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Carta para minha mãe – por Márcio Grings

Santa Maria, sexta-feira, 19 de setembro de 2014.

E aí, Mãe! Como vão as coisas? Espero que esteja tudo bem. Aqui, tô de boa. Não vai acreditar, mas todos os dias os lençóis estão simetricamente ajustados sobre a cama. A tão corriqueira bagunça já faz parte do passado. Acredita? Parece que finalmente vivo uma nova fase, com pia limpa e louça lavada.  Banheiro cheirando a pinho. Incenso queimando na sala e sua fumaça promovendo desenhos que fogem pela janela. Piso/espelho refletindo todas as cores da estante de livros e discos. Sempre tem um vaso com junquilhos exalando ‘aquele’ aroma peculiar pela casa. Vou te falar do processo de compor um som: é assim, a inspiração surge enquanto abro a tampa superior da cafeteira para assestar o pó de café no filtro de papel. Vem uma estrofe inteira antes do treco deflagrar o primeiro ronco. Sério, tudo muito rápido. Incrível!

Lá fora, grama cortada e arvoredo brotando. Gatos & cães alimentados e espalhados pelos quatro cantos. Caçando, dormindo, coçando as pulgas, trepando nas árvores ou pulando a cerca. Ah, em breve pretendo apanhar pitangas no fundo do pátio. A floração é uma promessa de muitas frutinhas. Infelizmente, voltou a acontecer aquele ruído no portão de metal, quando a estrutura corre pela roldana. Ele parece mais pesado como efeito da umidade das últimas semanas. O impacto do batente contra a base fixa do muro faz um barulho danado. Ferro contra ferro. O cheiro dos pinheiros foi atenuado depois que cortaram duas ou três árvores. Nunca me esqueço daquele cheiro característico de uns anos atrás.

As formigas insistem em detonar com as folhas da extremosa e do pé de ameixa. Faz tempo que isso acontece e nunca descobri onde raios elas se escondem. Que mistério fodido! As plantas estão novamente no arame. Até hoje não entendo por que ainda não fui até a droga da agropecuária comprar veneno. O lugar onde faríamos a horta foi tomado por inços e pragas diversas. Um dia vai haver uma plantação de hortaliças ali. Eu juro.

Noite dessas, aquelas insetos com asas apareceram de novo. Eles ficaram sobrevoando a luz do abajur. Matei dezenas deles. O cesto na área de serviço está transbordando de roupas sujas que certamente não serão lavadas nos próximos dias.  Continua acontecendo, toda vez que olho para o sol, espirro. Penso que espirrar é um tipo de benção.  Não tenho pretensão de preparar rango de panela nesse fim de semana. Isso porque há um punhado de guisado cozido na geladeira. Somado à alface, tomate e pães, esse negócio se transforma numa deliciosa torrada que atualmente – não apenas é minha refeição matutina – como também vira almoço e janta. Tenho convicção, qualquer nutricionista aprovaria esse cardápio. Apesar de eventualmente sentir uma violenta queda de pressão pelo déficit de alguma coisa. Calculo eu. Por isso, comprei minha cerveja favorita e vinho de colônia pra promover alguma espécie de equilíbrio durante, entre e depois das refeições. Nada como a experiência humana.

Aguar as folhagens é extremamente relaxante.  Parece que sou uma espécie de Deus que leva alívio aos miseráveis. Com a proximidade da primavera, as aranhas gigantes voltaram a aparecer. Suponho serem maiores que as do ano passado. Noite dessas, uma delas surgiu na minha cama e precisei acabar com a desgraçada. Uma espécie de sangue amarelo manchou o cobertor. Comprei uma calça nova. O lance é que novamente andei emagrecendo e agora visto manequim 40. Isso nunca aconteceu desde que virei homem feito, mesmo assim, não acho nada preocupante. Sinceramente, espero que esteja se divertindo e fazendo coisas bacanas por aí. Todos os dias, ainda continuo trilhando o caminho mais longo. Sou ávido por não repetir as mesmas curvas e evitar velhos solavancos que já me derrubaram em outros tempos.

Tenho saudade de algumas coisas que vivi. Outras não. No trabalho, tudo bem. A novidade é que parei de ficar ansioso. Baixei algumas frequências e acabei me ajustando a esse modo de vida solitário. Umas duas ou três vezes por semana eu pego o guri na casa da mãe dele. Ficamos jogando conversa fora e olhando Simpsons ou o Hugaroo na TV. Sabe, sinto-me apaziguado e devidamente pronto para atravessar essa ponte sobre águas turbulentas.  A terapia parece estar ajudando. Ah, comprei um isqueiro Zippo para acender o fogo dos churrascos no fim de semana. Gosto de ouvir o som da tampa baqueando sobre a chama.

Ando sonhando umas coisas estranhas. De resto, tudo bem. De vez em quando abro a tua casa e deixo a luminosidade promover uma arejada de leve pelas peças. Se quiser falar comigo, deixa uma mensagem no Zap Zap.

Beijo e até qualquer dia desses.

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