A família “real” Bolsonaro – por Amarildo Luiz Trevisan

Dias desses, assisti a um vídeo em que um sujeito, com sotaque nordestino e ironia afiada, fez um desabafo que ficou ecoando em mim. Ele dizia, já sem paciência, que no Brasil parece não existir outro assunto há anos, fora as fofocas da família Bolsonaro. Um dia é a notícia do tombo, do impacto, do susto. No outro, a queixa do ar condicionado, como se o ruído da máquina virasse problema nacional. Depois vem o pedido de prisão domiciliar por saúde, a remição de pena por leitura, com resenhas e avaliação, as falas e manobras eleitorais dos filhos, sempre em torno de protagonismo e herança política. E assim, entre boletins, reclamações e bastidores, a vida pública vai sendo empurrada para o fundo, como se o país inteiro tivesse sido convocado a assistir, sem intervalo, à novela interminável de uma única família.
A fala do homem tinha razão e tinha também uma pergunta escondida. Por que esse país, tão grande e tão atravessado por problemas reais, vive como se estivesse de vigia permanente em torno de um clã familiar? O que nos captura nessa fixação por fofocas domésticas com cara de manchete, por episódios que, em tese, deveriam caber num canto pequeno da curiosidade. Mas acabam ocupando páginas e páginas, dias e dias, como se o noticiário tivesse desaprendido a olhar para fora dessa ciranda sem graça?
Fiquei com a sensação de que essa atenção excessiva funciona como um tampão, um remendo colocado às pressas sobre um buraco antigo. E aí me ocorreu uma imagem meio maluca, mas insistente: talvez exista, na nossa história, uma espécie de saudade sem objeto, uma orfandade simbólica desde que a família real portuguesa fez as malas e saiu de cena. Como se o país tivesse aprendido a viver sem coroa, mas não sem o desejo de coroar alguém. O trono caiu, porém, a vontade de trono ficou procurando um novo hospedeiro.
Em outros tempos, esse vazio era preenchido de modo mais leve, até mais afetuoso. Tivemos o “Rei” Roberto Carlos, o “Rei do Futebol” Pelé. Tivemos rainhas populares, como a Xuxa, a rainha dos baixinhos, com seu império de fantasias e sorrisos. Eram coroas de brincadeira, apelidos carinhosos, um pacto coletivo para celebrar talentos, para inventar símbolos menos pesados do que o cinza do cotidiano. Um rei que cantava, um rei que jogava, uma rainha que embalava infância, e pronto, a monarquia virava espetáculo, sem pedir licença à lei ou à Constituição.
Agora, em tempos distópicos, parece que a mesma necessidade de coroar se deslocou para um lugar sombrio. O que antes era admiração, hoje muitas vezes vira ressentimento. O que antes era festa, hoje é encrenca. O que antes era afeto, hoje é raiva. E eis que surge uma família que se impõe no imaginário nacional, não por acaso vinda do Rio de Janeiro, essa cidade que já foi sede de império e que ainda carrega, em suas esquinas, um gosto de palco, de corte, de espetáculo de realeza como é o carnaval.
Só que a corte, agora, é de outra ordem. Não se trata de veneração artística, mas de devoção política com tintas de torcida. E torcida, quando se sente ameaçada, vira multidão, vira massa de manobra. Aí a democracia passa a ser tratada como inimigo, como barulho de ar condicionado que atrapalha o sono do rei adormecido. E foi assim que vimos gente acampada diante de quartéis, pedindo um atalho contra o voto, como se a história pudesse ser reeditada pela volta ao passado graças à máquina do tempo. Culminou na invasão e depredação das sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, um dia em que a política desceu ao pior nível de furor, e a República pareceu vulnerável como uma casa abandonada.
Nesse ponto, lembrei de Freud, não somente como diagnóstico da nação, mais como lente para entender certos movimentos do desejo coletivo. Freud, quando fala do delírio, sugere algo inquietante: ele pode funcionar como tentativa de remendar uma realidade que o sujeito não consegue sustentar. Em vez de aguentar o mundo como ele é, constrói-se um mundo idealizado substituto, mais obediente aos próprios medos, desejos e fantasias. Basta perceber que, em certas horas, um país também fantasia para não encarar o que precisa de fato ser feito, se agarra a personagens para fugir do trabalho mais difícil: o de reformar a própria vida pública.
E talvez seja isso o mais triste nessa “família real” improvisada. Ela ocupa o centro não apenas por estratégia, mas porque encontra espaço num terreno já preparado nessa massa falida: um terreno de carência de símbolos comuns, de confiança corroída, de cansaço democrático. Quando falta projeto de futuro, sobra novela. Quando falta horizonte, sobra fofoca. Quando falta responsabilidade, sobra idolatria. E idolatria, já sabemos, costuma pedir sacrifício, lealdade, devoção incondicional, tudo menos conversa civilizada.
Fica então uma pergunta, que é menos sobre Bolsonaro e mais sobre nós. Precisamos mesmo de uma psicanálise coletiva, no sentido profundo da identidade nacional, para desaprender a coroar quem não oferece dignidade à coroa? Precisamos reaprender a chamar de rei e rainha apenas aquilo que nos eleva, aquilo que nos humaniza, aquilo que devolve algum grau de dignidade e beleza ao convívio social?
Afinal, se for para “coroar” alguém, que este seja no mínimo um gesto educativo. O país que escolhe seus reis, mesmo os reis de apelido, está dizendo o que admira, o que deseja, o que tolera. E talvez a tarefa do nosso tempo seja justamente esta: trocar a excitação de se alimentar de polêmica, fofoca, indignação instantânea e manchetes que dão adrenalina, mas pouco mudam a vida real, por conversas sobre políticas públicas efetivas, problemas estruturais que ainda não resolvemos, como o descaso com o lixo em nossas cidades, responsabilidades individuais e coletivas pelo que está acontecendo, fatos verificáveis, mesmo quando isso não rende cliques. Enfim, pela coragem do essencial, que nesse caso significa devolver à palavra “realeza” o mínimo de decência que um apelido carinhoso deveria carregar.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Resumo da opera II. Herança de Prestes, Vermelhos gostam de fazer ‘autocritica’, mas sempre a dos outros.
Resumo da ópera. Dodói é que Rato Rouco é um pé de eucalipto. Não tem sucessor natural. Familia Cavalão é só mais uma familia. Bonifacio Andrade era descendente de José Bonifácio. Uma familia que teve algum poder por quase 200 anos. Miguel Arraes, Eduardo Campos, João Campos e Pedro Campos. Itagiba Brizola, Juliana e Brizola Neto. Sem falar no judiciario, não é incomum encontrar terceira ou quarta geração usando toga. Sem falar dos que não conseguiram sucesso. Filhos de prefeito. Netos de deputado.
‘[…] como o descaso com o lixo em nossas cidades,[…]’. Estrutura de poder que complica a questão do lixo em SM é outra. Cumplicidade e acobertamento das patotinhas. Que defendem, por exemplo, coleta seletiva, mas não cobram de quem tem que se movimentar. População que é porca, joga lixo no chão, desova moveis usados em sangas e arroios não está nem aí.
‘[…] no sentido profundo da identidade nacional,[…]’. Que só existe nas salas com ar condicionado da Academia.
‘Nesse ponto, lembrei de Freud, […]’. Que morreu em 1939. Os ‘defensores da ciencia’ estão estagnados numa pseudociência que beira 100 anos.
‘Aí a democracia passa a ser tratada como inimigo, […]’. Mensalão era compra de votos no Congresso via mesada. Petrolão era compra de votos via desvio de dinheiro de uma estatal. Se existe compra de votos no Congresso é considerado democrático?
‘[…] mas de devoção política com tintas de torcida. E torcida, quando se sente ameaçada, vira multidão, vira massa de manobra.’ Vale para os Vermelhos e para o Rato Rouco também. Um espelho.
‘E eis que surge uma família que se impõe no imaginário nacional, […]’. Quem faz a pauta dos noticiarios tradicionais são ‘jornalistas’. Majoritariamente de esquerda.
‘Tivemos rainhas populares, como a Xuxa, a rainha dos baixinhos, com seu império de fantasias e sorrisos.’ A sexagenária rainha dos baixinhos pateticamente busca relevância quando já era para ter pendurado as chuteiras. Alas, namorou Pelé.
‘Tivemos o “Rei” Roberto Carlos, o “Rei do Futebol” Pelé.’ Um passa fazendo cover dele mesmo numa carreira que já era para ter acabado. Outro já se foi.
‘Por que esse país, tão grande e tão atravessado por problemas reais, vive como se estivesse de vigia permanente em torno de um clã familiar?’ Dodói porque não é vigia de Molusco com L., abstemio, honesto e famigerado dirigente petista. Padim Rato Rouco.