de uma figura como a do PC Farias, o operador do esquema de corrupção do governo collorido, o amante de carros de luxo se enrolou com a compra de um Fiat Elba. Denunciado pelo caseiro (um serviçal) e pela entrevista bombástica do irmão, Pedro Collor (com Thereza Collor, sua esposa, a musa do impeachment,) em 1992 foi sepultada de vez a sua trajetória na presidência da república.

Os desastres políticos foram de tal ordem, que mobilizou a classe média (a qual havia confiado nele). Por isso os estudantes foram para a rua no movimento dos “caras-pintadas”. Color fugiu do impeachment (que correu à sua revelia) ao renunciar a presidência, e teve de engolir toda a sua arrogância, perdeu os direitos políticos por 8 anos (cumpriu). O STF retirou os crimes por falta de materialidade, e ele foi reeleito duas vezes ao senado. Agora volta outra vez à antiga cena: pego em um desdobramento das investigações da Lava Jato, pode-se perceber que o seu caráter não mudou nada. E aí a preocupação deste cronista: como uma figura dessas consegue voltar à política, conseguir votos suficientes para levá-lo ao senado, por duas eleições? A era Collor ainda gera ondas secundárias das placas tectônicas republicanas (a frágil República brasileira). Os brasileiros, maiores, vacinados, eleitores, ou aprendem a escolher seus representantes, ou os representantes vão continuar esta história de sabotagem ao progresso do nosso país.

(*) Orlando Fonseca é professor titular da UFSM – aposentado, Doutor em Teoria da Literatura e Mestre em Literatura Brasileira. Foi Secretário de Cultura na Prefeitura de Santa Maria e Pró-Reitor de Graduação da UFSM. Escritor, tem vários livros publicados e prêmios literários, entre eles o Adolfo Aizen, da União Brasileira de Escritores, pela novela “Da noite para o dia”.

Artigos relacionados

ATENÇÃO


1) Sua opinião é importante. Opine! Mas, atenção: respeite as opiniões dos outros, quaisquer que sejam.

2) Fique no tema proposto pelo post, e argumente em torno dele.

3) Ofensas são terminantemente proibidas. Inclusive em relação aos autores do texto comentado, o que inclui o editor.

4) Não se utilize de letras maiúsculas (CAIXA ALTA). No mundo virtual, isso é grito. E grito não é argumento. Nunca.

5) Não esqueça: você tem responsabilidade legal pelo que escrever. Mesmo anônimo (o que o editor aceita), seu IP é identificado. E, portanto, uma ordem JUDICIAL pode obrigar o editor a divulgá-lo. Assim, comentários considerados inadequados serão vetados.


OBSERVAÇÃO FINAL:


A CP & S Comunicações Ltda é a proprietária do site. É uma empresa privada. Não é, portanto, concessão pública e, assim, tem direito legal e absoluto para aceitar ou rejeitar comentários.

9 Comentários

  1. Resumo da opera. Collor apoiou Cavalão na ultima eleição. Para quem está se afogando, jacaré é tronco. Dai um assunto tão terciário aparecer.

  2. ‘[…] ou os representantes vão continuar esta história de sabotagem ao progresso do nosso país.’ Lembra o Destino Manifesto ianque, mas o insucesso é culpa de uma categoria indeterminada ‘os(as) brasileiros (as)’. Aquela conversinha de ‘não culpar a vitima’ é prosopopéia flácida para acalentar bovinos.

  3. Eleições ocorrem com candidatos(as) determinados(as) com programas de governo fajutos e depois do pleito os(as) eleitos(as) comportam-se como se tivessem um cheque em branco. E, como disse Efeaga parafraseando outro professor da USP, ‘o problema não é o ‘esperto’ porque este só pratica ‘espertezas’ de vez em quando; problema é o burro, porque este é burro sempre’.

  4. ‘Os brasileiros, maiores, vacinados, eleitores, ou aprendem a escolher seus representantes, […]’. Eleitores e eleitoras não escolhem quem concorre aos cargos. Além disto os ‘representantes’ cuidam de interesses proprios ou de lobbies com compensações não sabidas.

  5. ‘ A era Collor ainda gera ondas secundárias das placas tectônicas republicanas (a frágil República brasileira).’ Brasil é ‘republica’ só no papel. Dependendo do caso a res publica não é de ninguém ou é so de alguns.

  6. Collor preso. Vamos ver o que faz Geneticamente Modificado. ‘Fico muito orgulhoso de ter participado desse processo de ‘desmanche da Lava Jato’. Publicado na Veja. Declaração em evento do Calça Apertada em Harvard.

  7. ‘[…] como uma figura dessas consegue voltar à política, conseguir votos suficientes para levá-lo ao senado, por duas eleições?’ Alagoas? Terra de Renan Calheiros e Artur Lira. Outro senador é Fernando Farias que assumiu porque Renan Filho assumiu um ministerio neste governo. Ou seja, pai e filho senadores, ambos dispensam apresentação. Melhorou ‘um monte’.

  8. ‘Também resgatava um antigo slogan peronista: dizia-se a favor dos descamisados (uma farsa, […]’. Peronismo foi bom para os descamisados da Argentina. Aumentou a população deles astronomicamente.

  9. ‘[…] Collor já estava fazendo hora extra fora da cadeia, porque não foram poucos os escândalos de corrupção em seu governo.’ Kuakuakuakuakua! E Molusco com L, abstemio, honesto e famigerado dirigente petista? Nunca teve escandalo de corrupção no governo dele? Agora o INSS virou um lupanário!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo