O Leopardo – ou como certos seres humanos se veem como reis da natureza – por Amarildo Luiz Trevisan
A agressão a Marina e “o poder que se julga natural não percebe a história”

A nova série da Netflix, Il Gattopardo (O Leopardo), lançada em março de 2025, retoma o clássico romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, publicado em 1958. Já consagrado pela adaptação cinematográfica de Luchino Visconti em 1963, o enredo ganha agora nova vida e fôlego dramático ao revisitar as transformações políticas e sociais da Sicília durante a unificação italiana, em 1860.
No centro da trama está o Príncipe Fabrizio, figura imponente da aristocracia decadente, que observa, com pesar e altivez, a ascensão de uma nova ordem representada por seu jovem sobrinho Tancredi. Enquanto o velho príncipe se apega ao passado, Tancredi adere às forças revolucionárias – não por convicção ideológica, mas por astúcia. Sua frase, dita com desassombro e ironia ao tio – “tudo precisa mudar para que tudo continue como está” – torna-se o eixo simbólico da narrativa. Não se trata apenas de uma escolha entre lados políticos, mas da colisão entre dois mundos: a nobreza que definha e a burguesia que avança, não sem contradições.
Entre batalhas, festas e alianças matrimoniais, emerge a figura histórica de Giuseppe Garibaldi – o “herói de dois mundos” – que lutou no Brasil pela separação da província de São Pedro do Rio Grande do Sul do Império e, na Itália, pela unificação sob os ideais republicanos. Um homem entre fronteiras, símbolo da travessia entre o velho e o novo.
Mas o momento mais agudo da série talvez esteja em uma cena de aparente trivialidade: um baile. É ali que o Príncipe Fabrizio, em meio ao esplendor de sua estirpe em declínio, confronta Don Calogero Sedàra, prefeito de Donnafugata e símbolo da burguesia emergente. Don Calogero não tem a sofisticação do príncipe, mas tem o poder do tempo. Fabrizio, tomado de desprezo, afirma que “os leopardos e leões estão sendo substituídos por hienas e chacais” – metáfora contundente da pretensa superioridade natural da nobreza sobre os arrivistas da nova ordem. Ao que Don Calogero, com voz firme, responde: “Mas daqui a duzentos anos, nós ainda estaremos vivos. O senhor, não.”
Eis o cerne da questão: o poder que se julga natural não percebe a história. Quem se imagina rei por direito de nascimento não vê que seu trono é de areia. O príncipe, como tantos outros que confundem natureza com destino, se esquece de que a cultura – essa invenção humana por excelência – foi criada justamente para resistir ao império da natureza. Não para negá-la, mas para desnaturalizar hierarquias e desarticular domínios.
Por isso, quando um homem diz a uma mulher: “Ponha-se no seu lugar”, não está apenas emitindo uma frase de desprezo. Está invocando uma ordem pretensamente natural. Está repetindo o gesto do Príncipe Fabrizio ao olhar para Sedàra como usurpador. Está recusando a cultura que constrói igualdade para preservar um poder que supõe inato.
Recentemente, assistimos a esse gesto se repetir em cena pública: o senador Marcos Rogério, em audiência no Senado, tentou calar a ministra Marina Silva com a mesma lógica ancestral – de que o poder é masculino, a razão é patriarcal e o espaço público pertence aos herdeiros da “nobreza” contemporânea. É um sintoma. Um retorno do reprimido.
Esses episódios não são isolados. E, mais do que fruto de ignorância, são expressões de um conservadorismo mal interpretado, que se ancora não na preservação do que é valioso, mas na recusa em partilhar o poder. Um conservadorismo que teme a liberdade e repele a igualdade. E que, no fundo, denuncia sua falência: o medo de que os “chacais” vivam mais que os “leopardos”.
Por isso, se quisermos que tudo mude para que, de fato, algo se transforme, não podemos nos contentar com a troca de máscaras. É preciso questionar o palco, reescrever o roteiro e abrir espaço para novos protagonistas.
Dizem que o lugar da mulher é onde ela quiser. Discordo. O lugar da mulher – como o do homem, o da criança, o do velho, o do diferente – é em toda parte. Porque nenhum lugar é natural. Todos são históricos. E, portanto, passíveis de mudança.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é Licenciado em Filosofia no Seminário Maior de Viamão, tem o curso de Teologia, é Mestre em Filosofia pela UFSM, Doutor em Educação pela UFRGS e Pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Desde 1998 é docente da UFSM. É professor de Ciências da Religião e vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE/UFSM).





Resumo da opera. Omissões, catação de milho. Para caber na ‘narrativa’. Ideologia ultrapassada. É só cruzar os braços. Vermelhos também estão divididos entre dois mundos, porém não compreendem o novo e fazem força para voltar ao velho. Pior, se iludem achando que isto é possivel.
‘Se fosse um simples título honorífico para escrever no cartão de visitas estaria pronto a aceitar. Mas, assim, não posso aceitar. Sou um exponte da velha classe fatalmente comprometida com o passado e ligada a esses vínculos de descendência mais que por afeto. A minha é uma infeliz geração dividida entre dois mundos e pouco à vontade em qualquer um deles. Além disso, eu não tenho ilusões. O que faria o Senado comigo? Um legislador inexperiente que não consegue nem enganar a si próprio? Requisito essencial para quem quer guiar os outros. Em política não apontaria com o dedo. Seria logo mordido.’
O livro ‘Il Gattopardo’ é muito bom. Fala de velhice, de decadencia. Da passagem do tempo. No final o cachorrinho de Fabrizio é jogado fora, tinha sido empalhado. Muito antes disto oferecem uma vaga no Senado a dom Fabrizio. Ele recusa e sugere oferecerem a Colagero.
Perspectiva de ‘lugar da mulher é em toda parte’ sai de uma classe média burocratica que passa a vida esfregando a barriga num bureau dentro do ar condicionado. Replicada via cartilha por uma militancia ignorante que vive das migalhas e farelos que caem da mesa dos ‘grandes lideres’. Da ‘vanguarda’.
‘O lugar da mulher – como o do homem, o da criança, o do velho, o do diferente – é em toda parte. Porque nenhum lugar é natural. Todos são históricos. E, portanto, passíveis de mudança.’ Obvio que não. Mulheres não deveriam ir a combate em guerras. Manejar perfuração de petroleo.
‘É preciso questionar o palco, reescrever o roteiro e abrir espaço para novos protagonistas.’ Como em Cuba, na Venezuela, Nicaragua e Coreia do Norte.
‘Por isso, quando um homem diz a uma mulher: “Ponha-se no seu lugar”, não está apenas emitindo uma frase de desprezo.’ De novo fora do contexto. Quem assistiu notou que foi feito um esforço para destacar que era embate entre uma ministra e um senador, não entre homem e mulher.
Citação fora de contexto. ‘Nós éramos os leopardos, os leões; esses que nos substituíram são os chacais, as hienas; e todos os leopardos, chacais e ovelhas continuarão a acreditar no sal da terra.’ Eu teria vergonha de fazer isto.
‘Don Calogero não tem a sofisticação do príncipe, mas tem o poder do tempo.’ Do dinheiro. Tancredi é da ‘nobreza’ porem a fortuna se perdeu. O casamento é, também, entre o prestigio e a fortuna.