Foguinho, sobrenome Camarada – por Leonardo da Rocha Botega
“Foi leal as suas convicções da mesma forma como foi leal aos seus camaradas”

“Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.” (Bertolt Brecht)
O ano era 2000, domingo de eleições municipais em Santa Maria. Entre o acompanhamento da movimentação dos fiscais da Frente Popular/Valdeci prefeito e a espera pelo passar das horas até o fim da votação e o início da apuração, o silêncio do Comitê era entediante. Minha função de assessoria do programa de governo havia dado lugar a um quase solitário plantão.
No final da tarde, recebo uma ligação: Foguinho havia sido preso. Boca de urna! Era a terceira vez no mesmo dia (recorde mundial!). Nas duas anteriores, o juiz eleitoral o liberou por falta de provas. Foguinho jogava os panfletos pela janela da viatura antes de se apresentar ao juiz. Novamente não havia provas. Porém, o juiz não tolerou sua terceira apresentação. Ordenou que ele não voltasse ao local. Foguinho pediu a palavra e falou que teria que voltar lá, pois não havia votado ainda.
Após ter votado com escolta policial, Foguinho foi deixado no Comitê. Logo na chegada contou para todos que estavam presentes a saga de suas prisões. A tensão que estava no ar deu lugar uma quase interminável risada coletiva. Daquela hora em diante a festa foi se estabelecendo. A cada divulgação parcial do resultado da apuração, enquanto muitos comemoravam, Foguinho se mantinha sério. Comemorar somente quando a vitória for confirmada. Uma lição que a vida havia ensinado!
Conheci Fernando França Sauthier, o Foguinho, em 1997, quando ingressei no Curso de História e no movimento estudantil universitário. No ano seguinte, nas eleições para governador, inúmeras vezes o acompanhava em jornadas homéricas pelas madrugadas, colando cartazes da campanha Olívio Dutra – governador. A velha Kombi, chamada de “A Kombi do Foguinho”, era testemunha, juntamente com os jovens que o acompanhavam, das histórias que ele contava.
Foguinho era filho de Theófilo Sauthier, um trabalhador da Rede Ferroviária Federal, militante histórico do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Uma das histórias que não cansava de contar era de como o pai conseguiu escapar de ser preso após o golpe de 1964. O velho comunista havia desligado todas as luzes da casa e quando um grupo de soldados chegou para levá-lo ao quartel, disse que iria buscar uma vela na cozinha para conseguir ler a intimação. Saiu pelos fundos, pulou o muro e rumou ao Uruguai.
Assim como o velho Theófilo, o jovem Fernando ingressou no partidão ainda na clandestinidade. Chegou a ser membro do comitê municipal no final dos 1980. Quando a direção nacional resolveu mudar o nome e a ideologia política do partido, transformando o PCB em Partido Popular Socialista (PPS), Foguinho se desfiliou e ingressou no Partido dos Trabalhadores (PT). Suas convicções comunistas não toleraram o oportunismo eleitoreiro e a traição de Roberto Freire e companhia.
Foguinho era assim, convicto! Fazia parte de uma geração militante que valorizava a formação política e ideológica, sem perder o horizonte da prática. Gostava de ler e de presentear os amigos com alguns de seus livros. Em 1999, fui presenteado com “Comunistas Gaúchos: a vida de 31 militantes da classe operária” de João Batista Marçal. Na ocasião, Foguinho fez questão de me contar que alguns daqueles personagens tinham sido camaradas de seu pai.
Camarada! Eis uma palavra que fazia muito sentido na sua trajetória. Foguinho era um militante intenso. Muitas vezes se tornava um verdadeiro turrão. Mas sempre levou ao extremo o sentido da palavra camarada! Foi leal as suas convicções da mesma forma como foi leal aos seus camaradas. Tinha a capacidade de conversar da mesma forma com todo mundo, seja um intelectual, um parlamentar ou um morador de rua. Adorava os locais públicos. A Praça Saldanha Marinho era seu grande espaço de diálogo.
Foguinho nos deixou no último domingo, dia 16 de novembro. Um dia depois do feriado de rememoração da Proclamação da República. Uma simbólica coincidência para quem dedicou uma vida inteira para a luta por uma nação justa e igualitária. Lutando para que o Brasil se tornasse de fato uma Res-publica. Em tempos de neofascismo e do predomínio da política como profissão, Foguinho nos ensinou que a firmeza de princípios é fundamental para quem quer mudar o mundo. Vai na paz meu camarada!
(*) Leonardo da Rocha Botega, que escreve regularmente no site, é formado em História e mestre em Integração Latino-Americana pela UFSM, Doutor em História pela UFRGS e Professor do Colégio Politécnico da UFSM. É também autor do livro “Quando a independência faz a união: Brasil, Argentina e a Questão Cubana (1959-1964).





Bela, justa e necessária homenagem ao Foguinho, presente, hoje e sempre!