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Agricultura e mercado: o agro que exporta e a agricultura familiar que alimenta o Brasil – por Marionaldo Ferreira

Existem 'dois “Brasis agrícolas” coexistindo, e ambos são fundamentais’

A agricultura brasileira ocupa posição estratégica no cenário nacional e internacional. Somos reconhecidos como uma das maiores potências agroalimentares do planeta, com forte participação nas exportações e presença relevante em cadeias produtivas globais. No entanto, quando analisamos esse setor de maneira profunda e responsável, percebemos que há dois “Brasis agrícolas” coexistindo, e ambos são fundamentais: o agro empresarial voltado para o mercado externo e a agricultura familiar que sustenta a alimentação da população brasileira.

O agronegócio de grande escala – baseado em tecnologias avançadas, integração logística e capacidade de investimento – é responsável por colocar o Brasil como líder mundial na produção e exportação de soja, milho, carnes e outros produtos. Esse segmento gera superávit na balança comercial, atrai investimentos e posiciona o país como fornecedor estratégico em um mundo que exige cada vez mais segurança alimentar.

É preciso reconhecer: sem o agro exportador, o Brasil não teria o mesmo peso econômico. A receita que entra pelas exportações contribui diretamente para o equilíbrio da economia, do câmbio e da geração de empregos em cadeias industriais relacionadas.

Porém, esse agro, por sua própria natureza, trabalha basicamente para os mercados internacionais e atua com uma lógica de commodities — grandes volumes, preços globais e competitividade internacional. É um setor indispensável, mas não é ele que coloca a comida no prato da família brasileira de todos os dias.

Se o grande agro exporta, a agricultura familiar alimenta. Mais de 70% dos alimentos que chegam às mesas brasileiras – hortaliças, feijão, mandioca, leite, ovos, frutas – vêm de pequenas e médias propriedades. São agricultores que conhecem o território, preservam tradições, mantêm vínculos comunitários e têm uma relação direta com o abastecimento interno.

A agricultura familiar não apenas produz comida; ela sustenta economias locais, gera renda em pequenas comunidades e favorece a permanência das famílias no campo. É um sistema que movimenta a economia interna e fortalece o desenvolvimento regional, principalmente nos municípios que dependem do setor primário para gerar emprego e circulação de riqueza.

Além disso, a agricultura familiar desempenha papel essencial para a segurança alimentar nacional. Em um país de dimensões continentais e profundas desigualdades sociais, depender exclusivamente do agro exportador seria arriscado e insuficiente para garantir preços acessíveis e abastecimento constante. É a diversidade produtiva da agricultura familiar que garante acesso ao alimento básico e de qualidade.

Para que o Brasil se desenvolva de maneira sustentável, é preciso compreender que não existe contradição entre o agro exportador e a agricultura familiar. O que existe são funções diferentes dentro de um mesmo macrosetor.

O agro empresarial gera divisas e posiciona o Brasil no comércio global.

A agricultura familiar garante abastecimento interno, segurança alimentar e desenvolvimento comunitário.

Promover políticas públicas que equilibrem esses dois eixos é fundamental. Isso inclui crédito específico, assistência técnica, logística rural, apoio à comercialização, compras públicas da agricultura familiar, ampliação de cooperativas e incentivos à agroindustrialização local.

O Brasil é grande porque tem capacidade de produzir para o mundo sem deixar de alimentar seu próprio povo. Mas para que isso seja sustentável, precisamos valorizar quem exporta e, ao mesmo tempo, fortalecer quem abastece nosso território.

Agricultura não é apenas negócio; é desenvolvimento interno, é economia real, é vida nas comunidades, é segurança alimentar e é soberania nacional.

O agro movimenta o mundo, mas é a agricultura familiar que movimenta o Brasil.

(*) Marionaldo Ferreira é especialista em governança pública, mentor de líderes e consultor em gestão e captação de recursos para municípios. Atua na formação de servidores e agentes públicos e é autor do livro Governança Pública e Suas Possibilidades.

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4 Comentários

  1. Resumo da opera. A dicotomia aproveita o desconhecimento da população a respeito do setor para justificar escolhas ideológicas de alguns e propaganda eleitoreira. Obvio que entre os falsos dois polos existe uma ‘classe media de produção’. Agricultura familiar tem importância, mas não a que a propaganda defende.

  2. Pink Farms produção de hortaliças em SP utilizando o conceito de fazendas verticais. Produção de tomates em estufas na região de Andradas em MG. Tecnologia importada dos Paises Baixos.

  3. Lembrando que o milho e a soja alimentam porcos e galinhas que vão parar na mesa de todo mundo. Arroz maioria come. Assim como grandes produtores de gado no centro-oeste de onde sai a carne bovina.

  4. Isto é uma das maiores lendas que os vermelhos e a midia cumpanhera propagaram no pais. ‘Dois brasis agricolas’. A luta de classes alimentar. Um produz commodities, o ‘agronegócio’, e outro ‘alimenta o pais’, a agricultura familiar.

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