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Polarização Lula x Bolsonaro acaba com a migração do Centrão para o lado vencedor? – por Carlos Wagner

A exigência de fidelidade por lulistas e bolsonaristas é o que dificulta a decisão

Promulgação da Constituinte na foto: lealdade do apoiador pode ser marca registrada das eleições de 2026 (Reprodução/Arquivo EBC)

Por conta das eleições de 2026 houve um recrudescimento da polarização entre o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos. O quadro atual está sufocando uma tradição da política brasileira, que é a migração dos parlamentares do Centrão de um lado para o outro, conforme os seus interesses econômicos e políticos. Nos dias atuais, estes parlamentares são descritos pela imprensa de maneira pejorativa como “políticos que não têm adversários nem aliados. Só negócios”.

O surgimento do grupo não tem nada a ver com a sua fama atual. Com a redemocratização do país e a instalação da Assembleia Constituinte, o Centrão nasceu em 1987 da união de vários partidos de direita que tentavam barrar as propostas progressistas do presidente da Constituinte, o deputado Ulysses Guimarães (1916 – 1992), do antigo MDB. Publicada a Constituição, em 1988, o Centrão seguiu atuando no Congresso e teve o seu auge durante a polarização entre PSDB e PT (1995 a 2011).

Nos anos seguintes, a disputa política mudou. O PSDB entrou em decadência e foi engolido pela extrema direita, que estava se articulando ao redor do mundo. Ainda assim, na campanha presidencial de 2018, o Centrão apoiou o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, 72 anos, deixando Bolsonaro de lado. A decisão provocou a reação de um dos apoiadores mais próximos do ex-presidente, o general Augusto Heleno, 77 anos, que se inspirou no samba Reunião de Bacana, de Ary do Cavaco e Di São João, para atacar o Centrão: “Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”.

Bolsonaro assumiu o seu mandato em 2019 e o general engoliu as suas ofensas dois anos depois. Em 2021, o então presidente da República começou a dar cargos no seu governo para o Centrão, com a intenção de barrar os mais de 300 pedidos de impeachment feitos pela oposição. Em 2022, Bolsonaro concorreu à reeleição contra Lula e perdeu. Em outros tempos, o Centrão migraria em massa para o governo eleito. Não foi o que aconteceu desta vez. Só foram para o governo Lula parlamentares de grupos que não tinham participado do governo Bolsonaro.

Por que o contingente do Centrão do governo Bolsonaro não migrou para o de Lula, como sempre acontecia? A resposta é a seguinte. O ex-presidente perdeu a eleição. Mas o seu prestígio político elegeu mais de 100 parlamentares e governadores. A maioria dos eleitos são quadros da extrema direita, pessoas organizadas, agressivas e com uma bem lubrificada e competente máquina de fake news para atacar os adversários e os companheiros que desertarem. Assumiram os seus mandatos prometendo “esmagar o governo Lula”. E fizeram do Centrão “um puxadinho” do bolsonarismo.

Mas as coisas começaram a dar erradas para Bolsonaro. Em 31 de outubro de 2023, ele foi considerado inelegível até 2030 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Atualmente, cumpre prisão domiciliar enquanto espera transitar em julgado a condenação a 27 anos de cadeia que lhe foi imposta pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), onde foi julgado, com 37 ministros e funcionários de primeiro escalão do seu governo, por cinco crimes, um deles, a formação de uma organização criminosa para dar um golpe de estado.

Os parlamentares e governadores eleitos pelo prestígio do ex-presidente estão tentando resolver o problema de duas maneiras: uma é enfiar garganta abaixo do Congresso um projeto de anistia ampla e geral para Bolsonaro e seus seguidores que se envolveram na tentativa de golpe. Não vai rolar por dois motivos: primeiro, porque 67% da opinião pública é contrária. Depois, porque, caso o projeto da anistia passe no Congresso, os ministros do STF vão vetá-lo, por ser inconstitucional.

A outra estratégia é o ex-presidente indicar o seu substituto na eleição presidencial do próximo ano. Há vários candidatos à indicação, sendo o mais cogitado o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), 50 anos, que foi ministro de Bolsonaro e é seu afilhado político. Apareceu um fato complicador para o lado do governador.

Um dos filhos do ex-presidente, o deputado federal por São Paulo Eduardo Bolsonaro (PL-SP), 40 anos, licenciou-se do seu mandato e mudou-se para os Estados Unidos. Lá, montou um bem-sucedido esquema de lobby junto ao presidente americano Donald Trump (republicano), 79 anos, para que exigisse a anistia do seu pai e dos seus seguidores como condição para negociar o tarifaço de 50% sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos.

Ele teve sucesso no lobby, mas rachou politicamente o bolsonarismo. Em outros tempos, o Centrão aproveitava a confusão entre os bolsonaristas para pular do barco em busca de um lugar mais seguro. Por que continua lá? Porque um dos seus líderes, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), 56 anos, ex-ministro-chefe da Casa Civil de Bolsonaro, viu na atual situação uma oportunidade de ser indicado para concorrer como vice do governador paulista, caso seja ele o indicado por Bolsonaro.

Eduardo é contra a indicação de Tarcísio. Inclusive, ameaçou lançar-se candidato a presidente caso o governador paulista seja o escolhido por seu pai. O presidente do PL, o experiente ex-deputado Valdemar da Costa Neto, 76 anos, disse acreditar que Trump conseguirá que Bolsonaro e seus seguidores sejam anistiados. Lula já avisou que “a soberania nacional não é negociada”.

A vida dos parlamentares do Centrão que estão com Lula também não anda fácil. No início do mês, quarta-feira (8), na Câmara dos Deputados, os bolsonaristas e seus aliados derrotaram por 251 votos a 193 a Medida Provisória (MP) 1303, do governo federal, que substituía o Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF). A derrota da MP 1303 significa que faltarão R$ 35 bilhões para o governo fechar as contas.

O governo demitiu 120 pessoas que ocupavam cargos no serviço público federal e haviam sido indicadas por parlamentares da sua base de apoio, que inclui deputados do Centrão. Lembro o seguinte. Em outros tempos, a menos de um ano para o primeiro turno das eleições o Centrão estaria unido se posicionando ao lado do provável ganhador. Ouvi de um colega que considero um bom analista político que na década de 90 o governo federal controlava uma enormidade de cargos, com bons salários, porque existiam muitas empresas estatais. Isso acabou, porque a maioria das estatais foi privatizada.

Para concluir a nossa conversa, vou resumir tudo que falamos em uma curta frase. A exigência feita pelo governo e a oposição bolsonarista de fidelidade aos seus apoiadores prejudica a migração do Centrão. Não escrevi nem uma, nem duas, mas dezenas de vezes, que seja lá quem for eleito presidente da República, o Centrão estará no governo. A polarização vai acabar com isso?

PARA LER NO ORIGINAL, CLIQUE AQUI .

(*) O texto acima, reproduzido com autorização do autor, foi publicado originalmente no blog “Histórias Mal Contadas”, do jornalista Carlos Wagner.

SOBRE O AUTOR:  Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo, pela UFRGS. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 75 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

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11 Comentários

  1. Resumo da opera. Sistema do jeito como está é instável. Gastança publica é enorme, há instabilidades no horizonte. Pode dar nada. Mas pode dar Madagascar ou Nepal. Este ultimo um pais comunista.

  2. ‘Não escrevi nem uma, nem duas, mas dezenas de vezes, que seja lá quem for eleito presidente da República, o Centrão estará no governo.’ Cacoete da midia tradicional. Tratam as coisas como se fossem só ‘politica’ e deixam de lado a parte financeira. ‘Politica’ é, infelizmente, a imagem, a marketagem para o publico externo.

  3. ‘[…] a menos de um ano para o primeiro turno das eleições o Centrão estaria unido se posicionando ao lado do provável ganhador.’ ‘Centrão’ é muita gente. Trata-se de narrativa e chute. Pessoal considerado do Centrão apoia quem as bases apoiam. Partidos fazem pesquisas informais que não são divulgadas. Uma coisa é eleição, outra coisa é exercicio do mandato.

  4. ‘[…] os bolsonaristas e seus aliados derrotaram por 251 votos a 193 a Medida Provisória (MP) 1303,[…]’. Aliados não porque apoiam Cavalão. Tem a vingança pelo engavetamento da blindagem e uma coisa que pouca gente comenta, um calendário de pagamento de emendas no ano que vem que é eleitoral.

  5. ‘A vida dos parlamentares do Centrão que estão com Lula também não anda fácil.’ Os mais fisiologicos diga-se de passagem. Querem tirar até o ultima gota de suco da laranja.

  6. ‘[…] ex-ministro-chefe da Casa Civil de Bolsonaro, viu na atual situação uma oportunidade de ser indicado para concorrer como vice do governador paulista, caso seja ele o indicado por Bolsonaro.’ Não adianta o sujeito falar que vai sair candidato a reeleição. Vermelhos precisam de um espantalho para manter o gado mobilizado.

  7. ‘Em outros tempos, o Centrão aproveitava a confusão entre os bolsonaristas para pular do barco em busca de um lugar mais seguro.’ Quem disse que o Centrão não está num lugar ‘mais seguro’? Alas, as emendas impositivas ficaram fora da ‘análise’ caso contrario ela ficaria sem pé nem cabeça.

  8. Autor, claramente chapa branca, para a análise para desancar Cavalão. Não acredito que alguém mude de opinião porque ele repete sempre a mesma coisa em toda coluna. Vale o mesmo para ‘na minha epoca quando cobria conflitos agrarios’. E daí?

  9. ‘Em outros tempos, o Centrão migraria em massa para o governo eleito. Não foi o que aconteceu desta vez. Só foram para o governo Lula parlamentares de grupos que não tinham participado do governo Bolsonaro.’ Não foram porque Rato Rouco deu o filé dos ministérios para a cumpanherada (transportes é de Renan Filho, saude é de Padilha). No expurgo da outra semana unica confusão foi no ministerio do turismo. Que tem orçamento pifio.

  10. ‘Ainda assim, na campanha presidencial de 2018, o Centrão apoiou o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, 72 anos,[…]’. Picolé de Xuxu fez votação pifia. Heleno mencionou ladrões depois das eleições. Onde muita gente do Centrão se elegeu apoiando Cavalão. Depois da eleição o discurso e as praticas eram outras.

  11. Centrão de 87 não tem nada a ver com o atual. O da constituinte era para resolver disputas e impasses dentro da constituinte. Dissolveu. Muitos membros foram desta para a proxima. O termo foi reativado pela midia, ou seja polissemia, na epoca do Eduardo Cunha.

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