Entre palavras e mundos: uma resposta em travessia – por Amarildo Luiz Trevisan
Réplica? Não, mas “tentativa de resposta, dessas que continuam a conversa”

Recebi com atenção – e sincero agradecimento – a crônica publicada por um estimado ex-colega aposentado da UFSM, que se dispôs a dialogar criticamente com meu texto “A filosofia como leitura de mundos”. Em tempos de leituras apressadas e silêncios confortáveis, toda crítica é, antes de tudo, um gesto de interlocução. E é nesse espírito que arrisco aqui algumas linhas – não como réplica, mas como tentativa de resposta, dessas que continuam a conversa em vez de encerrá-la.
O texto é uma crítica à frase de Paulo Freire, “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. O autor argumenta que essa formulação, muito repetida em cards e discursos pedagógicos, ou é trivialmente verdadeira, se significar apenas uma experiência pré-linguística e perceptiva do mundo, ou é falsa, se pretender dizer que já existe uma interpretação organizada da realidade antes da linguagem. Para ele, nessa segunda hipótese, toda leitura do mundo já seria mediada por conceitos e palavras.
O autor também sustenta que a frase ganhou um peso teórico que não consegue suportar. Ele observa que ela aparece tardiamente na obra de Freire, em 1981, e depois passa a circular como se resumisse todo o seu pensamento anterior. No texto, isso é apresentado como um caso de “deslizamento semântico”, isto é, uma expressão que se institucionaliza e passa a ser repetida sem exame rigoroso de seu sentido.
No fim, o artigo defende que o método freiriano não parte simplesmente do “mundo do oprimido”, mas chega a ele com categorias já organizadas, políticas e conceitualmente carregadas. Por isso, o autor conclui que é preciso ler Paulo Freire com mais rigor e menos slogans.
O que me parece estar em jogo, no entanto, é menos uma divergência pontual e mais um desencontro de horizontes interpretativos. A crítica apresentada incorre, a meu ver, em uma limitação metodológica importante ao adotar predominantemente o viés da filosofia analítica para interpretar uma obra cuja matriz é explicitamente dialética e hermenêutica, como é o caso do pensamento de Paulo Freire.
Talvez por isso, o texto crítico não chegue a penetrar no espírito da obra freiriana. Ao privilegiar uma análise semântica da linguagem, toma a palavra como estrutura ou significação, quando, em Freire, ela é antes de tudo práxis – ação situada, historicamente encarnada. O resultado é uma espécie de “gramática sem mundo”, ou, dito de outro modo, uma semântica que se afasta da pragmática, como se o sentido pudesse existir fora da vida.
Mas, como já nos ensinou a tradição hermenêutica, não há leitura sem pertencimento, nem compreensão sem horizonte. Talvez por isso a crítica se detenha mais na desconstrução dos termos do que na reconstrução do movimento interno do pensamento. As palavras são examinadas como peças de um jogo, mas o jogo maior – ético, político e pedagógico – acaba ficando fora do campo de visão.
E é justamente aí que se perde, a meu ver, o ponto decisivo: a unidade entre leitura do mundo e leitura da palavra. Em Paulo Freire, essa relação não se organiza como uma sequência de etapas, nem como dois momentos isoláveis. Quando ele fala da precedência da leitura do mundo, não propõe uma cronologia rígida, mas indica uma condição existencial: o sujeito já está no mundo, já o interpreta, antes mesmo de encontrar a palavra escrita.
Essa leitura do mundo constitui o horizonte prévio de toda compreensão – aquilo que a hermenêutica reconhece como condição de possibilidade do entender. Mas esse horizonte não é fixo. Ele se transforma. E se transforma precisamente quando a palavra entra em cena.
Aqui começa o movimento dialético: a palavra nasce do mundo vivido, mas, ao ser apropriada criticamente, retorna a esse mundo e o reconfigura. Não há separação, portanto, mas um vai-e-vem contínuo — experiência que se torna linguagem, linguagem que reinterpreta a experiência. Mundo e palavra se constituem mutuamente.
Convém esclarecer com maior precisão que, em Paulo Freire, a relação entre leitura do mundo e leitura da palavra deve ser compreendida a partir de uma perspectiva hermenêutico-dialética, o que impede qualquer tentativa de separação rígida entre ambas. Quando Freire afirma a precedência da leitura do mundo, não está postulando uma anterioridade cronológica que autorize sua autonomização, mas indicando uma condição existencial: o sujeito já está sempre imerso em práticas de interpretação da realidade antes mesmo do contato sistemático com a palavra escrita.
Nesse sentido, a leitura do mundo constitui o horizonte prévio de compreensão – aquilo que a tradição hermenêutica reconhece como condição de possibilidade de todo entendimento. Contudo, esse horizonte não permanece estático, pois é continuamente reconfigurado pela mediação da linguagem. É aqui que se impõe a dimensão dialética do processo: a leitura da palavra não apenas se apoia na leitura do mundo, mas retorna sobre ela, transformando-a criticamente. Mundo e palavra, portanto, não se sucedem como etapas isoladas, mas se constituem mutuamente em um movimento contínuo de interpretação e reinterpretação.
Diferentemente disso, uma abordagem analítica que tende a isolar a linguagem de sua inserção histórica e existencial acaba por fragmentar esse processo, tratando leitura do mundo e leitura da palavra como operações independentes ou, no limite, como jogos de linguagem dissociáveis. Ao fazê-lo, perde de vista que, em Freire, o sentido não reside na estrutura formal da linguagem, mas emerge da relação viva entre sujeito, linguagem e realidade histórica.
Assim, negar ou obscurecer a dialeticidade entre leitura do mundo e leitura da palavra implica reduzir a potência crítica da proposta freiriana, convertendo um processo formativo e transformador em uma análise abstrata da linguagem. É precisamente nessa redução que se encontra um dos principais problemas interpretativos da crítica em questão.
Quando essa relação é tratada como se fossem operações independentes – ou, no limite, como jogos de linguagem isolados – algo essencial se perde. A linguagem deixa de ser prática para se tornar objeto; o sujeito desaparece como ser histórico; o sentido se desloca da vida para a estrutura.
É nesse ponto que a abordagem analítica revela suas limitações. Ao fragmentar aquilo que, em Freire, é um processo unitário e dialético, ela enfraquece a compreensão do fenômeno educativo. Negar — ou simplesmente não reconhecer — essa dialeticidade não é um detalhe secundário: é, a meu ver, um problema interpretativo central.
Em síntese, a crítica analisada permanece presa a um paradigma que não dialoga adequadamente com o objeto que pretende compreender. Ao ignorar a hermenêutica e a dialética freiriana, acaba por oferecer uma leitura parcial, que mais revela os limites de seu próprio método do que as fragilidades do pensamento que busca criticar.
No fundo, talvez estejamos diante de duas formas distintas de ler – não apenas textos, mas o próprio ato de ler. Uma que busca clareza na separação e na análise dos elementos; outra que aposta na compreensão como movimento, como relação, como travessia.
Fico, ainda assim, com a convicção de que o diálogo entre essas perspectivas continua sendo possível – e necessário. Afinal, como diria o próprio Freire, é no encontro de leituras que o mundo se torna mais legível.
E sigo lendo – palavras e mundos – com a esperança de que também sejamos, todos nós, um pouco relidos nesse processo.
(*) Amarildo Luiz Trevisan é licenciado em Filosofia, mestre em Filosofia (UFSM), doutor em Educação (UFRGS) e pós-doutor em Humanidades pela Universidade Carlos III de Madri. Tem formação teológica pela Diocese de Goiás. É Professor Titular aposentado da UFSM e atua como Professor Visitante no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN. Publicou diversos trabalhos, entre eles o livro Terapia de Atlas: Filosofia da educação no contemporâneo (EDUCS, 2020). Ele escreve no site aos sábados.





Resumo da opera. Ianques tem uma palavra para isto, ‘wordsmithing’. Artesanato de palavras.
Mais uma. Outra noticia de um fato não muito novo. Em Uganda havia um bando de chipanzes. Algo como 200 individuos convivendo pelo menos na duas ultimas decadas. Doença, morte de velhas lideranças. Eclodiu uma guerra civil. Um grupo menor liderados por um macho alfa, Grupo do Oeste, começou a fazer patrulhas, emboscadas e ataques contra o Grupo do Centro. Matando inclusive infantes. Pergunta: como o regime da Academia é feudal e departamentos de diferentes disciplinas não ‘conversam’ uns com os outros, o que PF diria sobre isto? Não vai faltar alguém para montar um texto fazendo contorcionismo com as palavras para colocar idéias na boca do finado.
Outro aspecto. Quem mais discute o que é consciencia hoje em dia é o pessoal de inteligencia artificial. Que não tem só gente de ciencia da computação e da matematica, tem gente da neurosciencia e da psicologia também.
Nicho do nicho. Ha discussões da importancia da filosofia na fisica. Alguns embates mais ‘quentes’. Semana que passou um filosofo da fisica andou rebatendo alguns fisicos, John Daniel Norton, professor em Pittsburgh. Alas, a pesquisa teorica em fisica estacionou na decada de 70. Nada de novo, tribalização. Estruturas matematicas baseadas no ‘se a quinta desta semana cair num domingo’.
Ponto importante. Nos lugares sérios os departamentos de filosofia são considerados de direita. Sem necessariamente ser. Ao contrario das letras, educação e congeneres tem receio em prostituir a propria disciplina para beneficiar uma ideologia. Nas universidades ianques e da Inglaterra, antes consideradas ‘melhores do mundo’ certos departamentos de humanidades só produzem lixo ideologico.
‘[…] é menos uma divergência pontual e mais um desencontro de horizontes interpretativos.’ Cade a citação a Gadamer? Se um(a) aluno(a) faz isto num trabalho na Academia ‘leva pau’ até não poder mais. Ou vai chupinhar e colocar na conta do PF?
‘Ao privilegiar uma análise semântica da linguagem, toma a palavra como estrutura ou significação, quando, em Freire, ela é antes de tudo práxis […]’. Tendencia que se ve nos canais de esquerda do youtube. Esquerda só tem (ou teria) discurso.
A coisa toda gira em torno da pedagogia critica, Paulo Freire, neomarxismo. Outros ‘estudiosos’ da coisa. Henry Giroux (ainda vivo e publicando) e a finada Bell Hooks. Primeiro texto reclama da inteligencia artificial. Da difrença entre escolas particulares (formação ‘menos humanizada’) e publicas. Da ‘rapidez’ e do imediatismo do mundo atual. Reclama da guerra, ‘a guerra é um jogo masculino’. Ou seja, as coisas não são como costumavam ser, saudosismo e atraso. Confunde caracteristica com defeito.
Bueno, o velho problema da baboseirada pseudo-intelectual. Sustentada com dinheiro publico.