A morte do cão Orelha: há uma evolução na crueldade e na barbárie?- por Amarildo Luiz Trevisan
“A educação sozinha não basta, se a impunidade impera no mundo virtual”

Com o passar da idade, tornamo-nos menos esperançosos e mais críticos – inclusive de nós mesmos. Ter, talvez, mais passado do que futuro contribui para esse olhar rigoroso. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que cada etapa da vida nos coloca escolhas interiores. Na velhice, ou mesmo no amadurecimento, muitas pessoas oscilam entre a amargura e uma forma serena de realização.
A realidade não melhora por decreto, mas o olhar pode decidir se ficará paralisado pelo pior, ou se procurará, sem negar os fatos, sustentar algum sentido para seguir agindo. Talvez faça parte desse processo entender que o legado não é entregar um mundo pronto às novas gerações. É oferecer referências, denunciar o que precisa ser denunciado, e ainda assim deixar espaço para que elas assumam a própria responsabilidade na reconstrução do comum.
Foi com essa lente que li a crônica de meu amigo Valdo Barcelos, “Tristeza Pavorosa”, publicada no Diário de Santa Maria nesta segunda-feira (9/2/2026). Valdo recorda que, há 29 anos, escreveu sobre o assassinato de Galdino Pataxó, queimado em Brasília na madrugada de 20 de abril de 1997, depois de participar das atividades ligadas ao Dia dos Povos Indígenas.
Agora, tantos anos depois, ele se vê obrigado a escrever sobre outra violência que chocou o país, a morte do cão comunitário Orelha, em 4 de janeiro de 2026, na Praia Brava, em Florianópolis. O desalento do Valdo é compreensível. Como sustentar a crença numa transformação coletiva quando jovens, que deveriam estar se formando para a vida pública, se deixam arrastar por práticas de humilhação e destruição?
A perplexidade de Valdo é um grito contra o ódio. Contudo, ele sustenta uma crença fundamental: a crueldade não é inata. Para Valdo, a violência é uma patologia aprendida por imitação, um reflexo do comportamento dos adultos que os jovens replicam. É uma visão que deposita na sociedade a culpa pelo desvio, mas que ganha contornos sombrios quando confrontada com a realidade digital.
Recentemente, assisti a uma especialista em crimes cibernéticos na TV comentando o caso Orelha. Ela explicou que é recorrente que jovens, em grupos fechados da internet, cometam atrocidades contra animais. Essa especialista resumiu o ponto com uma ideia antiga: há um prazer no horror.
Aristóteles já observava, na Poética, que podemos contemplar com prazer representações muito fiéis de coisas que, na experiência direta, nos causariam repulsa e dor. O cinema às vezes toca nesse nervo. O clássico Lawrence da Arábia (disponível na Netflix) explora precisamente esse dispositivo da nossa constituição: a natureza humana que se compraz em contemplar a dor alheia.
Para não permitir que os nossos esquemas de entendimento desmoronem diante desta reedição da barbárie, exerço aqui a ironia para propor uma análise histórica através de Sigmund Freud. Ao ver os seus livros queimados pelos nazistas, Freud ironizou: “Que progresso estamos a fazer. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje, contentam-se em queimar os meus livros”.
A provocação, aplicada ao presente, não sugere progresso real, nem autoriza alívio. Ela obriga a perguntar, com frieza histórica, o que mudou, o que permanece, e onde falhamos em formar sujeitos capazes de frear o impulso de destruir. Se a pergunta do título for honesta, ela não busca um veredito rápido. Busca um trabalho. E, diante do caso do cão Orelha, esse trabalho começa por recusar a banalização, recusar o espetáculo do horror, e insistir na educação como tarefa pública, cotidiana e inadiável.
Sob este prisma, talvez possamos conter o desespero. Não apaga a covardia do ato, mas o fato de o alvo ter passado do corpo humano (Galdino) para o animal (Orelha) sugere uma lenta mudança de escala, ou seja, há um deslocamento simbólico na escala da barbárie. Resta a esperança de que o “pelo menos” nos salve. Ninguém e nada no planeta merece a violência, mas, se o passado insiste em se repetir, que ele o faça em versões cada vez mais desarmadas de sangue. E que daqui a 29 anos, a próxima crônica relate um delito contra uma árvore ou uma pedra.
Contudo, a educação sozinha não basta, se a impunidade impera no mundo virtual. Fica aqui a sugestão: quem sabe o nosso Congresso Nacional, tão dedicado a agir com rapidez cirúrgica quando os assuntos interessam a si próprio ou aos seus “protegidos”, crie uma lei que puna com severidade exemplar esses jovens – ou seus responsáveis. É preciso que o crime cibernético contra animais seja tratado com o mesmo rigor do crime físico. Que a lei se imponha onde a educação falhou, para que o “prazer no horror” não encontre mais terreno fértil na omissão do Estado e/ou das Big Techs.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Resumo da opera II. Hegel já morreu. Os anciões deveriam saber que o futuro não lhes pertence, seu tempo ficou para tras.
Resumo da opera. Imbecis tentam transformar filosofia em receituário. Até a IA sabe: ‘a história é um processo racional e dialético de progresso em direção a um mundo melhor, definido como a “consciência da liberdade”‘.
‘[…] na omissão do Estado e/ou das Big Techs.’ Empresas não são inocentes. Imbecis que não entendem nada sobre o que estão falando vivem culpando o ‘algoritmo’. ‘É só mudar o algoritmo’. Alas, sempre que alguém fala mal do parlamento, qualquer que seja, não faltam outros imbecis passarem pano ‘o parlamento é espelho da sociedade’. Internet e redes sociais não são?
‘ É preciso que o crime cibernético contra animais seja tratado com o mesmo rigor do crime físico.’ Estava demorando o ‘pé na porta’. Se acham ‘espertos’, mesmo sem o equipamento certo para tanto. Daqui a pouco vão querer trinta anos de prisão para quem matar um personagem ficticio de video-game. Objetivo final não é este, no Reino Unido a policia bate na porta e prende gente por conta de posts em rede social.
‘[…] crie uma lei que puna com severidade exemplar esses jovens – ou seus responsáveis.’ Evidencia de que existe predisposição ao linchamento no Brasil. Teoricamente a punição, observada a lei, deveria ser algo racional e não emocional. Vermelhos não tem racional, vivem no emocional. A lei é geral, não exite ‘lei para pobre’ e ‘lei para rico’. Vermelhos tem suas ‘clientelas’ e estas podem tudo. Rigor da lei é para os outros.
‘Contudo, a educação sozinha não basta, se a impunidade impera no mundo virtual.’ Propaganda. Vide Lava a Jato.
‘Não apaga a covardia do ato, mas o fato de o alvo ter passado do corpo humano (Galdino) para o animal (Orelha) sugere uma lenta mudança de escala,[…]’. Cumulo da ‘catação de milho’. G1, junho de 2025 ‘Homem em situação de rua é queimado em São José dos Campos’. Talvez por não ser indio ele ‘não conte’. Globo, outubro de 2025, ‘Policia estoura rinha de galo em Araruama’, esta gurizada da internet não é facil! CNN, 2023, ‘Por dentro do mundo subterraneo das brigas de cães’, onde a gurizada da internet arruma dinheiro para isto?
‘A perplexidade de Valdo é um grito contra o ódio. […] assisti a uma especialista em crimes cibernéticos na TV comentando o caso Orelha. Ela explicou que é recorrente que jovens, em grupos fechados da internet, cometam atrocidades contra animais.’ Propaganda. ‘Odio’. ‘Especialista’ inominada. Informação dificil de verificar. Um exemplo único, mas é ‘recorrente’.
‘[…] ele sustenta uma crença fundamental: a crueldade não é inata. Para Valdo, a violência é uma patologia aprendida por imitação, um reflexo do comportamento dos adultos que os jovens replicam. É uma visão que deposita na sociedade a culpa pelo desvio, […]’. Jean-Jacques Rousseau. Século XVIII.
‘O desalento do Valdo é compreensível. Como sustentar a crença numa transformação coletiva […]’. Crença é fé. Fé é religião. É problema do crente, não da humanidade. Mundo não foi feito para atender as expectativas de ninguém.
‘[…] ele se vê obrigado a escrever sobre outra violência que chocou o país, […]’. Sim, uma pessoa ‘importantissima’ que se viu na obrigação de despender algumas gotas de ‘sabedoria’ para a malta ignorante. Kuakuakuakuakuakua! O mais engraçado é o ‘chocou’ o pais! Kuakuakuakuakuakua! Aviso aos anacronicos: só porque a midia tradicional esta bombardeando a população com um assunto não significa que a totalidade dela esta prestando atenção ou, se estiver, esta dando a mesma importancia. Alas, Diario Vermelho só tem uma utilidade, forrar a caixa de areia de gato.